Discretos rebeldes

Vargas Llosa descreve o heroísmo de anônimos em novo livro

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2013 | 02h12

Aos 77 anos, o escritor peruano Mario Vargas Llosa ainda acredita em heróis. Não os que usam capas e cuecas sobre as calças, voando e caçando bandidos, mas um outro tipo, pode-se dizer quase improvável: aquele que, mesmo vivendo entre mafiosos ameaçadores, governos corruptos e familiares gananciosos, mantém uma integridade inabalável. "Gosto do sujeito comum, autêntico, invisível na sociedade, mas vital para a sua boa manutenção", diz ele, que elegeu um homem com esse perfil para protagonizar O Herói Discreto, seu mais recente romance, lançado agora pela Alfaguara.

Trata-se de uma agradável surpresa - depois de conquistar o Nobel de Literatura em 2010, Llosa lançou um livro notadamente triste, O Sonho do Celta, e, em seguida, um conjunto de ensaios, A Civilização do Espetáculo, em que duramente critica a banalização das artes e da literatura, o triunfo do jornalismo sensacionalista e a frivolidade da política, Llosa - que conversou com o Estado por telefone, desde Nova York, na quinta-feira - volta-se para um tema mais solar e otimista.

Agora, seu herói discreto chama-se Felícito Yanaqué. Proprietário de uma empresa de transportes em Piura, no norte peruano, ele é surpreendido, certo dia, por uma chantagem: uma carta anônima, presa à porta de sua casa, informa que sua família e sua empresa continuarão em paz desde que ele aceite fazer um pagamento mensal. O texto não é assinado e termina com o desenho de uma aranha. Para piorar, seus amigos empresários que também foram alertados, temerosos, acatam a extorsão para manter a tranquilidade.

Fiel à recomendação deixada pelo pai ("Nunca se deixe pisar por ninguém, filho. Este conselho é a única herança que posso lhe deixar"), Yanaqué decide enfrentar o inimigo invisível, mesmo colocando em perigo o trabalho, os amigos e os familiares. É o início de uma epopeia em que Llosa volta a situar o Peru como cenário de uma história, agora acompanhando o embate entre vilania e integridade.

Volta-se também para personagens que já marcaram sua obra, como Lituma e Don Rigoberto, que não apenas complementam a trama como também promovem um jogo de contrastes. "Acredito que O Herói Discreto seja a obra mais otimista que já escrevi", comentou Llosa, agora preparando uma peça de teatro.

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