Diretor discute zona cinzenta ética dos tempos de guerra

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2013 | 02h11

JJJJ ÓTIMO

JJJJ ÓTIMO

Há uma névoa da guerra. Uma perda de visão causada pela violência extrema, situação na qual a vida não vale nada. Existe essa porção cinzenta, na qual os atos dos homens são dúbios, dificilmente julgáveis e compreensíveis em termos da normalidade da vida civil. É disso que trata Na Neblina, de Sergei Loznitsa, um dos principais representantes do cinema eslavo. Sergei é nascido na Bielo-Rússia, quando o país ainda fazia parte da União Soviética. Mudou-se, ainda jovem, para Kiev, capital da Ucrânia, então também parte da URSS. Tem formação de cineasta soviético, portanto, embora esse termo tenha seu significado esvaziado pelos acontecimentos dos anos 1980 e 1990. Mas é uma questão de mentalidade, que vai além das contingências geopolíticas.

E esta mentalidade de formação comanda a visão trágica de Losnitza, que já conhecíamos de Minha Felicidade, título irônico que significa o exato oposto do que vemos no filme. Em Na Neblina, ele se reporta a uma história de 1942, com parte da União Soviética ocupada pelos nazistas. Há uma resistência feroz e, como se sabe pela História (com agá maiúsculo), os alemães perderam a guerra no front soviético. Um trem é descarrilado e um ferroviário, Sushenya, é preso junto com sabotadores. Eles são enforcados, mas Sushenya é poupado. É o que basta para que surjam rumores de traição. Esse é o ponto de partida para uma história densa, de desfecho trágico e que reflete sobre as opções morais dos homens em situação-limite.

Losnitza filma de maneira lacônica. Há muitos espaços vazios no filme para que o espectador possa respirar e refletir sobre o que está vendo. Ele faz parte da construção de uma história que não lhe é dada de graça; pelo contrário, exige coparticipação. Além disso, vê-se diante de um registro fotográfico muito particular, que tanto mostra como esconde - bastante distante da escola publicitária dominante que consiste em tudo exibir e apagar as ambiguidades. Quem conhece o cinema de Tarkovski e o de Sokurov vai reconhecer a linha de filiação de Losnitza.

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