Diretor teatral põe música em Gil Vicente

Há exatos 500 anos, Gil Vicente (1465-1536) apresentou para a corte portuguesa, em Lisboa, seu Monólogo do Vaqueiro ou Auto da Visitação. Com esse auto ele celebrava o nascimento do príncipe d. João, filho dos reis de Portugal, d. Manuel, o Venturoso, e d. Maria - filha dos reis de Espanha, Fernando de Aragão e Isabel de Castela. A rainha gostou tanto dos 112 versos representados que se tornou protetora do autor, que, daí em diante, seria o poeta e dramaturgo oficial da corte. Portanto, há cinco séculos, nascia do teatro vicentino, para muitos, o teatro português . Claro que já havia em Portugal rituais religiosos e representações populares, transmitidos por tradição oral. Mas a novidade é que o Auto da Visitação fora criado com rigor literário e artístico especialmente para comemorar o nascimento do príncipe. Gil Vicente não foi o único dramaturgo da época. Mas com certeza o mais importante. Não, a data não provocou uma enxurrada de eventos em torno de sua obra, a exemplo do que ocorreu com os 500 anos do descobrimento do Brasil. E não deixa de ser um bom sinal. Gil Vicente está longe do ostracismo e, portanto, não precisa necessariamente ser lembrado em data específica. Suas 44 peças - autos, milagres, comédias, tragicomédias e farsas - jamais deixaram de ser encenadas em Portugal, no Brasil e em vários outros países. São bem conhecidas entre nós A Farsa de Inês Pereira e o Auto da Barca do Inferno, só para citar duas. Ele deixou ainda sermões, romances, poemas e o monólogo - constantemente representado nesses cinco séculos - O Pranto de Maria Parda. Porém a data chamou atenção do diretor teatral e músico mineiro, radicado no Paraná, Jorge Telles, um apaixonado por Gil Vicente. "Em maio do ano passado, relendo algumas coisas sobre ele, vi que faltava um ano para comemorarmos cinco séculos do nascimento de seu teatro." A partir daí, uma idéia ambiciosa começou a "fazer cócegas" em sua mente. Telles decidiu musicar todos os versos das 44 obras de Gil Vicente. Ou melhor, todos nos quais havia uma indicação de terem sido cantados. "Onde havia uma rubrica do tipo ´canta´ eu criei música." Criou é a palavra. Ele próprio compôs música e arranjos. Ao todo, foram 150 canções para as 44 peças gravadas em quatro CDs. Um trabalho que, no mínimo, se candidata ao Guinness. Mais que isso, Telles criou quatro libretos para acompanhar os CDs. As peças foram organizadas por ordem cronológica. Assim, o Auto da Visitação, de 1502, abre o primeiro libreto, e a comédia Floresta dos Enganos, de 1536, encerra o libreto. Para cada uma das 44 peças, Telles tomou o cuidado de fazer um resumo da trama. E reproduziu, na íntegra, os versos musicados. E ainda criou ilustrações e algumas notas de pé de página, observações sobre a obra. Ufa! "Quase enlouqueci. Acordava de madrugada para sentar ao teclado. Primeiro criava no teclado uma composição. Depois ia para o programa de computador criar os arranjos." Curiosamente, modernidade e tradição convivem no trabalho de Telles que fez questão de manter a grafia original dos versos. Uma das curiosidades do trabalho está na manutenção da grafia original. "Pode parecer decepcionante, mas o pai do teatro português escrevia em castelhano", observa Telles. "Essa era o idioma da corte na época." Atualmente, as montagens das peças de Gil Vicente são realizadas a partir de textos cuja grafia foi atualizada. Mas, se manteve o original na forma literária, Telles ousou na criação das músicas. Ele não realizou uma pesquisa para resgatar as canções originais. "Se há partituras originais dessas canções, eu desconheço. Sei que algumas delas faziam parte do cancioneiro popular e, portanto, devem ser conhecidas. Mas uma pesquisa dessas demandaria muito tempo. Decidi me dar o direito de criar livremente." Terminada a trabalheira da criação, faltava a gravação. "Foram 240 horas de estúdio. Sei exatamente porque paguei - do meu bolso." Num primeiro momento, ele optou por também cantar as músicas. "Ficou horrível, patético." Diante do fracasso, convidou alguns músicos que toparam a empreitada sem ganhar nada. Telles conseguiu fazer 40 kits, cada um com quatro CDs e quatro libretos. Espera agora conseguir apoio para gravar em maior escala e difundir esse trabalho. Morador de Campo Largo, cidade situada a 30 quilômetros de Curitiba, Telles pode ser encontrado por meio do telefone (0--41) 9181-6818.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.