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Cinearte Produções Cinematográficas
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Diretor de 'Amor Estranho Amor, Walter Hugo Khouri é um observador crítico da burguesia

Ciclo de filmes do cineasta inclui o polêmico longa vetado por Xuxa

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2021 | 14h59

Por força das circunstâncias, Amor Estranho Amor tornou-se talvez menos visto do que poderia, pois uma de suas atrizes, a então adolescente Xuxa Meneghel, se opunha à exibição e ao lançamento em vídeo. Cópias piratas, em estado lastimável, circulavam pela rede, mas apenas agora, com a exibição no Canal Brasil, torna-se de novo obra pública. Recentemente, Xuxa, que no filme aparece nua e em situações eróticas com um menor de idade, mudou de ideia. Agora recomenda que as pessoas vejam o filme e tirem suas conclusões. Lembra que ela não é a personagem, mas apenas uma atriz que a interpreta. O que deveria ser óbvio.

Revisto, Amor Estranho Amor mostra-se um interessante exemplar do universo khouriano, no qual o amor, o erotismo e a angústia existencial têm presença importante. Inclui também um elemento de nostalgia e uma rara conotação política.

A história se desenvolve em flashback. Na maturidade, Hugo (Walter Forster), visita o casarão onde se deu sua iniciação sexual quando menino (Marcelo Ribeiro). O garoto era filho da prostituta de luxo Anna (Vera Fischer), que oficiava nessa mansão sob as ordens da cafetina Laura (Íris Bruzzi). Isso em 1937, às vésperas do golpe do Estado Novo, com os figurões políticos conspirando enquanto bebem e esperam ser atendidos pelas moças. Xuxa, então entre os 17 e 18 anos, é Tamara, regalo preparado pela casa para um dos mandachuvas presentes. Mas ela se encanta mesmo é pelo menino Hugo. As cenas de intimidade entre a ninfeta e o garoto provocaram toda a controvérsia e foram responsáveis por seu arquivamento, até agora.

Como a maior parte dos trabalhos de Khouri, este também tem elenco repleto de mulheres bonitas e de tórridas cenas de amor. Nada de mau gosto, porém. Falha em partes do roteiro e algumas falas soam artificiais. Tem no elenco também nomes masculinos importantes, como Tarcísio Meira e Mauro Mendonça. Os críticos Jairo Arco e Flecha e Rubens Ewald Filho fazem pontas divertidas. O conjunto paulistano Tradicional Jazz Band, um fetiche musical de Khouri, apresenta seu repertório nas festas do bordel grã-fino. A trilha sonora, sofisticada, é do maestro Rogério Duprat. Tudo chique e moderno, embora a obra tenha ar retrô.

Em seus melhores momentos, Khouri é tido como um observador crítico da burguesia, como é o caso de Noite Vazia, sua obra-prima, ausente da mostra. Em Amor Estranho Amor, esse olhar cético sobre o topo da sociedade entra de maneira homeopática e acessória, em especial nas maquinações pelo poder que ocupam os homens enquanto as mulheres não chegam. A misoginia parece um dado natural, prática corrente tanto da época histórica da trama quanto do tempo em que o longa foi rodado. Já o reencontro entre o Hugo adulto e o Hugo criança, com o olhar cúmplice que trocam, é um momento de beleza, uma espécie de reconciliação poética com o passado.

O resto da mostra oferece uma panorâmica um tanto heterodoxa do conjunto da obra de Khouri. Um dos seus últimos longas, Forever (1990), é uma coprodução estrangeira, contando com um astro internacional como Ben Gazzara. Vera Fischer, Ana Paula Arósio e Eva Grimaldi (atriz italiana que veio ao Festival de Gramado) completam o elenco. Arósio faz a filha em busca do mistério do pai (Gazzara). Forever tem seus momentos, mas padece de certo desacerto estrutural.

Outros dois títulos da programação, As Feras (1996) e As Deusas (1972), oferecem momentos diferentes da carreira de Khouri. No primeiro, marido e mulher se envolvem com uma jovem psiquiatra. No elenco, Lilian Lemmertz, Kate Hansen e Mário Benvenuti, que já havia trabalhado com Khouri em Noite Vazia. A situação evoca o universo do sueco Ingmar Bergman, uma das referências maiores do cineasta brasileiro. A outra é Antonioni. Em As Feras (1996), seu penúltimo trabalho, Khouri dialoga com o mundo do teatro e com Frank Wedekind, outra de suas manias. Uma atriz se prepara para interpretar a femme fatale Lulu (personagem da ópera de Alban Berg, inspirada em Wedekind), e seu personagem extrapola e invade sua vida real, provocando vítimas, a primeira delas seu namorado vivido por Nuno Leal Maia. Há dramas existenciais, atrações fatais e amor entre mulheres, neste filme de tom angustiante, que ficou vários anos sem lançamento em razão de disputa entre o diretor e o produtor.

Por fim, o par Convite ao Prazer (1980) e Eu (1986), agrupados na mesma fase do diretor. O primeiro, o alter ego do diretor, Marcelo (Roberto Maya), convida um amigo para “experimentar” as mulheres que leva ao seu apartamento. O time feminino é impressionante: Sandra Bréa, Helena Ramos, Kate Lyra, Aldine Muller, Rossana Ghessa, Nicole Puzzi. Em Eu, Marcelo é vivido por Tarcísio Meira. Em tom levemente cômico, ele reúne em sua casa de praia outro conjunto fabuloso de mulheres. Mas um desejo incestuoso pela filha Berenice (Bia Seidl) perturba o ambiente. Em torno dela, Monique Evans, Christiane Torloni, Monique Lafond, Nicole Puzzi.

Os elencos femininos de Khouri, escolhidos a dedo, fizeram sua fama de grande diretor de atrizes. Há mais que isso em sua obra. Homem culto, versado em filosofia e literatura, tinha também a parte técnica do ofício lapidada pela experiência na Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Iniciou-se no métier trabalhando como assistente no preparo de O Cangaceiro, de Lima Barreto.

Khouri exerceu sua profissão ao longo de 40 anos e ocupou uma posição excêntrica no contexto do cinema brasileiro autoral. Com sua trajetória particular, colocou-se à parte do movimento dominante, o Cinema Novo. É um caso parecido com o de Domingos Oliveira, outro independente da mesma geração, embora um e outro tenham seguido caminhos divergentes. Unem-se na recusa ao engajamento político ostensivo dos cinemanovistas e na afirmação de estéticas e visões de mundo pessoais.

Os críticos devemos ainda a Khouri uma análise mais exaustiva do conjunto de sua obra. Esta é irregular, mutante em relação às épocas que atravessou, intensa, mas aspirando, talvez, a uma unidade mais profunda, feita da visão pessoal do artista sobre o desejo humano e sua angústia existencial perante o mundo.

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Mostra Walter Hugo Khouri

Canal Brasil

Terça, quarta e quinta, 0h30

09/02 – As Deusas (1972) (95’) + O Convite ao Prazer (1980) (114’)

10/02 – Eu (1987) (124’) + As Feras (1995) (102’)

11/02 – Amor Estranho Amor (1982) (121’) + Forever (1994) (89’)

 

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