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Diretores explicam como a aventura humana foi decisiva para 'Intocáveis'

Filme de Eric Toledano e Olivier Nakache é a segunda maior bilheteria da história do cinema francês

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo,

31 de agosto de 2012 | 03h12

Era tudo muito improvável, uma aposta grande. Contar o que seria um drama - a redenção de um tetraplégico - pelo humor; a história de uma dupla que não poderia ser mais diferente, a de um francês branco e rico e a de um imigrante negro, ex-presidiário; e outra dupla, formada por um comediante de TV e um ator formado na escolas do teatro e do cinema. Quando se lançaram ao desafio de fazer Intocáveis, os diretores Eric Toledano e Olivier Nakache não tinham muita certeza de estar fazendo a coisa certa. Mas, em seu quarto filme com o ator Omar Sy, eles só tinham certeza de estar oferecendo um grande papel ao comediante que tem crescido com eles. O megassucesso de Intocáveis pegou todo mundo desprevenido. O filme virou um fenômeno.

É a segunda maior bilheteria da história do cinema francês - após Bienvenue chez les Ch'tis, A Riviera Não É Aqui, de Dany Boon. A outra comédia pode ter arrebentado na França, atingindo estratosféricos 25 milhões de espectadores. Intocáveis teve de se contentar com 'apenas' 19 milhões, muito mais que os 12 milhões que transformaram Tropa de Elite 2, de José Padilha, num fenômeno no Brasil. Numa entrevista por telefone, o repórter observa para Eric Toledano que fazer todo esse público em seu país foi fácil. O desafio é tentar ganhar o público brasileiro. O espectador, aqui, prefere os blockbusters de Hollywood. O Brasil pode ser um dos mercados preferenciais do cinema francês - um dos dez mais, quase sempre -, mas é um público cinéfilo que prefere o cinema de autor.

Há indícios de que Intocáveis poderá quebrar a escrita. O filme abriu o recente Festival Varilux (de cinema francês) em 35 cidades brasileiras. E...?, pergunta Toledano. Muitos aplausos, no Rio, em São Paulo, em Porto Alegre, no Recife. Intocáveis fez o crossover dos mercados regionais do País. Todo mundo, de Norte a Sul, riu e chorou com os personagens de François Cluzet e Omar Sy. "Era o que queríamos, realmente", explica Nakache. "Não houve fórmula em Intocáveis. Alguns críticos nos EUA nos acusaram de ser manipuladores, imagine, logo os norte-americanos, que manipulam tanto com o cinema deles. Mas é compreensível. Eles dominam o mercado de cinema no mundo, não podiam aceitar que a gente entrasse num território que é deles, o das duplas birraciais."

Intocáveis, ele continua, não foi feito para faturar - o sucesso foi consequência, e é bem-vindo. Outra vitória do cinema popular francês, após o Oscar de O Artista, de Michel Hazanavicius, com Jean Dujardin. "Nosso cinema, como o de Michel e Jean, é popular no sentido de que representamos uma nova geração francesa, que quer falar com o público, e não apenas no país. Queremos fazer filmes para os franceses e o mundo", explica Nakache. Em ambos os casos, havia um componente de risco - um filme em preto e branco, sem diálogos, em O Artista, e a história, que poderia ser de dois infelizes, mas é sobre a força da amizade superando os limites, em Intocáveis.

Toledano conta como tudo começou - estava em casa, num fim de noite, ligado na TV. E começou aquele documentário sobre a ligação entre um tetraplégico e o descendente de imigrantes que virou seus braços e pernas. "Bingo! Embora ele fosse muito diferente da figura real, imediatamente pensei que era o papel que Olivier e eu buscávamos para Omar." Ele foi ao Marrocos, em busca do personagem real. Ao mesmo tempo, buscava com Nakache o que seria o ator ideal para dividir a cena com Omar Sy. "Pensamos primeiro em Daniel Auteuil, que também é muito bom, mas o filme teria sido diferente e não creio que produzisse a mesma mágica."

Por se tratar de um delicado equilíbrio entre humor e drama, Toledano diz que o roteiro foi muitas vezes escrito e reescrito, para chegar ao tom certo. "Por isso mesmo, não houve muita improvisação. É difícil conter um ator como Omar, que é uma força da natureza, mas ele tinha consciência de que havia um equilíbrio precário e, qualquer excesso, poderia ser prejudicial." O tempo todo a dupla de diretores estava empenhada em contar, da melhor maneira possível, a história que era atraente por seu aspecto humano, mas se há uma coisa que Toledano e Nakache também perceberam, em seguida, era a dimensão política do projeto.

"Seríamos tontos se não tivéssemos percebido o que o crítico do Le Monde colocou de forma sucinta e objetiva - nosso filme coloca a França no espelho. A Europa, não vou nem dizer a França, tem uma tradição colonial muito forte. E desconfia do outro. Nossos imigrantes são vistos como inimigos. O milionário tetraplégico é a representação dessa França imobilizada socialmente e que precisa dos imigrantes a quem, no fundo, discrimina. O filme pode ter aspectos incorretos - só os norte-americanos fazem humor politicamente correto. Mas essa dimensão política é das mais relevantes." Na melhor cena, uma festa, Omar dança para Cluzet. "Na vida, o cara nem sabe dançar. Essa cena é pura ficção, mas para nós ela é, dramaturgicamente, o centro do filme. O cara que dança não para o outro, mas pelo outro. É o símbolo da amizade."

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