Markus Schreiber/AP
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Diretor de Bonnie & Clyde morre aos 88

Também produtor, Arthur Penn vivia em Nova York

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2010 | 00h00

Os outsiders consideram o cineasta Arthur Penn quase um mito - "quase" porque ele justamente se notabilizou pela iconoclastia, retratando com vigor crítico a América violenta. Basta acompanhar Caçada Humana, na qual um prisioneiro foragido volta para a cidade onde nasceu e se torna alvo de uma perseguição, ou de Bonnie & Clyde, em que a trajetória de crimes de um casal de assaltantes desponta como um documento social de época. Arthur Penn completou 88 anos na segunda-feira - no dia seguinte, morreu em sua casa, em Nova York, de insuficiência cardíaca, segundo sua filha, Molly.

Fazia um ano que o cineasta estava doente, completou o agente e velho amigo Evan Bell. Para o cinema, no entanto, Penn parecia aposentado fazia mais tempo, desde 1989, quando dirigiu seu último filme, Perseguidos por Acaso. Um desonroso silêncio para o homem cujo principal trabalho, Bonnie & Clyde - Uma Rajada de Balas (1967), é considerado um divisor de águas no cinema americano da época, ao lado de Meu Ódio Será Sua Herança, de Sam Peckinpah - a violência das duas obras, totalmente explícita e detalhada, era a resposta de homens alienados que viviam o fim de sua era.

Penn iniciou a carreira artística na Broadway na direção de obras que levaria depois para a tela grande, como O Milagre de Anne Sullivan, de 1962. Foi justamente no início desta década de 1960 que ele chegou ao cinema, inspirado pela agitação política e social daquele momento, reforçado pelo interesse americano em seu passado e presente.

Os desajustados eram seus personagens preferidos, o que o levou a se interessar pelo casal de assaltantes de bancos Clyde Barrow e Bonnie Parker, que agiu nos Estados Unidos na época da depressão econômica dos anos 30. "O sensato seria a sociedade se interessar pelos marginalizados para então descobrir onde está falhando", dizia ele, então interessado em fazer um cinema psicanalítico, tentando estabelecer a analogia entre o revólver e o pênis.

O interesse pela contracultura continuou em Pequeno Grande Homem (1970), em que narra a conquista do oeste americano mas a partir do ponto de vista dos índios, considerados por ele os verdadeiros mocinhos. Desmistificar era seu lema, como comprovou em Um Lance no Escuro (1975), a sua versão do escândalo Watergate - a partir de um emaranhado de tramas, o cineasta reproduz, nas relações interpessoais, o clima de desconfiança e traição que emanava da Casa Branca.

O conflito entre polos inconciliáveis que buscam liberdade e relações estáveis era a diretriz do cinema de Penn que, aos poucos, se afastou forçosamente do meio, derrubado pela pasteurização que marca boa parte das produções atuais. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

PRINCIPAIS FILMES

O Milagre de Anne Sullivan (1962)

Caçada Humana (1966)

Bonnie e Clyde - Uma Rajada de Balas (1967)

O Pequeno Grande Homem (1970)

Um Lance no Escuro (1975)

Morte no Inverno (1987)

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