Diretor exagera e deixa o herói fora de controle em 'Sherlock Holmes: O Jogo das Sombras'

Crítica: Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2012 | 03h07

Quem copiou quem? Uma das melhores cenas - a melhor? - de Missão Impossível, Protocolo Fantasma é aquela em que Jeremy Renner e Paula Patton conseguem salvar Tom Cruise, que ameaça despencar da torre, e Simon Pegg entra em cena dizendo que enfrentou o maior perigo. Ante a falta de efeito produzida por suas palavras, ele pergunta - perdi alguma coisa? Há uma cena semelhante em Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras. Watson vai fazer sua despedida de solteiro e resolve jogar. Enquanto isso, Sherlock, atraído pela cigana Sim, enfrenta o assassino que veio para matá-la. A cena é longa, uma perseguição interminável que praticamente destrói a taberna com a jogatina, sem que Watson se dê conta do que ocorre.

O segundo filme da franquia Sherlock Holmes não é tão bom, quanto o primeiro. Como Robert Downey Jr. esclarece na entrevista, nunca foi o objetivo da produção - nem do diretor Guy Ritchie - fazer um Sherlock tradicional, ou nos conformes dos livros do escritor Arthur Conan Doyle. A ideia sempre foi trazer Sherlock para o público dos videogames. Atualizá-lo, para ser mais exato e o primeiro filme o fez mantendo o pé na literatura. Ritchie parece agora ter perdido a mão. Ele exagera. O herói parece fora de controle. As próprias opções estilísticas parecem equivocadas. Sherlock antecipava suas ações, prevendo como elas se dariam. Isso ocorria duas ou três vezes no primeiro. Agora, Ritchie esvazia o recurso e o torna batido pela repetição. E ele insiste em acompanhar a trajetória das balas, o que você já deve ter visto 'n' vezes.

É verdade que fazer o 2 nunca é fácil. Alguns aspectos são interessantes. O herói falha de cara ao não impedir que o vilão, o genial Professor Moriarty, sacrifique sua amada Irene Adler (Rachel McAdams). Mas a perda não o torna tão amargurado. O prometido casamento de seu amigo Watson vira um coito interrompido e o par da história é formado por Sherlock e o doutor. O irmão de Sherlock vem reforçar a narrativa, que trata dos planos de Moriarty para fazer a guerra (e aumentar os lucros fornecendo armamentos e material hospitalar). Essa dualidade expõe o cinismo do vilão como uma coisa completamente contemporânea. O confronto final entre Sherlock e Moriarty é como na narrativa de Conan Doyle, mas Ritchie superpõe uma pirueta, uma interrogação, deixando o caminho aberto para o 3.

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