Diretora quer divulgar obras de Oiticica salvas de incêndio

Maior parte das obras estão guardadas em cofre da família e Centro Municipal já não é mais sede de projeto

Adriana Chiarini, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2009 | 16h08

A diretora do Centro Municipal Hélio Oiticica do Rio de Janeiro, Ana Durães, quer divulgar o que existe na reserva técnica de obras do artista que dá nome ao lugar e que se encontra trancada, com as chaves ainda com a família Oiticica, de acordo com ela. São algumas das obras que se salvaram do incêndio na sexta-feira à noite na casa do irmão do artista, César Oiticica, onde estava cerca de 90% do acervo, segundo a família.

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Por dificuldades de negociação entre a Prefeitura e a família, o Centro Municipal não é mais sede do projeto de mesmo nome, nem está expondo atualmente nenhuma obra de Hélio Oiticica. Ana disse, em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, que quer promover um debate sobre os direitos dos herdeiros e do poder público sobre as obras dos artistas.

 

César Oiticica, irmão de Hélio, observa cômodo incendiado na zona sul do Rio de Janeiro

O que significa o incêndio dessas obras de Hélio Oiticica?

Estamos pesarosos porque a obra do Hélio tem valor histórico uma importância para a arte brasileira que é imensurável. É muito mais que o valor econômico. É uma perda terrível mesmo. Estamos consternados, de luto. Acho que a maioria dos artistas contemporâneos tem uma influência, tem um diálogo com Hélio.

Que obras de Hélio Oiticica estão no Centro?

Eu assumi em fevereiro. Quando eu entrei, o acervo já não estava mais aqui. Na reserva técnica que temos disponível, temos os penetráveis Iemanjá, Tia Ciata, Ninho e Rijanviera. Mas existe uma outra reserva técnica trancada. As chaves estão com a família e só eles sabem o que tem lá. Queremos abrir para a imprensa. As obras que estão aqui no Centro são as que estavam em uma exposição que inicialmente ia de dezembro a junho, chamada Penetráveis 1 e 2. Como tivemos um problema na última parcela de prestação, eles interromperam a exposição em abril e depois retomamos em julho e agosto. A gente tentou negociar uma forma de comodato para ver se o terceiro andar poderia ter as obras de Hélio. A negociação com a família estava complicada.

Que problema foi esse?

Essa exposição Penetráveis teve um valor alto e foi dividida em parcelas. Tinha uma última parcela, em torno de R$ 243 mil, que foi suspensa quando a nossa secretária (de Cultura, Jandira Feghali) assumiu. Ela resolveu fazer uma auditoria, o que é justo, e não foi só no Centro Hélio Oiticica, foi em toda a Secretaria. Eles (o Projeto Hélio Oiticica) teriam que receber em janeiro. Em janeiro, foi a posse e aí iniciou a auditoria. Teve uma demora. Quando entrei, eu nem sabia dessa parcela. Fizemos uma reunião com a família e nela dissemos que terminada a auditoria, eles iriam receber.

Mas o atraso incomodou?

Eles, apressadamente, resolveram fechar a exposição. Aí foi muito desagradável, porque parecia que estávamos querendo expulsá-los daqui, o que em momento algum, aconteceu.

O Chico Chaves, coordenador de Artes Visuais da Funarte, disse que a Secretaria Municipal não estava querendo pagar pela conservação das obras do acervo. Foi isso?

Desconheço. Na nossa gestão, nunca foi proposto conservação e nunca foi negado. Era um acordo para a renovação do contrato, que já tinha vencido na gestão anterior e que não podia ficar nessa forma.

Que contrato era esse? Da exposição?

Não, era um contrato da gestão anterior para o Projeto Hélio Oiticica ficar abrigado aqui. A exposição "Penetráveis" foi paga, tanto que eles retomaram. A exposição custou aproximadamente R$ 600 mil, divididos em cotas. Fora isso, eles recebiam mensalmente uma parcela de R$ 20,5 mil para a manutenção. É um valor considerável. Fomos supercordiais para tentar renegociar. Foi sugerido que eles fizessem nova proposta

Eram dois contratos, um para o Projeto e outro para a exposição?

Não. Era um contrato só. Porque dentro do contrato do Projeto Hélio Oiticica, fizeram essa exposição. Foram pagas duas prestações e a última que era para pagar em janeiro é que atrasou, mas foi paga, acho que em abril. Nunca agimos de má fé. Eles chegaram a ir para os jornais dizer que estavam sendo expulsos. Tinha manifestação artística para pressionar. Jamais a Jandira disse que eles não receberiam. Queremos realizar um debate sobre essa questão das famílias dos artistas e do Estado sobre as obras.

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