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Diretor alemão concilia clássicos e contemporâneos no teatro

Ostermeier notabilizou-se por sua dedicação à nova dramaturgia e à descoberta de novos autores

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES - O Estado de S.Paulo,

01 de junho de 2012 | 03h25

BERLIM - Para ele, não existe conflito entre o clássico e o contemporâneo, entre a novidade e a tradição. Na hora de discorrer sobre sua arte, o encenador alemão Thomas Ostermeier não faz distinção entre Shakespeare e Mark Ravenhill, Henrik Ibsen e Sarah Kane. Diretor artístico do Schaubühne, um dos mais importantes e instigantes centros teatrais de Berlim, Ostermeier notabilizou-se especialmente por sua dedicação à nova dramaturgia e à descoberta de novos autores.

A despeito disso, tem se voltado à montagem de obras canônicas. Entre elas, releituras de Ibsen: ele prepara a estreia de O Inimigo do Povo. Além de uma atordoante versão de Hamlet, atualmente em cartaz na capital germânica. "Obras clássicas são um material para entender o nosso tempo, o que é o ser humano", disse o diretor em entrevista ao Estado.

Aclamado internacionalmente, detentor de prêmios como o Leão de Ouro da Bienal de Teatro de Veneza em 2011, ele recebeu a reportagem em seu teatro para uma conversa. Na ocasião, falou sobre suas criações, defendeu o caráter global de suas produções e apontou rumos para as artes cênicas. "Nos últimos 20 anos, o teatro só fala sobre si mesmo. As pessoas também querem ver os seus problemas e as suas realidades no palco", alertou. "Hoje, é muito importante falar de como o mundo está mudando. Porque o mundo está mudando de uma maneira muito ruim."

Pela primeira vez no Brasil, Ostermeier passou a semana em São Paulo. Falou durante o Congresso Cult de Jornalismo Cultural e participou hoje de uma palestra promovida pelo Instituto Goethe.

Você está agora apresentando uma versão de Hamlet, fez obras de Ibsen, mas tornou-se especialmente reconhecido pelo seu apreço pela dramaturgia contemporânea. Como conciliar tradição e o desejo de renovação?

Não há nada para conciliar. Não acho que as coisas sejam assim tão diferentes. É preciso descobrir novos autores, novas peças. O que é uma tarefa bem difícil, já que você nunca sabe se isso será apreciado pelo público.

Existe certa segurança em rever textos consagrados, mas você tenta insuflar essas obras com um olhar pessoal, não é?

Sim, geralmente tento entender questões contemporâneas via essas obras clássicas. É um material para jogar, um jeito de entender o nosso tempo, o que é o ser humano. Como as pessoas se tratam? Como elas tentam conseguir poder? O que é poder? É uma tentativa de encontrar, por meio do teatro, algum tipo de verdade.

Mas como encontrar espaço para a sua visão particular quando se está lidando com esse tipo de material? Algo que todo mundo conhece, sobre o qual nutre certas expectativas.

Parto sempre de uma abordagem muito emocional. Tenho um repertório de 15, 20 peças. Então, espero pelo momento certo para aquele texto específico. E essa não é uma decisão racional. É a simples sensação de que, enfim, estou pronto para aquela obra.

Voltando à questão dos novos autores. Como diretor artístico de um teatro como o Schaubühne, o que é possível fazer para incentivar o desenvolvimento de uma nova dramaturgia?

Antes de vir para cá, estava em um pequeno teatro (Baracke, o palco secundário do Deutsches Theater), onde lidávamos com muitos dramaturgos contemporâneos. Aqui, tento dar sequência a isso. Temos um programa de residência de jovens autores. Também fazemos um festival internacional de dramaturgia. Acontece anualmente, durante dez dias. Além disso, também convidamos criadores de renome internacional para fazer obras sob encomenda. Rodrigo García fez uma peça para nós no ano passado. Vamos trabalhar com Romeu Castelucci em 2013. O Schaubühne é bastante aberto a obras estrangeiras.

Acolher criações internacionais, estar em contato com outros criadores. Você acredita que essa predisposição é importante para o teatro que você faz?

Para nós isso é óbvio. No ano passado estivemos em 35 cidades ao redor do mundo. Porque é importante afirmar que a globalização não significa apenas ter lucro ou vender bugigangas de plástico para outros países. Também podemos compartilhar culturas, experiências. A imagem de se sentar ao redor da fogueira para ouvir uma história ainda faz sentido. As pessoas precisam se sentir em casa, e elas se sentem assim quando compartilham histórias. Histórias são globais por natureza. Cada história tem uma beleza, um fascínio particular.

Você fala na importância das narrativas, o que parece ir na contramão da obra de Hans-Thies Lehmann e do seu conceito de teatro pós-dramático.

Não acho que o livro fale que não podemos mais contar histórias. Mas que mudaram as formas de se fazer isso.

O curioso é que Lehman estava falando do teatro dos anos 1980, mas as pessoas ainda hoje parecem um pouco perdidas, sem saber ao certo como lidar com essas ideias.

O maior perigo é que o teatro de hoje está sempre falando sobre si mesmo. É só isso o que vimos nos últimos 20 anos: uma reflexão sobre a relação entre palco e espectador. O teatro perdeu suas referências externas. E, mais cedo ou mais tarde, as pessoas vão se cansar disso. Porque elas estão interessadas em falar também sobre o que acontece nas suas vidas.

Nesse contexto, como conquistar novas plateias?

Na verdade, não temos esse problema. Se você for a qualquer teatro de Berlim, verá que ele está lotado. Tomado por pessoas de diferentes gerações, por pais e filhos. No Schaubühne, acho que isso acontece porque não somos guiados por uma ideologia. Não existe uma estratégia de marketing para seduzir os jovens. Apenas fazemos o que nos parece importante. O marketing é a qualidade do nosso trabalho.

Aqui, como em outros teatros de Berlim, você é subvencionado pelo governo. Seria possível fazer esse trabalho de outra maneira?

Não seria possível. Talvez eu, como diretor, com a minha reputação, pudesse criar uma companhia e vender espetáculos para festivais. Mas não faríamos o que fazemos aqui, o que apresentamos neste prédio. Este teatro é parte de Berlim, pertence à cidade.

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