Matheus Brito/Divulgação
Matheus Brito/Divulgação

Diretor fez 'Febre do Rato' para provar aos jovens que poeta é quem ousa

Filme de Cláudio Assis chega aos cinemas nesta sexta e faz a apologia à vida livre e desregrada

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo,

22 de junho de 2012 | 03h10

Cláudio Assis estava anteontem à noite em Florianópolis, promovendo o lançamento de Febre do Rato. Foi lá que ouviu de um admirador local - "Tu diz que não é gay (na verdade, a palavra era mais forte), mas tem sempre um em teus filmes." Sim, e héteros, e homens e mulheres, e brancos, e negros, e mamelucos. Cláudio Assis faz cinema pela tolerância, contra o preconceito. A Febre é sobre poeta que cria uma comunidade de iguais, onde rola sexo, drogas e álcool. O filme faz a apologia da vida livre e desregrada. Evoca Dioniso, o cinema marginal dos anos 1970 e o teatro bacante de Zé Celso Martinez Corrêa.

É um filme na contracorrente do cinema brasileiro atual. Seus palavrões não têm nada a ver com E Aí, Comeu?, que também estreia hoje e é uma grande aposta de mercado, com cerca de 550 cópias. O lançamento de Febre do Rato é muito menor, mas tamanho, no caso, não é documento. Você pode preferir o filme de Cláudio Assis - crítico de respeito prefere -, mas isso não significa que tenha de desprezar o olhar de Felipe Joffily sobre a infantilidade de Bruno Mazzeo e seus amigos de boteco.

Febre do Rato é o melhor dos três longas de Cláudio Assis. Como diretor, como 'autor', ele só foi crescendo - Amarelo Manga, Baixio das Bestas, Febre do Rato. Por não ter meias medidas, Claudião, como é chamado, carrega várias etiquetas - transgressor, machista. Transgressor, ele é, machista, não se crê. E já houve quem o chamasse de moralista às avessas. "É o c...", ele dispara. "A sociedade está muito careta", avalia. Como não se enquadra nos modelos palatáveis de comportamento nem de cinema de mercado, desconcerta - no mínimo.

Claudião resiste à homogeneização de linguagem que a Globo impôs ao País. De Norte a Sul, o você virou modelo de tratamento. Os gaúchos resistem, alguns cariocas e pernambucanos também. Mas Claudião conjuga certo os verbos. "Tu não gostaste do meu filme, foi?" Quem disse? O repórter afirma que gostou, e muito. O poeta interpretado por Irandhir Santos é uma das grandes figuras do cinema brasileiro contemporâneo. Irandhir é poderoso. "Não é? Matheus (Nachtergaele) é um satanás, mas Irandhir tem a febre do rato, foi moído em coentro", define o diretor.

E ele explica a origem do personagem. "Vou lhe contar - não contei pra ninguém. Estava na Rua Henrique Dias, de Olinda, quando vi o poeta, negro, pobre, poetando para as mulheres. De cara, ele me seduziu. Pensei - aquele cara somos todos nós." Para um machista, como é chamado, Cláudio Assis foge ao modelo tradicional. Machos, fêmeas, gays, lésbicas - seu universo não discrimina nem classifica as pessoas. "A gente é tudo igual." A mesma ideia vira conceito aplicado ao cinema. "É arte de equipe. O filme não é de Cláudio Assis. É de Walter Carvalho (o fotógrafo), Hilton Lacerda (o roteirista), Renata Pinheiro (a diretora de arte), é de Matheus, de Irandhir."

E porque Claudião abre os filmes à criatividade de seus parceiros/colaboradores, eles vêm, e dão o melhor de si. "Na verdade, pago pouco, mas todo mundo se entrega, se integra." Febre do Rato é filmado em suntuoso preto e branco, como O Baixio das Bestas e Amarelo Manga foram filmados em cores magníficas - Amarelo, de todos os filmes do diretor, é o que menos agrada ao repórter. Foi supervalorizado, na época, mas Claudião superou-se depois. Ele conta - "Walter (Carvalho) quer sempre a definição antecipada. Se o filme vai ser em cores ou em PB, o tratamento é outro. Seria possível filmar em cores e transformar em PB, mas há todo um tratamento dos figurinos, dos cenários. A cor é muito importante, mesmo quando o filme é PB, e tem de ser pensada."

Stanley Kubrick dizia que cinema é montagem - Cláudio Assis não compartilha dessa crença. "Não creio que se possa fazer nem salvar um filme na montagem. Apesar do valor que tem o roteiro, o filme se faz no set, na realização, com o fotógrafo, o técnico de som e os atores." Febre do Rato acompanha Irandhir Santos na pele do poeta. Zizo atravessa o filme poetando. É um libertário. Apaixona-se pela garota, Eneida (Nanda Costa). O nome não é gratuito. Eneida evoca o poema épico de Virgílio, que conta a saga de Enéas, o troiano salvo pelos gregos, que leva vida errante pelo Mediterrâneo até aportar na Itália, para ser o pai de todos os romanos. A cidade - o Recife - não é apenas fundo. É personagem da trama. Claudião odeia faz de conta. "Cinema tem de ser feito com respeito, olho no olho. Precisa de atitude. É uma arte revolucionária, que propõe mudanças e o problema é que hoje em dia as pessoas não lutam mais por mudanças. Lutam para garantir o emprego."

O diretor empolga-se. "Cinema não é mercado. É **, é **." A definição seria considerada chula, de muito baixo nível. "Pô, Claudião, assim tu me derruba. Não vou poder botar essas coisas no jornal", reclama o repórter. Ele ri - "Cara, tem de ousar. Não dá pra ficar bancando o certinho. Febre é direcionado para a juventude. É preciso mostrar que cada um pode fazer o que quiser, é só ter coragem. O poeta somos todos nós."

O diretor pode ter, e tem razão, mas o poeta, Zizo, é Irandhir em outra atuação antológica. Bastaram poucos anos e filmes para que ele se impusesse como um dos grandes atores do cinema brasileiro. Como diz o diretor, ele tem a febre do rato. Em nordestinês, isso quer dizer - estar acelerado, excitado. O filme, e o elenco - Irandhir, Matheus, Nanda, Maria Gladys, etc. -, comunicam essa força.

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