Diretor espanhol traz ópera de Brecht ao Brasil

Conhecido em seu país pela produção de grandes eventos multimídia, o espanhol Franjo Parejo, de 43 anos, traz para o Brasil no início de dezembro sua montagem da ópera Os Sete Pecados Capitais, criação da dupla Kurt Weill e Bertolt Brecht. O espetáculo estreou em Sevilha em junho e deve ser apresentado em Madrid em outubro. No Brasil serão apenas três apresentações, a partir do dia 3, no Teatro Cultura Artística.De passagem pelo País, Parejo falou à reportagem de sua versão da ópera, que será apresentada em alemão. "Não gosto de legendas. Acho que elas distanciam o espectador da história. Na Espanha poucos falam alemão e tudo foi entendido perfeitamente", afirma Parejo. Ele avisa que há ainda um "facilitador" para o entendimento. Antes de cada cena, uma tela exibe um curto texto de introdução, "como nos filmes mudos", que no Brasil estarão vertidos para o idioma português.Entre as atrações do espetáculo - que no Brasil contará com a participação da Sinfônica Municipal de São Paulo - estão os telões expressionistas da artista plástica Victoria Contreras, criados especialmente para a ópera, com 50 desenhos animados por computação. "Gosto de trabalhar com tecnologia multimídia. Minha linha de encenação é mais plástica, como o público brasileiro poderá perceber em minha releitura dessa ópera." Em Os Sete Pecados Capitais, as imagens são monocromáticas, uma cor para cada pecado. "Mas o importante é que esses telões não funcionam como meras ilustrações. Têm função dramática e ao mesmo tempo não chamam mais atenção do que os atores e músicos. É preciso sempre saber lidar com imagens - elas devem estar integradas à narrativa e ser fortes, mas não podem disputar com a música."Parejo revela ter sido criticado pela versão "espetacular" da ópera. "Quem pode falar por um autor? O que o Brecht queria dizer com essa obra? Quem pode saber o que o autor quer? Cada diretor tem sempre a sua interpretação de um texto."O libreto de Os Sete Pecados Capitais mostra as agruras de duas irmãs, Ana I e Ana II, que saem da cidade de Louisiania para buscar meios de construir uma casa nova para sua família. Uma é bonita, meio louca, sensível. A outra, Ana II, é prática. Ambas saem em busca de dinheiro para mandar aos pais e irmãos, até que a nova casa esteja pronta. Passam por sete cidades diferentes. Em cada um delas, destaca-se um pecado capital."Será que são mesmo duas ou uma única com diferentes aspectos de personalidade? As duas leituras são possíveis", comenta Pareja. "Aliás, a ópera propicia muitas leituras. Para mim, é a história de uma família que explora suas filhas. Por isso retrato a família de uma forma até meio patética, vestida em sacos de estopa, como rebotalho, lixo mesmo."A exploração é mesmo o fio condutor da história. O primeiro pecado a aparecer é o da preguiça. Ana I convence Ana II a ajudá-la a tirar dinheiro de homens enganados por golpes. Ana II trabalha a estratégia criada pela irmã até dormir exausta no banco de um parque. Aí entra o coro, pais e irmãos, preocupados com a possível "preguiça" de Ana, que deve obedecer aos pais, trabalhar para eles e não se entregar à "mãe de todos os vícios".Como Chico Buarque na canção em que inverte os ditos populares em frases como "devagar é que não se vai longe", Brecht mostra que os exploradores podem ameaçar com o pecado da "soberba" para manipular a desejada "humildade" dos explorados. Da mesma forma a saudável indignação contra os opressores transforma-se, no discurso dos fortes, em "pecado da ira".Além dos sete pecados, em sete cidades, Pareja acrescentou um prólogo ao espetáculo. "A ópera original tinha apenas 38 minutos. Daí criei essa cena, como se fosse um sonho de Kurt Weill, ambientado num cabaré berlinense da década de 30. Nesse prólogo, músicos e dançarinos interpretam canções como Surabaya Johnny e Balada de Mackie Navaja", diz Pareja que gostaria de fazer uma versão brasileira da ópera para o próximo ano.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.