Diretor teatral faz o bobo em "Rei Lear"

Artista de vanguarda, o que tem sempre um pé no perigo, um suave transgressor. Muitas foram as tentativas de definir ou rotular o diretor e ator Gilberto Gawronski. Com a sua companhia Art in Obra, ele costuma explorar - no palco - territórios difíceis de ser nomeados, em espetáculos como o monólogo A Dama da Noite, baseado num conto de Caio Fernando Abreu e apresentado na Inglaterra, França Itália e nos EUA.Na França, integrou o elenco de uma montagem de Roberto Zucco, de Bernard-Marie Koltés, e no Brasil dirigiu e atuou com Ricardo Blat na peça Na Solidão dos Campos de Algodão, do mesmo autor. Agora, Gawronski ensaia com um superelenco, como ator convidado, para interpretar o bobo na montagem de Rei Lear, tragédia de Shakespeare dirigida por Ron Daniels e protagonizada por Raul Cortez, que estréia na quinta-feira, no Teatro Sesc Vila Marina.Um desvio de trajetória? Não exatamente. Admirador confesso do ator Raul Cortez, Gawronski foi o primeiro a convidar-se para interpretar o bobo. "Embora isso não fique explícito no palco, acho muito interessante que essa contracena entre o rei e o bobo seja também uma contracena entre diferentes teatros: entre o teatro de vanguarda e o teatro tradicional, no mais amplo sentido desses dois termos, sem nenhum cunho pejorativo."Cleide Yaconis já havia sido escolhida para o papel. "Certamente ela criaria um lindo bobo, num estilo de interpretação diferente do meu." Como o papel já estava destinado à atriz, Daniels ofereceu-lhe outro personagem, gentilmente recusado. "Há quem diga que um ator deve ser versátil, fazer qualquer tipo de personagem", comenta. "Eu não concordo; nessa altura de minha carreira, sei que não sou capaz de fazer tudo em teatro." No início dos ensaios, Cleide saiu da montagem e Gawronski finalmente foi chamado para o papel desejado.O bobo é um personagem muito especial na tragédia, uma espécie de consciência do rei. "Se um diretor decidisse eliminar o bobo, nada mudaria na ação dramática", comenta Gilberto. Embora não tenha poder de interferência nos rumos da tragédia, é um daqueles personagens disputados pelos atores. Suas falas são a um só tempo contundentes - ele diz duras verdades ao rei - e bem humoradas.E justamente por estar fora da ação dramática, o papel permite ao ator uma maior liberdade de criação no que diz respeito à linguagem. Enquanto os outros personagens - aristocratas, nobres ou criados - estão presos em maior ou menor grau a uma certa solenidade, o bobo pode soltar sua linguagem gestual. E, com sua inteligência e ironia, dar o toque de humor à tragédia.Compaixão - "A grande qualidade no humor desse personagem é sua profunda compaixão pelo rei", comenta o ator. "Ele diz verdades duras, mas não tem nenhum prazer nisso, daí a graça ser até uma necessidade para ele." Num dos primeiros ensaios, Gawronski não só constatou o que havia intuído - o quanto seria proveitosa a contracena com Raul - como a matéria da qual é feita o humor do bobo. Quando o rei é rejeitado pela segunda filha, o bobo diz algo como: "Descobri que uma maçã amarga tem o mesmo gosto de outra maçã amarga." Ele diz que soltou essa frase feito bobo mesmo, "mas quando olhei para o Raul, ele chorava copiosamente; naquele momento havia se dado conta de que suas duas filhas eram iguais na insensibilidade", conta. "Quase desmontei; minha vontade era abraçá-lo, confortá-lo e pedir desculpas."Para não sucumbir à emoção em pleno ensaio, Gawronski agarrou-se no texto. Em seguida, o personagem pergunta ao rei: "Você sabe por que o nariz está colocado no meio do rosto?" Nessa hora, ele entendeu profundamente por que o bobo faz graça: "Sem isso, ele não agüentaria dizer o que diz ao rei", argumenta. "Só a contracena com um grande ator propicia essa qualidade de entendimento do texto."Gawronski lembra uma de suas primeiras e mais importantes lições - fundamental para interpretar o bobo - aprendida na Escola de Arte Dramática da Universidade do Rio Grande do Sul. "Eu fiz uma improvisação em sala de aula na qual imitava a professora Maria Helena Lopes; todo mundo riu muito, mas ela me expulsou da sala com um duro discurso", conta. Não era um indignação pessoal. A mestra deixou bem claro que o palco não é lugar de deboche; na arte, humor e compaixão pelo humano têm de vir juntos. "Se ela tivesse passado a mão na minha cabeça, sido menos dura, eu talvez não tivesse compreendido a lição."Sem jamais confundir experimentação com improviso, Gawronski considera a formação fundamental na carreira de qualquer ator. "Ator biscate sempre vai existir, mas a busca do ator contemporâneo tem de ser pela qualidade, não importa que tipo de teatro tenha escolhido perseguir", diz. Numa recente palestra, o ensaísta Sábato Magaldi chamou a atenção para a importância do ator no resultado de um espetáculo. "Nem Shakespeare resiste ao mau ator." Gawronski é enfático ao ressaltar sua busca de aperfeiçoamento como intérprete. "Quero ser Raul Cortez."

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