Diretor da Pinacoteca quer tombar Nemirovsky

Objetivo seria a manutenção do acervo em meio a batalha jurídica

Camila Molina - O Estado de S.Paulo,

24 de março de 2011 | 06h00

No sábado, a Fundação José e Paulina Nemirovsky inaugura, em sua sede e espaço expositivo no segundo andar da Estação Pinacoteca, a mostra A Casa da Rua Guadelupe, com 73 obras, além de mobiliário e painéis que, como diz o título da mostra, tratam da residência, em São Paulo, em que os colecionadores de arte, já mortos, abrigavam sua destacada coleção de arte, avaliada em cerca de R$ 100 milhões. Em 2004, o acervo foi doado em comodato à Secretaria de Estado da Cultura, que colocou a entidade sob gestão do museu Pinacoteca do Estado. Mas, nos bastidores, uma briga judicial vem desestabilizando, nas últimas semanas, a Fundação José e Paulina Nemirovsky.

 

 

A ponto de o diretor da Pinacoteca, Marcelo Mattos Araujo, ter entrado com pedido no Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat) de tombamento da Coleção José e Paulina Nemirovsky, que detém obras-primas como Antropofagia, tela de 1929 da modernista Tarsila do Amaral (reproduzida ao lado), considerada mais importante que o famoso quadro Abaporu, da mesma artista. "A coleção é síntese primorosa da arte moderna brasileira", diz Marcelo Araujo, que registrou o pedido ao órgão no último dia 16. "A iniciativa foi em busca de uma medida extra de proteção desse acervo, para que não seja desmantelado", continua o diretor do museu.

Estatuto. No início da semana passada, o juiz Luís Augusto de Sampaio Arruda, da 1.ª vara da Família e Sucessões de São Paulo, determinou que o presidente da Fundação José e Paulina Nemirovsky, o arquiteto Jorge Wilheim, e ainda Antonio Henrique Amaral e Antonio Fernando de Franceschi se afastassem do Conselho Curador da entidade. O juiz acatou requerimento do promotor e curador de Fundações do Ministério Público Estadual, Airton Grazzioli, em que se questionou a regularidade do conselho da fundação, ação movida a partir de representação feita pela família da filha dos Nemirovsky, Beatriz Pistrak Nemirovsky Moraes Leme.

Na representação apresentada a Grazzioli, a família de Beatriz afirma que Wilheim ultrapassou o limite permitido de permanência no conselho da fundação - ele está desde 2001, como secretário e, a partir da morte de Paulina Nemirovsky, em 2005, na presidência da entidade. O estatuto diz que a recondução ao cargo é permitida, para quatro anos, mas o termo está no singular e não se coloca, juridicamente, quantas vezes poderia ocorrer. Mais ainda, que os outros dois membros do conselho da fundação, Antonio Henrique Amaral e Antonio Fernando de Franceschi, foram eleitos para entrar na entidade antes de os filhos de Beatriz, membros natos da fundação, terem atingido a maioridade, momento em que automaticamente eles começariam a fazer parte do conselho. O médico e colecionador José Nemirovsky morreu em 1987 e Paulina, antes de morrer, firmou no estatuto que o conselho da fundação teria quatro membros da família e cinco eleitos.

"A determinação judicial foi surpreendente para nós porque o juiz desconsiderou o fato de que o próprio curador (Grazzioli) aprovou a regularidade da fundação, tanto na gestão quanto no cumprimento dos estatutos, desde que assumiu o cargo. Temos atestados emitidos de desde 2006", diz Arnaldo Spindel, diretor-executivo da entidade. Os advogados da fundação entraram esta semana com recurso para reverter a determinação judicial, que fica, por enquanto, em aberto.

 

Acervo já tem caráter público

Em setembro de 2010 foi renovado o contrato de comodato da Fundação José e Paulina Nemirovsky com a Secretaria de Estado da Cultura para até 31 de dezembro de 2020. Desde 2004 a entidade tem sua sede no segundo andar da Estação Pinacoteca, onde realiza suas atividades, possui reserva técnica e tem seu escritório administrativo. A parceria com o museu da Secretaria de Estado permite o caráter público que os colecionadores queriam dar ao acervo. As obras da coleção também já foram exibidas em mostras no interior de São Paulo e emprestadas para mostras no exterior. A valiosa coleção criada pelo casal, especialmente nas décadas de 1960 e 70, tem cerca de 200 obras, entre elas, a Antropofagia de Tarsila (além de outras da artista); criações de Portinari, Ismael Nery, Di Cavalcanti, Brecheret, Segall, Volpi, Picasso e arte popular, "O acervo tem obras referenciais de cada artista", diz Marcelo Araujo. / C.M.

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