Diretores agora dão ouvidos a palpites

Diretores agora dão ouvidos a palpites

Projeto Teste de Audiência permite ao público criticar, e mudar, filmes

Rafael Moraes Moura, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2010 | 00h00

Numa viagem inversa, mas semelhante à do personagem de Jeff Daniels, em Rosa Púrpura do Cairo, que ganhava vida, saía da tela e se aventurava no mundo real, espectadores de Brasília estão "deixando" suas poltronas e "caminhando" para dentro dos filmes. A viagem é patrocinada pelo projeto Teste de Audiência. Em sua quarta temporada, a iniciativa se consolida como um instrumento a favor do cinema brasileiro. Funciona assim: a plateia assiste de graça a um longa-metragem inédito, preenche um questionário, conversa com diretores e, ação! ... até pode levá-los a fazer alterações na obra.

Com o teste, o diretor Roberto Moreira confirmou que o título Condomínio Jaqueline não "vendia" bem e trocou por Quanto Dura o Amor?. O cineasta Alain Fresnot congelou os créditos iniciais de Família Vende Tudo para facilitar a leitura.

Um possível erro de continuidade no filme É Proibido Fumar foi retirado - numa das sessões, a diretora Anna Muylaert ainda ouviu duras críticas do público. Em um dos casos mais emblemáticos, Henrique Dantas acolheu a sugestão de um espectador e mudou as primeiras cenas do seu Filhos de João-Admirável Mundo Novo Baiano.

Na versão original, o documentário começava com jovens da periferia de Salvador jogando futebol, cena que foi trocada pela imagem de João Gilberto chegando a um apartamento frequentado pelos integrantes do Novos Baianos. Dantas também submeteu o cartaz e o trailer para a avaliação, os "críticos" espectadores do teste criticaram e lá foi ele mudar os dois.

Algum ressentimento? "Foi uma experiência maravilhosa, falo do teste em qualquer hora que eu comente o documentário", garante Henrique Dantas. Em maior ou menor grau, o entusiasmo é compartilhado por outros oito cineastas ouvidos pela reportagem do Estado.

"Faço testes informais de todos os meus filmes, geralmente para pessoas que conheço. A diferença (do projeto) foi falar com o público mesmo, estudantes e funcionários públicos, o que ampliou o espectro", avalia Toni Venturi, que passou Rita Cadillac - A Lady do Povo. Uma versão reduzida já foi exibida no SBT, mas a completa deve estrear nos cinemas neste mês.

Finalidades. O Teste de Audiência pode corrigir eventuais falhas de comunicação do filme com o espectador, reafirmar certezas do cineasta e até direcionar campanhas de marketing, baseadas na resposta do público. É uma prática usada com frequência pela indústria hollywoodiana, mas que só agora começa a ser difundida no Brasil. Especialmente por causa da iniciativa dos cineastas Márcio Curi e Renato Barbieri, responsáveis por começar com as projeções em Brasília e levá-las a Curitiba no ano passado.

Barbieri estima que os gastos de um teste fiquem na casa dos R$ 35 mil, o que inclui seleção da amostragem, grupos de pesquisa e aluguel de salas - no caso do projeto, o patrocínio vem da Caixa e do Ministério da Cultura. "Estamos tornando essa prática acessível à produção brasileira independente, a custo zero", diz. "O teste virou atividade cultural nas duas cidades, de formação de público e aprimoramento do pensamento cinematográfico, tanto da audiência quanto do próprio cineasta."

A professora aposentada Vânia Lima acompanha as exibições desde a primeira temporada, em 2007. "Vejo tudo em primeira mão e ainda participo dos debates. Sou fã do cinema brasileiro", afirma, rodeada pelos amigos que encontra a cada sessão.

Critérios. O principal critério para o longa ser exibido no projeto Teste de Audiência é o seu estágio de produção - o desejado é um corte próximo do final, sem a mixagem pronta. Outros aspectos considerados são a diversidade de temas, de gênero, de local de produção. Em quatro anos, já foram exibidos 27 longas-metragens, dos quais 13 ainda não entraram em cartaz (na última vez, em março, abriu-se espaço para dois médias-metragens).

Antes da sessão, o público preenche um termo de compromisso, em que promete não divulgar informações até o lançamento do filme. Depois, há bate-papo com o diretor, marcado por sugestões, perguntas e comentários - alguns até confusos, outros inesperados. "Um sargento da PM disse que nunca imaginava que torceria por um travesti", conta Marcelo Laffitte, de Elvis e Madona, que tem estreia prevista para setembro. O filme trata da relação entre um travesti e uma lésbica.

Laffitte incluiu no questionário distribuído ao público uma pergunta específica, se o filme havia mudado a percepção das pessoas sobre o "universo gay". "E a resposta esmagadora foi sim. Aí vi que, do ponto de vista de mercado, ficou claro que Elvis e Madona é para todo tipo de público. Saí de alma lavada", lembra. Ele ainda tirou da montagem duas sequências inteiras, reduzindo a duração em 10 minutos.

Perfis. Na opinião de Paulo Morelli, que exibiu Cidade dos Homens - O Filme, a presença do diretor pode influenciar a resposta dos espectadores. "Acho que é bom não aparecer, para o público ficar mais à vontade." Desde o ano passado, o projeto conta com um grupo focal em Brasília, em que 12 pessoas previamente selecionadas discutem o que viram sem os realizadores por perto. Elas são recrutadas a partir de um cadastro que reúne 1.600 nomes de diferentes perfis.

SEIS RAZÕES PARA...

Participar do teste de audiência

1. Quando o projeto surgiu, os diretores Renato Barbieri e Márcio Curi convidavam os cineastas para participar da iniciativa. Hoje, também existe o interesse dos próprios, que mandam longas para a apreciação dos dois.

2. É elaborado um questionário, com perguntas gerais e outras específicas sobre o filme a ser avaliado.

3. O público comparece à sessão, sempre sem saber o título que será projetado na tela. Todas as exibições são gratuitas e mensais.

4. Os espectadores assinam um termo de compromisso, em que prometem não divulgar informações ou emitir opiniões sobre o filme avaliado até a data de seu lançamento.

5. Após o filme, é preenchido o questionário, em que se avaliam, por exemplo, a interpretação dos atores e o roteiro. O público também conversa com o diretor, terminada a projeção.

6. É feito um levantamento a partir da resposta dos questionários. O relatório é enviado para o cineasta, que pode verificar a receptividade do longa, seus principais acertos e problemas apontados pela audiência.

Próximas sessões: dias 6 de abril (Brasília) e 13 de abril (Curitiba), no Teatro da Caixa.

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