Mohammed Dabbous/ Reuters
Mohammed Dabbous/ Reuters

Tate Taylor, diretor de 'Histórias Cruzadas', fala sobre parceria com autora da obra

Kathryn Stockett, escritora de 'A Resposta', disse que só daria direitos de filmagem ao amigo

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2012 | 03h10

 

Foi um filme entre amigos. Numa entrevista por telefone, de Los Angeles, o diretor Tate Taylor falou sobre Histórias Cruzadas, que estreia nesta sexta, 3, nos cinemas brasileiros, depois de virar o 'sleeper' do ano nos EUA. 'Sleeper' é o filme pequeno, lançado sem estardalhaço, que conquista o público e, graças ao boca a boca, ganha projeção.

 

Histórias Cruzadas baseia-se no best-seller The Help (A Resposta, no Brasil), de Kathryn Stockett. O clima de amizade começou a ser esboçado quando a autora, insegura quanto ao material - depois de receber o não de várias editoras -, foi se aconselhar com o amigo Tate Taylor, que, como ela, também tentava uma carreira de contador de histórias, a dele no cinema.

 

"Li o manuscrito no avião, numa viagem de cinco horas entre Nova York e Los Angeles. Quando voava sobre Ohio, já havia sido apanhado pelo material." Taylor deu toda a força para que Kathryn não desanimasse. Quando o livro estourou e Hollywood quis comprar os direitos, a autora bancou a carreira do amigo. Só venderia se ele fosse o diretor.

 

Rodado no Mississippi, por US$ 25 milhões - uma ninharia pelos padrões de Hollywood -, o filme rendeu US$ 170 milhões somente no mercado doméstico. Calcula-se que, em todo o mundo, Histórias Cruzadas deva render pelo menos o dobro. Será mais de dez vezes o valor investido, um sucesso para ninguém botar defeito. E tem mais. Histórias Cruzadas foi indicado para o Oscar de melhor filme, melhor atriz (Viola Davis) e melhor coadjuvante (duas indicações, para Octavia Spencer e Jessica Chastain).

 

No fim de semana, a acirrada disputa no sindicato dos atores - que quase sempre sinaliza para os vencedores do prêmio da Academia de Hollywood -, Viola venceu a favorita Meryl Streep, de A Dama de Ferro, e o filme ainda venceu melhor coadjuvante (Octavia) e melhor conjunto de interpretações. Mesmo assim, muita gente ainda reclama. Histórias Cruzadas seria só 'correto' - por que não honesto? Meio A Cor Púrpura, de Steven Spielberg, meio Tomates Verdes Fritos, de Jon Avnet, o filme configura a atual tendência da Academia, mais interessada em dramas humanos do que em efeitos.

 

 

Você já era amigo da escritora Kathryn Stockett, mas o que o motivou a adaptar o livro dela?

 

Quando vim para Hollywood, em 1996, havia decidido que queria contar histórias. E as histórias que queria contar não eram fantásticas, eram de gente. Encontrei um material muito rico no livro de Kathryn, que também é do Sul (dos EUA), como eu. Ela escreveu sobre pessoas que conhecia, eu as filmei porque também as conheço. Fiz pesquisas com mulheres que viveram os duros tempos das lutas por direitos civis, há 50, 60 anos. Procurei colocar na tela essas histórias, e de um jeito particular. Nós, do Sul, temos o gosto da narrativa. Se você quer barganhar, não importa o que, vai contar uma história. Se quer reclamar, cumprimentar, nunca é direto. Conta uma história. Foi isso que me motivou. A humanidade dos personagens, e falo basicamente das mulheres, a pluralidade de suas vozes.

 

Há muitos anos, houve um filme que não deixa de ter relação com o seu. Uma História Americana, de Richard Pearce, sobre patroa e empregada que participam da marcha por direitos civis. Conhece?

 

Sissy (Spacek) era uma das atrizes (com Whoopi Goldberg). E Sissy tem uma bela participação em Histórias Cruzadas. Tive o privilégio de reunir um elenco extraordinário, com todas essas atrizes. Sissy me falou sobre esse filme, sobre uma mulher branca oprimida que se une à empregada na marcha pelos direitos, no fundo, das duas. Conheço muito bem o melhor e o pior da natureza humana. Os afrodescendentes foram humilhados e reprimidos no Sul. É incontável a lista dos que morreram assassinados. Mas havia gente com consciência. Um dos grandes filmes para mim é O Sol É para Todos, baseado no livro de Harper Lee, sobre advogado que dá lições de civilidade aos filhos envolvendo racismo.

 

Como conseguiu reunir todas essas atrizes?

 

Viola (Davis) estava na minha mira desde o começo. Sabia do que ela é capaz e nunca duvidei de que faria o papel maravilhosamente. Octavia (Spencer) é minha amiga. Viemos juntos a Los Angeles, ela querendo ser atriz, eu, diretor. Assim como Kathryn me apoiou e me fez o diretor do filme, eu me bati por Octavia porque sabia que ninguém, melhor que ela, faria a personagem. Jessica (Chastain) foi um golpe de sorte. Ela ainda não era a Jessica Chastain. Fez o teste, gostei demais. Depois veio toda essa história de A Árvore da Vida. Nada me alegra mais do que minhas escolhas de elenco.

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