Discípulo branco de Prince

Jamie Lidell vem mostrar que é mais filho dos anos 80 do que da Motown

Emanuel Bomfim e Paola Messina, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2011 | 00h00

Cada vez mais cultuada, a nova soul music virou símbolo do que há de mais moderno. Vintage, para os mais íntimos. Até grandes festivais, tradicionalmente impulsionados pelo rock, vêm se pautando pelo som dos novos representantes da música negra. Um dos pioneiros desta cena, escoltada pelo groove da década de 60, estará por aqui na próxima sexta, dia 5, na Clash Club. O diagnóstico dado por ele contraria até sua fama de "Stevie Wonder dos anos 2000": "Sou mais do que um garoto que revisitou o soul", diz em entrevista ao Estado. Em parte, Jamie Lidell queria realçar o espírito oitentista que povoa seu trabalho mais recente, Compass. O recado, porém, buscava descolá-lo de qualquer rótulo mais óbvio. Ainda que Multiply (2005) e Jim (2008) possam enquadrá-lo entre os que praticam a "new soul", Lidell sempre levou suas experiências para terrenos mais abstratos, criados a partir do mix do acústico com o sintético, do antigo com o novo. Em sua segunda passagem pelo Brasil, este branquelo inglês fã incondicional de Prince estará acompanhado de um trio para dar conta de reproduzir no palco uma música complexa, mas extremamente cativante.

Do que você se lembra do show que fez no Rio, em 2005?

A viagem do aeroporto até a cidade. Nunca vi nada igual. Uma incrível mistura de cores, vida e indústria. Andamos por lá e chegamos a um café onde quatro caras estavam bebendo e tocando. Um deles não tinha dentes e cantava. Parecia que o dono do lugar ia mandá-los embora, mas ele pegou uma cabaça e começou a criar um belo ritmo com um sorriso enorme! Nunca vou me esquecer daquilo.

Você une sons eletrônicos com a soul mais pura. O que o levou a compor assim?

Eu cresci escutando Prince de forma intensa e ele foi meu guia. Ele sempre procurava juntar elementos eletrônicos com instrumentos "verdadeiros". Depois, cantava seu blues e R&B por cima daquela base. Eu nunca tive problemas em unir sons sintéticos com a canção tradicional porque cresci nos anos 80! Sempre amei The Human League! Isso é simplesmente a história se repetindo...

Existe uma diferença marcante entre Multiply e Jim e seu álbum mais recente, Compass. Parece que você foi de um soul "feel-good" dos anos 60 para um som mais eletrônico dos 80. O que inspirou essa mudança?

Compass te leva a uma aventura sonora. Ele pega Tom Waits, Luther Vandross, um pouco de folk inglês, algo cru da América, tudo misturado ao caos que circula na minha cabeça. É muito eu, muito mais do que um garoto que retornou ao soul.

Como foi trabalhar com Feist, Beck e Pat Sansone (do Wilco) em Compass?

Ter talentos como eles ao meu redor foi impressionante. Com Feist, eu trabalhei um pouco em seu álbum, The Reminder. Ela é o tipo de pessoa que pode estar batendo um papo e, no próximo minuto, arrasa em uma gravação. Beck sempre foi muito interessante pra mim, tem uma coleção enorme de discos. Já Pat Sansone é meu amigo e toca como um mestre. Em todos os instrumentos ele dá um toque especial.

Os lugares onde você morou influenciaram em sua música?

Nunca sei como responder a essa pergunta. Eu acredito que seja o ritmo do lugar que mais me influencia. Se estou em Nova York, sinto uma urgência completamente diferente de quando estou em Nashville, onde moro agora com minha namorada. O baixo que você ouve no seu carro soa incrível em ruas barulhentas, como nas de Nova York e Londres, sempre com obras ao redor. Curto o calor e a pressa da cidade, mas a tranquilidade do campo está perfeita pra mim agora. A música é simplesmente um fluxo. Basta ser saborosa, que não vou questionar o que a faz acontecer.

Tem algum álbum em especifico que você não cansa de ouvir?

Bridge Over Troubled Water, da Aretha Franklin. A introdução do show ao vivo é o máximo! Esse é o tipo de som no teclado que sempre estou procurando tirar. Tudo ali é bom: os backing vocals, o local, a época... O poder da música cantado por aquela mulher é de arrepiar!

Você ouve música brasileira?

Tenho vergonha de dizer que não. Eu sei que o Beck tem uma coleção enorme e Mr. Jimmy, meu tecladista, conhece várias músicas que certamente eu iria curtir. Nessa viagem eu preciso comprar uns discos urgentemente. As pessoas poderiam dar sugestões no meu Facebook. Adoraria isso.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.