Diretor do Kirov diz não gostar de bailarinos

Makhar Vaziev, diretor do Kirov Ballet, que está em São Paulo para apresentar as coreografias O Corsário, Noite de Estrelas e Lago dos Cisnes, disse na tarde desta quinta-feira que não gosta de trabalhar com bailarinos. "Na verdade não gosto de bailarinos, gosto de atores", disse argumentando que não quer que suas coreografias sejam dançadas mecanicamente. "Muitas vezes, um bailarino apresenta uma perfomance tecnicamante perfeita, mas ele só sabe fazer essa, não tem variedade. Para ser sincero, eu não tenho paciência para isso. Aliás, eu não preciso disso. Quero ver um espetáculo por inteiro".Apesar de criticar os dançarinos "bailarinos", Vaziev dirige a companhia Russa, de São Petesburgo, que tem mais de 500 pessoas no corpo de baile. A comitiva que veio ao Brasil trouxe 260 delas. "O trabalho diário que desenvolvemos é terminantemente pesado, mas gera grandes resultados. Temos uma rotina que começa as 11 horas e nunca termina antes da meia-noite, contou. O diretor ressalta que para trabalhar em teatro, principalmente em turnês internacionais, é preciso esquecer o resto da vida. Ele salienta que a arte coreográfica é muito curta. "Imagine: tenho 232 bailarinos atualmente, todos querem dançar; todos querem ser o número um e todos me pedem novos papéis diariamente", exemplifica. Vaziev admite que os integrantes do Kirov são muito competitivos, o que torna seu trabalho ainda mais difícil. "Mas também é isso que movimenta a máquina", observa.Ele diz que o público brasileiro que acompanhou a turnê nacional, há três anos (mais de 120 mil pessoas), vai perceber muitas mudanças na companhia. "Tentei trazer coisas novas, jovens artistas, bailarinos maravilhosos. Tenho certeza que eles vão agradar", afirmou. Nesta turnê, a companhia já se apresentou no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Salvador e Recife. O Kirov inicia sua passagem por São Paulo hoje, às 21 horas, com O Corsário, que também será apresentado amanhã e depois. No dia 26, a companhia mostra Noite de Estrelas, às 17 horas. Depois segue para Florianópolis, Porto Alegre e volta à São Paulo, de 30 de agosto a 2 de setembro para apresentar o Lago dos Cisnes. "São Paulo é uma das cidades mais importantes do mundo para o Kirov, porque é rica. Indiscutivelmente as principais coreografias vêm para cá", diz Vaziev. O diretor criticou também os espetáculos de origem russa que são remontados por diferentes profissionais em todo o mundo. "Eu me relaciono negativamente quando as pessoas vêem os nossos balés e os adaptam. Na minha visão, isso acaba com o espetáculo. Acredito nisso: se você quer a sua coreografia, crie, monte, inove, e não mude uma coisa ou outra de um espetáculo e assine seu nome embaixo". Ele defende que apenas o Kirov pode manter coreografias seculares até hoje, porque tem tradição. "Embora agente crie coisas novas, sempre seguimos na mesma direção. Conheço poucos teatros que têm um repertório como o nosso", afirmou. Vaziev está há seis anos e meio à frente do corpo de baile do Kirov e garante que o mais importante em um teatro é o ator. "Você pode ter idéias maravilhosas, com uma infra-estrutura espetacular mas sem um bom ator nada funciona. O problema é que não me lembro de atores que sejam fáceis de trabalhar".O diretor também é um dos nomes do balé clássico que também defende a tese de que um bom bailarino pode desempenhar muito bem uma dança moderna. "Mas o contrário não ocorre", garante. Ele citou como exemplo o bailarino russo Mikail Barishinikov. "Sempre gostei de como ele posiciona a escola russa e se mantém no mesmo nível interpretando uma dança moderna. Mas ele é um gênio absoluto". Para Vaziev, quando bons bailarinos interpretam uma coreografia moderna, eles acabam dançando o clássico de uma forma diferente. "O mais importante é continuar sempre a estudar. Até porque quem sai das melhores escolas dificilmente já está pronto", avalia.Sobre o fato de a Rússia ter passado por grandes mudanças políticas e econômicas nos últimos anos, Vaziev se limitou a dizer. "O teatro de São Petersburgo era e continua a ser estatal, mantido com recursos do governo. Mas ultimamante também estamos atraindo investimentos privados. Hoje nosso país é outro, mas não quero falar sobre dinheiro. Vamos falar sobre arte, que é do que eu entendo", finalizou.Kirov Ballet - O Corsário e Gala - Noite de Estrelas, sexta a sábado, às 21 horas; domingo, às 17 horas; O Lago dos Cisnes, dia 30, às 21h30, 31/8 às 22 horas, dia 1º/9 às 16 e às 22h, dia 2, às 17 horas. Regência de Boris Gruzin. De R$ 50,00 a R$ 250,00. No dia 25, matinê para jovens - R$ 10,00 e grátis para menores de 15 anos. Credicard Hall. Avenida Nações Unidas, 17.955, tel. (11) 3177-3663. Até 2/9. Patrocínio: Accenture, Embratel e Correios. Em Florianópolis, no dia 27, às 21h, no Teatro do Cic, tel: (48) 224-4444, apresentando - Noite de Estrelas e em Porto Alegre, nos dias 28 e 29, às 21h, no Teatro do Sesi, tel: (51) 3231-8899, também com Noite de Estrelas.

Agencia Estado,

23 de agosto de 2001 | 20h04

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