Diretor de museu de Bagdá tenta proteger tesouros

Os correspondentes e enviados especiais à região do conflito no Iraque asseguram que não há mais comunicação telefônica com a capital. Estão errados. A reportagem do Estado ligou quatro vezes para Bagdá essa semana e conseguiu falar as quatro vezes com cidadãos iraquianos. Todas as ligações foram em busca de uma pessoa, que só foi localizada na manhã de ontem: o arqueólogo Donny George Youkhana, diretor-geral do Museu Iraquiano de Bagdá, o mais amplo do gênero no Oriente Médio, depositário das peças que contam a história do nascimento da humanidade. O Museu Iraquiano foi reaberto em 2000, após 10 anos fechado - justamente por conta dos danos sofridos na época da Guerra do Golfo. Guarda 10 mil itens das civilizações mesopotâmicas, além de outros tesouros de culturas pré-históricas. Possui um esqueleto de um Neanderthal e restos de uma tumba real da cidade bíblica de Ur. Em Bagdá, as linhas telefônicas às vezes parecem congestionadas, às vezes mudas, mas a insistência pode render frutos. "Tomorrow morning. Eight o´clock. Mr. Donny George here", informou na terça-feira, em inglês improvisado, um funcionário do museu. Às 2h30 do Brasil (8h30 em Bagdá), Youkhana finalmente atendeu o telefone. Demonstrava impaciência e revolta. O barulho em volta parecia vir de uma obra de construção civil, homens falando alto, ruído de madeira e martelos. Estado - Eu sou jornalista, do Brasil. Gostaria de conversar brevemente com o senhor. Youkhana - Nós estamos muito ocupados. Há muito o que fazer aqui. Não tenho muito tempo. O que queremos é ajudar a esclarecer sobre a situação no Iraque. Então fale. O que eu posso fazer por você? Quero saber se o museu sofreu algum ataque.Está tudo bem, nós não tivemos problemas até agora. O senhor também está lutando ou se preparando para isso? Não, nós somos museólogos, não soldados. Nós cuidamos de obras de arte. Que tipo de medida o sr. está tomando para proteger suas peças? Não posso dizer. Nós estamos em um conflito, não é tempo para falar sobre isso. As bombas estão caindo sobre Bagdá nesse momento. Não posso lhe dizer nada sobre quais as medidas que estamos tomando para proteger nossas antiguidades. O que mais o senhor quer saber? O sr. pretende esconder as peças do museu? Acha que os americanos podem danificá-las? Esses americanos estúpidos estão jogando bombas em nossas cabeças, em nossas casas. É um conflito, e nós estamos fazendo o que é possível para proteger nossas antiguidades. É o que posso lhe dizer. E Youkhana desligou o telefone, sem aviso prévio. O arqueólogo especializou-se em "colar pedaços" de obras fundamentais da História após os diferentes conflitos na região. O Museu Iraquiano, situado no distrito de Karkh, tem 28 galerias e cobre um espaço de tempo de 100 mil anos em seu acervo. Três salas do museu são destinadas às culturas islâmicas. Recentemente, o museu resgatou 5 mil artefatos em um sítio arqueológico sumério, cuja existência data de 3 mil a 2 mil anos a.C. Painéis mostram leões caçando gazelas e uma ilustração de um homem doente na cama com um enzu - pássaro mitológico - à cabeceira. O enzu tinha cabeça de leão e asas de falcão e era o símbolo de Nigersu, o deus sumério da morte e da guerra. Veja o especial :

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