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Diretor conta como foi recriar o autor do jornalismo 'gonzo' em filme

'Diário de Um Jornalista Bêbado' é baseado em relato autobiográfico de Thompson S. Hunter

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo,

25 de abril de 2012 | 03h13

É um projeto do astro/produtor - do ator - Johnny Depp, que chamou Bruce Robinson para dirigir Diário de Um Jornalista Bêbado. No original, é The Rum Diaries, um relato autobiográfico de Thompson S. Hunter, editado aqui pela L&PM e que Depp descobriu após a morte do autor, em 2005 - e ajudou a publicar. Ambos se conheceram num bar e ficaram amigos antes que Depp fizesse, com Terry Gilliam, Medo e Delírio em Las Vegas. Numa entrevista por telefone, de Los Angeles, o diretor Robinson explica que tudo o que não quis foi fazer Medo e Delírio 2.

É um bom começo para se falar. Por que não?

De cara, quando fui contactado por Johnny (Depp), eu lhe disse que, se ele estava pensando nisso, eu era o homem errado. Mas aí descobri que Johnny me contratou porque era fã de um filme que fiz há 25 anos, na Inglaterra, Withnail & I. Conhece?

Tenho de admitir que não. O que é?

Se conhecesse, entenderia as similaridades e até que há cenas de Withnail que trouxe para o Diário. É a história de dois atores que dividem um quarto no fim dos anos 1960. Fazem uma viagem. São produtos do seu tempo. Coloquei um tanto de experiências autobiográficas. Tem gente que o acha chato, mas os que gostam sempre elogiaram meu diálogo. Acho que era o que Johnny queria - alguém que entendesse as falas de Hunter e as transpusesse para a tela. Não se trata simplesmente de retomar os diálogos do livro, mas de recriá-los segundo uma ótica pessoal, ou seja, de transcriá-los.

E como você fez isso?

Li o livro duas vezes e o esqueci. Thompson S. Hunter criou o jornalismo gonzo, que não se pauta pela objetividade. A expressão tem um pé na Irlanda. Sabe aqueles pileques homéricos que a gente vê nos filmes e livros? O gonzo é o último a ficar de pé. Agora, transponha isso para o jornalismo e a literatura, como fez Hunter. Transponha para o cinema.

O protagonista, Kemp, é uma espécie de alter ego de Hunter, mas ainda não é o drogado de Medo e Delírio, não?

E por isso seria equivocado retomar a narrativa visual de Terry (Gilliam). Kemp representa o Hunter bêbado, que foi se ligando em experiências cada vez mais pesadas. A narrativa passa-se em Porto Rico, onde ele exerce seu jornalismo. Nessa região, é impossível não se deixar atrair pelo rum - e pelas mulheres.

O filme narra as aventuras de um par de amigos como os de Withnail & I, mas também tem esse gringo que é um verdadeiro predador (Aaron Eckhart). Como os porto-riquenhos receberam sua visão do país deles?

Porto Rico foi espanhol antes de virar norte-americano. Os Estados Unidos se apossaram da região numa guerra imperialista. Embora seja território norte-americano, permanecem diferenças culturais muito grandes, e foi isso que me interessou. Kemp e seus parceiros catalisam reações num mundo que não é o deles.

Johnny (Depp) é diretor, além de ator e produtor. Ele interferiu?

Se quisesse, teria feito o filme, mas ele queria só interpretar. E Johnny faz um retrato afetivo, de um Thompson S. Hunter cuja intimidade logrou penetrar. Por conta do que representa, principalmente depois de virar megastar com a série Piratas do Caribe, Johnny não teve dificuldade para levantar o maior orçamento que já tive, US$ 45 milhões. Ele trouxe o diretor de fotografia Dariusz Wolski, que veio com sua equipe de ponta. Mas nenhum deles me dizia o que deveria fazer, ou como deveria fazer. Tenho consciência, e Johnny também tinha, do tamanho de Diário. Não é uma coisa mega, para tanta gente, quanto Piratas.

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