Diretora do Teatro du Soleil emociona Belo Horizonte

Mais de 500 espectadores - estudantes e profissionais de artes cênicas de 13 Estados brasileiros, entre eles Amazonas, Paraná, Pernambuco e Goiás - ocuparam a platéia do Teatro Sesiminas, em Belo Horizonte, na tarde de sábado, para participar da aula magna ministrada pela encenadora francesa Ariane Mnouchkine, diretora do Théâtre du Soleil, por ela fundado há 37 anos.Em companhia da atriz brasileira Juliana Carneiro da Cunha - intérprete da matriarca no filme "Lavoura Arcaica", há 13 anos atriz do Théâtre du Soleil -, Ariane encerrou a 3ª edição do Encontro Mundial de Artes Cênicas (Ecum). O Ecum teve início no dia 1º e reuniu em Belo Horizonte 17 conferencistas de 11 países.Olhar Oriente-OcidenteTinha como tema "A Discussão das Artes Cênicas sob o Olhar Oriente-Ocidente". Raro já no seu formato - voltado não para a mostra de espetáculos, mas para a reflexão e a troca de idéias -, o encontro com Ariane foi o mais concorrido do evento, não só pelo desejo natural de aproveitar a oportunidade de conhecer as idéias da encenadora, reconhecida como uma das mais importantes do mundo, mas também pelo domínio que ela sabidamente possuiu sobre o tema. Afinal, o teatro oriental sempre atraiu e influenciou a estética da encenadora, que fez uma longa viagem pelo oriente antes mesmo de fundar sua companhia, em 1964.A primeira parte da "aula magna" da diretora foi tomada pela apresentação de um filme de quase três horas, o making of da peça "Tartufo", que estreou no Soleil em 1994, com Juliana no papel da criada Dorine. "Com uma câmera no ombro o cineasta Éric Darmon acompanhou e registrou todos os ensaios. Depois entregamos aquelas fitas com mais de 800 horas de filmagem para a montadora Catherine Vilpoux e dissemos: vire-se", brincou Ariane.TrupeEm absoluta concentração, sem dispersão, o auditório acompanhou o intenso, exaustivo, vigoroso e emocionado processo de criação da trupe de 60 pessoas, entre equipe de criação, administração e os 30 atores. Como sempre, no Soleil, o espetáculo vai surgindo aos poucos, por meio de laboratórios propostos pela exigente diretora."Tartufo", de Molière, é uma peça sobre o fanatismo religioso. Uma peça tão contundente que foi censurada pelo rei Luis XIV. Na época, Molière referia-se à Igreja Católica. Ariane não mudou o texto, mas em sua encenação trocou católicos por fundamentalistas islâmicos. Isso seis anos antes da queda das torres.RadicalidadeNuma das cenas do filme, o curador do festival de Avignon negocia uma possível ida do espetáculo ao evento, mas demonstra um certo temor pela radicalidade do que está sendo gestado no Soleil. Conhecendo bem a linguagem estética e a ética da diretora, deduz que ela não fará uma montagem "tradicional" do "Tartufo". Ariane mostra-se reticente para falar do espetáculo, ainda em processo. E ele insiste: "Eu sei que a peça fala sobre fanatismo religioso e sendo assim você pode colocar em cena tanto mórmons, quanto aiatolás." E Ariane responde com outra pergunta: "De quem você tem medo hoje, dos mórmons ou dos fundamentalistas?"Ariane retificou sua posição contra o fundamentalismo religioso, em conversa com a Agência Estado. "É preciso lutar com todas as armas contra qualquer opressão. Não podemos fechar os olhos para o intolerável, sob o pretexto da tolerância com diferenças culturais. É preciso distinguir diversidade cultural de opressão. A escravidão também é cultural e, por isso, vamos permiti-la? E a circuncisão feminina? Não ajudaremos as mulheres oprimidas a lutar se decidirmos ´respeitar´ a atitude dos opressores."Mundo contemporâneoSeja enfocando o fanatismo religioso, como em "Tartufo", seja a aids, como em "A Cidade Perjura", os espetáculos do Soleil sempre refletem o mundo contemporâneo, a partir de textos clássicos ou escritos por Hélne Cixous, a dramaturga da trupe. "Uma das minhas grandes interrogações, sempre, é como fazer o teatro falar do mundo de hoje, precisamente do aqui e agora. Tenho uma grande pena de "Tartufo" não estar em cartaz agora no Soleil", disse Ariane em entrevista na véspera de sua aula magna.Mas essa preocupação corre paralela com outra aparentemente contraditória - a busca de uma linguagem não realista. Daí o interesse pelo teatro oriental, um teatro em que marionetes têm grande importância, onde um ator é capaz de ter um repertório de mais de cem gestos unicamente nos dedos da mão, cada um deles significando algo, um código, conhecido pela platéia. "Não sei dizer exatamente por que tenho tamanha emoção diante do teatro oriental que raramente alcanço no ocidental. Mas acho que isso vem da inocência do ator. É preciso recuperar a infância do ator."Para Ariane, o mundo ficou mais pobre com a perda dos terrenos baldios. "Os terrenos baldios eram um mundo para crianças, que ali exercitavam os músculos da imaginação." Mas essa busca da inocência, do jogo (o verbo jouer em francês, assim como to play em inglês, significa a um só tempo brincar, jogar e atuar), acaba sendo muito árdua no Soleil, como o público pode perceber na exibição do filme. "Se gênios como Van Gogh e Rilke sofreram na solidão, foram exigentes consigo próprios e tiveram humildade diante da obra, por que nós que somos formigas perto deles deveríamos ser menos exigentes? Não se atinge o sublime sendo negligente."

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