Festival do Rio/Divulgação
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Diretores brigam na justiça

Gisella de Mello processa a Tibet Filmes e Geraldo Motta pela coautoria de Senhor do Labirinto

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2010 | 00h00

Foi o melhor filme da mostra competitiva da Première Brasil no recente Festival do Rio, mas o júri oficial não se deixou seduzir por suas qualidades. O público, sim, fez a escolha mais ousada e atribuiu o Redentor de melhor filme a O Senhor do Labirinto, de... Justamente a autoria - encerrado o festival, Gisella de Mello ingressou com uma ação na 51.ª Vara Cível do Rio contra a empresa produtora Tibet Filmes e Geraldo Motta. Ela reivindica a coautoria e indenização por danos materiais e morais. "Fui humilhada demais."

A disputa interna vem do começo do ano, mas explodiu no Rio. "Não me convidaram para a festa do filme que dirigi, a produção não queria que participasse do debate e, no fim, fiquei fora da cerimônia de premiação", reclama. Sua advogada, Debora Sztajnberg, cujo escritório participou do recente processo de direitos autorais envolvendo Roberto Carlos, anuncia que não está entrando em aventura temerária.

"Checamos 500 vezes as informações em busca de embasamento jurídico e Gisella também retardou ao máximo a entrada com o processo, em busca de um acordo que a atendesse. Ela foi ignorada e humilhada. Agora, eles (a Tibet e Motta) vão ter de responder perante a lei." O advogado da empresa, André Menasche, retruca. "O crédito está lá. Um filme de Geraldo Motta, codireção de Gisella de Mello. Não pode haver alegação de co-autoria negada. O que elas querem? Crédito total? Ainda não fui notificado dos termos do processo, não sei o que reivindicam e, portanto, não posso avançar na discussão, mas Gisella foi contratada para ser codiretora por um período específico. Não importa o motivo. Ela cumpriu seu papel, foi paga, tem o crédito. Para mim, o caso é tranquilo."

Mas o advogado reconhece - "Nosso escritório tem tradição na assistência jurídica a filmes brasileiros e eu nunca vi um caso em que as partes estejam tão intransigentes." Isso talvez ocorra porque envolve uma amizade agora rompida. Geraldo Motta e Gisella de Mello conheceram-se há 15 anos no set da produção que virou simplesmente o maior imbróglio do cinema brasileiro - Chatô, de Guilherme Fontes. O projeto do Senhor nasceu com Geraldo Motta, escolhido pela autora do livro, Luciana Hidalgo, que também co-assina o roteiro. O "senhor" é Artur Bispo do Rosário, o gênio que produziu sua arte internado, como louco, na colônia Juliano Moreira (Rio). Gisella não contesta a antecedência de Motta no projeto nem seu trabalho como co-produtor, buscando recursos em Sergipe e na cidade do Bispo, Japaratuba. Mas Motta precisou ser internado e Gisella continuou tocando a produção. Ele assume que ela codirigiu, mas afirma que o conceito do filme é seu. Sempre que houve choque de opiniões, a última palavra era dele. "O autor sou eu."

É o que Gisella contesta. "Reestruturei o roteiro, que era infilmável, estive o tempo todo com o Geraldo no set e dirigi enquanto ele não estava. Tudo isso pode ser documentado." Ela diz mais: "A concepção do Geraldo sempre foi muito teórica, filosófica, acadêmica, enquanto a minha era pragmática e estética. Ele poderia ter se dado muito mais créditos, em vez de menosprezar o trabalho de todos." Gisella acrescenta que participou da edição. De novo Motta contesta. "Assim como dei crédito de codireção, porque seria bom como currículo para um projeto dela, permiti que trabalhasse na montagem. Mas a Gisella montou o filme como documentário, o que não era o caso." Como assim - "Ele deixou? O Geraldo foi meu assistente (no curta Célia e & Rosita). Tenho mais currículo e experiência do que ele", ela se exaspera. O processo pode embargar a exibição do filme na Mostra de São Paulo? "Esperamos que não. Gisella tem um carinho muito grande pelo filme, que, afinal, também é dela. Não quer prejudicar ninguém, quer só seus direitos", afirma a advogada.

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