Morris Mac Matzen/ Reuters
Morris Mac Matzen/ Reuters

Diretor Brillante Mendoza fala sobre polêmico 'Captive' no Festival de Berlim

Filme sobre sequestro de turistas foi rodado nas Filipinas e teve projeto concebido em São Paulo

LUIZ CARLOS MERTEN, ENVIADO ESPECIAL / BERLIM, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2012 | 03h07

 

Em nome da exatidão histórica, é preciso reafirmar o que disse ontem Brillante Mendoza em entrevista para o repórter do Estado. Captive, seu polêmico filme que participa da competição na Berlinale, começou a nascer em São Paulo. Ele já conhecia Isabelle Huppert, mas os caminhos de ambos se cruzaram no Brasil, onde ele era objeto de uma retrospectiva e ela apresentava uma peça. Saíram para jantar, falaram da admiração que um tinha pelo outro. Daí ao projeto de um filme, foi um passo. Nasceu Captive, sobre a odisseia de um grupo de turistas feitos reféns por terroristas nas Filipinas, em 2001.

 

A rodagem foi um inferno, em plena selva, seguindo o caminho que os protagonistas da história real percorreram durante quase um ano. Foi o filme mais difícil de montar, não do ponto de vista financeiro, mas da edição, de Mendoza. Mas ele espera que Captive marque um tournant em sua carreira e não por ser mais comercial. Uma atriz como Isabelle Huppert faz a diferença na hora de atrair público, mesmo no circuito de arte. Os Irmãos Taviani contam que viveram outro inferno, o dos detentos da prisão de segurança máxima de Rebibia, em Roma, que são protagonistas de seu longa Cesare Deve Morire. O filme documentado, não documentário, mostra esses homens a quem a arte - eles participam de um grupo de teatro que monta Júlio César, de Shakespeare - descortina um outro nível de consciência.

 

A Berlinale de 2012 está sendo feita desses encontros. E de filmes. Nada promete superar a emoção que foi a redescoberta de um clássico de Sergei M. Eisenstein. Desde a sua primeira apresentação, em 1928, Outubro ou Dez Dias Que Abalaram o Mundo conheceu o inferno (nosso tema de hoje). O filme foi cortado pela censura stalinista, depois cortado de novo. Ninguém sabe a duração exata que tinha. Graças a um laborioso trabalho de reconstituição, a Cinemateca de Munique conseguiu chegar agora o mais próximo que se tem notícia do que deve ter sido a versão original de Eisenstein.

 

 

OK, a sequência da escadaria de Odessa, em O Encouraçado Potemkin, pode continuar sendo a súmula das teorias de montagem do autor, mas - e essa vai ser uma afirmação polêmica - Outubro é mais poderoso, é mais cinema. Com acompanhamento de música ao vivo, a sessão entrou para o panteão dos momentos inesquecíveis que o cinema tem proporcionado ao repórter.

 

Uma boa notícia - Renata de Almeida, que está aqui em Berlim garimpando títulos para a próxima Mostra, já está iniciando tratativas para levar Outubro a São Paulo (em outubro, curiosamente). Torça para que isso aconteça. O festival prossegue com acertos e decepções.

 

O que deu em Zhang Yimou? Se não assina o pior filme da mostra principal, até agora, ele está bem perto desse título pouco lisonjeiro. Flores da Guerra, com Christian Bale, reconstitui a batalha de Nanking, quando os japoneses invadiram a China. Nos combates pelo controle da cidade, morreram 200 mil pessoas. O filme é sobre a brutalidade japonesa e os heróis mais improváveis do mundo - o falso padre Bale, trapaceiro que se esconde por trás de uma batina, e um bando de prostitutas, que se sacrifica para salvar as garotas de um internato religioso. Zhang Yimou virou o autor oficial da nova China. Difícil imaginar outro filme mais propagandístico. Ainda bem que houve, para balançar, o documentário (bom) sobre o dissidente Ai Weiwei.

 

Uma palavra sobre Xingu. Embora a apresentação oficial do longa de Cao Hamburger seja somente amanhã, seguida de debate com o diretor, o filme já passou para a imprensa. Xingu mostra os esforços dos irmãos Villas-Boas para criar o Parque Nacional do Xingu. Longe de ser hagiográfico, narra a história da ruptura de uma família (os irmãos) e carrega, na própria constatação de sua vitória (o parque), os signos de uma derrota. O que o Xingu guarda é uma pálida amostra do que foi a grandeza das tribos indígenas na Amazônia. O plano final é de uma beleza de cortar o fôlego. O paraíso sonhado e, por um momento, encontrado, antes de se perder. Xingu não é apenas correto, como andaram escrevendo alguns críticos depois de sua exibição em Manaus. Tem classe, é muito bom. Aguarde para constatar.

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