''Disco é um romance com capítulos''

''Disco é um romance com capítulos''

Vocalista inglês defende download só na forma integral e diz estar feliz com decisão da justiça em favor do Pink Floyd

Guy Garvey, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2010 | 00h00

Artistas saem vitoriosos em disputa por downloads

Fiquei contente quando soube que o Pink Floyd havia vencido, no começo do mês, a disputa legal com a EMI. A banda conseguiu garantir que os seus álbuns estejam disponíveis para download apenas em formato integral, e não como músicas individuais. Não fiquei feliz por enxergar o caso como uma vitória de Davi contra Golias - o Pink Floyd é um gigante entre as bandas -, mas porque, como músico, dou grande valor à integridade de um álbum.

Não me interprete mal: tenho 10 mil músicas em meu iPod, e há dias em que opto pela reprodução aleatória. John Lennon vem logo depois de Spike Jones e os City Slickers, e acho ótimo. Mas escutar um álbum completo proporciona uma experiência diferente. Em se tratando de meus discos favoritos, quando chegam ao fim, o ouvinte não está mais no mesmo lugar onde estava quando começou a ouvi-los. Eles transformam nosso estado de espírito, contam uma história, levam-nos para algum lugar distante.

Queríamos que nosso novo disco, The Seldom Seen Kid, fosse disponibilizado para download apenas em sua forma integral, ou como conjuntos de músicas - mas enfrentamos uma grande oposição. Grandes lojas digitais como a iTunes não gostam da ideia porque acham que isso tira do consumidor o direito de escolher. E as gravadoras não gostam porque acreditam que a venda de álbuns inteiros em formato eletrônico terá uma procura menor.

Assim, agradeço ao Pink Floyd; a partir de uma perspectiva puramente artística, a exigência da banda faz sentido. Seus álbuns não funcionam como músicas individuais, com exceção daquelas que a banda lançou como compactos. Os músicos do Pink Floyd ganharão menos dinheiro com isso, mas a questão não era essa. Eles querem preservar a integridade de sua música, e todo artista deveria ter esse direito.

Algumas bandas, como a Ash, lançam uma música por mês, e não há problema nisso se é essa a proposta. Mas se essa escolha significa uma opção pelo lançamento de uma coleção de pequenas histórias, nós encaramos os álbuns de nossa banda, Elbow, como romances formados por capítulos. As músicas dão sustentação umas às outras; não temos álbuns conceituais, mas queremos que as músicas funcionem como um todo. Na verdade, quando tínhamos quase concluído The Seldom, preparamos faixas adicionais porque achamos que em determinados pontos o disco carecia de certas cores. É assim que os álbuns são feitos: gastamos boa parte da vida trabalhando num deles, pensando em cada nota e em cada efeito sonoro.

Há poucos dias, trabalhei na masterização do álbum I Am Kloot, que coproduzo com Craig, do Elbow. Passamos duas horas no estúdio com a banda, debatendo se o tempo entre as músicas deveria ser de 3 ou 2,5 segundos. Quando investimos o coração e a alma num álbum, queremos que as pessoas o escutem da forma pretendida por nós. Remover uma música de seu contexto pode alterar seu significado.

Lullaby. Um de meus álbuns recentes favoritos é Glory Hope Mountain, do The Acorn. Rolf Klausener escreveu sobre como sua mãe escapou de uma infância de abusos em Honduras, onde a mãe dela morrera no parto. A última música, Lullaby, é uma mensagem de sua avó para sua mãe. Ouvida em separado, a canção é incrivelmente bela; quando ouvida no fim do álbum, é devastadora.

Não estou dizendo que o iTtunes e as gravadoras sejam os vilões. Eles revolucionaram o acesso à música, disponibilizando-a num maior número de plataformas, e acompanharam o desejo do consumidor, melhorando a qualidade do som. Acho apenas que seria bom se eles respeitassem os desejos dos artistas também. Essas empresas não existiriam sem a música, e a integridade dos artistas que a produzem deve ser respeitada. É por isso que fiquei tão feliz com a vitória do Pink Floyd: o álbum é uma forma de arte que merece proteção. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

GAY GARVEY É VOCALISTA DA BANDA BRITÂNICA ELBOW

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