Diretor italiano leva "A Montanha Mágica" ao palco

Exatamente um ano após terapresentado no Brasil o belo espetáculo Oblomov - queexplorava o confronto entre ação e contemplação numa linguagemsofisticada e original -, o diretor italiano Roberto Bacci voltaao País para duas apresentações, amanhã e sexta-feira noSesc Pompéia, de Ciò Che Resta ("Só o Que Resta"),adaptação do romance A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Oespetáculo já passou pelo Sesc de Ribeirão Preto e seráapresentado ainda no Sesc São Carlos, no domingo, e no SescAraraquara, na terça-feira. Em ambas as cidades, Bacci realizapalestras com atores e estudantes de teatro, como já fez emRibeirão Preto.No elenco de Ciò Che Resta estão seis atores doCentro de Experimentação e Pesquisa Teatral de Pontedera, criadoem 1974, na Itália, onde Jerzy Grotowsky trabalhou nos últimosanos de sua vida e Bacci, atualmente, é o diretor artístico.Confrontando, desta vez, vida e morte, o espetáculo estreou naItália e já excursionou por países como Rússia e Alemanha.O Brasil entrou no roteiro das turnês do Centro dePontedera desde que o ator Cacá Carvalho viajou para a Itália,passou a integrar o núcleo de criação e tornou-se parceiroartístico de Bacci, que o dirigiu em O Homem com AFlor na Boca. Na ficha técnica de Ciò, Cacá aparece comocolaborador artístico. "Era para eu ser assistente de direção,mas não pude ir para a Itália em tempo. Quando cheguei lá, oprocesso já estava em andamento", explica o ator. Não é o únicobrasileiro na equipe de criação. Assim como em Oblomov,Márcio Medina assina a cenografia do espetáculo.Como traduzir em linguagem teatral um complexo romancede 800 páginas? "Antes de falar sobre o espetáculo, é precisoentender algo importante sobre a relação entre vida, morte edoença", argumenta Bacci em entrevista . "Sempre que algumacoisa rompe o equilíbrio do organismo como uma doença, sempreque nos confrontamos com o perigo da morte, passamos a nosperguntar: O que é a vida? O que somos nós? Como aceitar o quefizemos de nossas vidas durante todo aquele tempo que vivemoscomo se fôssemos eternos?"Segundo o diretor, essas são as questões da peça,exploradas não apenas de forma individual ou existencial, mastambém política. "Como conciliar a consciência da finitude comuma vida ordinária? Se eu vou morrer amanhã, então eu queromudar o mundo. Se eu penso que sou eterno, vou tocando a minhavidinha, aceito ser mais uma engrenagem da máquina social",afirma o diretor."O livro de Thomas Mann é um grande romance sobre ainiciação." No início do século, ainda não existia cura para atuberculose. Como a doença era contagiosa, os pacientes ficavamisolados. Os que tinham posses, ficavam em sanatórios comrazoável conforto. É o caso do personagem central de AMontanha Mágica. "Ele vai até um sanatório nos alpes suíçosvisitar seu primo, interno, com a intenção de ficar três semanas mas acaba passando sete anos lá. Ali ele faz sua iniciaçãoespiritual, filosófica, afetiva."A tuberculose não mata rápido, portanto os sanatórios setransformavam em pequenas comunidades, onde os pacientes serelacionavam, podiam fazer sexo, criar vínculos afetivos. "Ohotel/hospital do romance é um microcosmo da sociedade, porémcom uma diferença - a morte é uma presença constante, umaconsciência permanente."Sete anos depois, o personagem abandona o sanatório, jáum homem maduro, e volta para a vida "normal" em plena guerra,a 1.ª Grande Guerra. "O fim comporta um grande pessimismo. Todaa grande cultura sedimentada nele durante aquele período deinternação, de nada vale. Na verdade, toda a grande culturaeuropéia de nada vale diante da destruição mecânica e cega daguerra."Bacci tem uma explicação original para definir suapreferência pela adaptação de obras literárias. "A linguagemdramática é sintética. A gente tem de imaginar tudo a partir dosdiálogos. Na literatura, os cenários, figurinos, os gestos, otemperamente dos personagens, tudo está descrito até a exaustão.A gente só tem de optar pelo essencial." Seis portas ajudam adestacar o essencial em Ciò Che Resta. "Os personagensdialogam com essas portas que são as portas do hospital e doquarto, mas também portas que dão para outro mundo, para odesconhecido."Ciò Che Resta. Direção Roberto Bacci. O espetáculoserá encenado parcialmente em português. Quinta e sexta, às 21horas. R$ 15,00. Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700.

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