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Diretor e atriz falam sobre o desafio de biografar Violeta Parra

Filme chileno 'Violeta Foi para o Céu' participou da abertura do festival Cine Ceará

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo,

07 de junho de 2012 | 04h24

Foram dez anos de preparativos, amadurecimento - ou apenas de desejo? Andrés Wood lembra-se de quando começou a namorar a ideia de fazer um filme sobre Violeta Parra. Foi logo após La Fiebre del Loco, seu terceiro longa, de 2001. A cantora e compositora sempre esteve no imaginário dos chilenos, mas ele, como a maioria, se conhecia suas músicas - Gracias a la Vida, Volver a los 17, Me Gustan los Estudiantes, etc. -, pouco sabia de sua complexidade emocional. Violeta suicidou-se, é um fato que alguns nem sabem, era politizada, dedicou sua arte a resgatar o folclore do Chile. E era uma apaixonada pelo amor.

Tudo isso Andrés foi descobrindo nos livros - e no livro em que Angel Parra conta a história da mãe. Quanto mais se aprofundava, mais Wood percebia as dificuldades. Ele queria dar conta de toda Violeta, mas como? Há quatro anos assumiu, enfim, que ia fazer Violeta Se Fue en los Cielos, que agora estreia no Brasil como Violeta Foi para o Céu. Foi o livro de Angel que lhe forneceu a chave, ou as chaves, mas as dificuldades prosseguiam. Wood fez filmes sobre períodos históricos precisos - o golpe militar do general Augusto Pinochet em Machuca -, mas nunca biografias. Temia se acercar da personagem real. Fez um casting rigoroso. Chegou a um grupo de atrizes e, entre elas, curiosamente, a única que não conhecia - Francisca Gavilán - foi quem ficou com o papel.

"Acho que foi a minha disponibilidade que o seduziu", conta Francisca em entrevista num hotel da Av. Paulista. Ela veio para a pré-estreia na segunda-feira, aproveitando a folga - de segunda a quarta - da peça que interpreta em Santiago. Andrés Wood já estava no Brasil, onde participou da abertura do Cine Ceará, justamente com Violeta. Há alguns meses, o repórter do Estado descobriu que cópias piratas do filme eram vendidas por marreteiros no centro de São Paulo. Violeta chega agora à telona.

Que disponibilidade é essa de que fala Francisca Gavilán? "Fiquei dez meses me preparando. E foi durante esse processo longo que descobri que Andrés queria que eu atuasse, mas não cantasse. Ele fez outro casting de vozes. Me parecia absurdo que eu emprestasse o corpo, mas não a voz a Violeta. Pedi-lhe que me deixasse participar dos testes. Nicanor Parra preparou minha voz, e hoje eu faço shows cantando o repertório de Violeta." O mergulho na personagem foi exasperante - "Violeta é uma personagem intensa. Além do aspecto emocional, havia o físico. Andrés exigiu que eu parasse de lavar o cabelo, queria que eu deixasse as unhas malcuidadas, sujas."

Estressada, Francisca foi parar mais de umas vez no hospital, mas, no fim da rodagem - no Chile, na Argentina e na França -, a coisa ficou grave. "Fui diagnosticada com câncer de tireoide. Tive de operar, mas antes gravei todas as músicas, porque não sabia se, no pós-operatório, perderia a voz." Ela está bem, canta, ganhou prêmios em festivais. "Meu marido foi um grande companheiro." O filme participou de Sundance, Huelva, Havana, etc. "Violeta ganhou melhor filme muitas vezes, mas eu gostaria que Francisca tivesse sido sempre a melhor atriz. É ela que faz a diferença" - palavra do diretor.

Algumas pessoas sopraram no ouvido do repórter a crítica que ele transfere ao diretor, sem concordar - a atriz é ótima, a realização não raro brilhante, mas o roteiro tem problemas. "Quem disse? Nosso roteiro foi muito elaborado, e elogiado. Para dar conta de Violeta, como mulher e artista, percebi que precisava de uma narrativa fragmentada. Queria fragmentação com emoção, o roteiro foi construído assim, mas a narrativa não linear só foi definida de verdade na montagem."

Dia 19, começa na Galeria Olido um ciclo sobre o cinema chileno hoje. Não vai exibir nenhum filme de Andrés Wood. Ele pertence, como diz, a uma geração intermediária. Miguel Littín, Ra(o)ul Ruiz, Patricio Guzman, Aldo Francia criaram o cânone do cinema chileno. Quando ele começou, nos anos 1990, quase não se fazia cinema. Teve de começar de novo.

Veio depois outra geração, os novíssimos, que estarão em maioria no ciclo da Galeria Olido. "Pablo Larraín (de 'No') é o mais velho dos novos. Fazem filmes experimentais, com pouco dinheiro." Machuca permanece o maior sucesso de público de Wood no Chile, mas Violeta foi muito bem. O custo elevado, com filmagens no exterior, levou o diretor a uma parceria com a TV. O filme tem 110 min. Existe outra versão, como minissérie de três capítulos, com 170 minutos.

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