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Humberto Werneck
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Direto do Paraíso

Domingo - Meu companheiro de viagem, o fotógrafo Jaime Bórquez, já tinha estado aqui e no avião veio dizendo, excitado: a melhor maneira de ir ao Paraíso é ainda em vida. O que me parecia ser frase de efeito começou a fazer sentido quando fui conduzido a esta suíte do Las Ventanas al Paraiso, no extremo sul da Baja California, a desértica península que o México dependura no Pacífico. Minutos depois, estava na jacuzzi do terraço, onde me deixei lamber por línguas de água tépida enquanto chupitava uma tequila de boas-vindas. Agora entendo o que disse o Jaime. Estou no Paraíso, e nem precisei morrer.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2014 | 02h06

Segunda-feira - Nesta semana não há aqui ninguém muito famoso, modéstia à parte. Segundo me disseram, pouca diferença faria: celebridade ou não, quem vem a este hotel quer sossego e privacidade. Nada de tietagem explícita. Marola, só na jacuzzi. A maioria dos hóspedes você mal vê, encafuados que ficam em suas suítes - como a Presidencial, em cujos 280 m² o habitué Arnold Schwarzenegger pode franquear músculos que não mostra no cinema. Mais modesta (90 m²), a minha tem uma lareira que, sintonizada com o ar refrigerado, permite simular, em pleno calorão da Baja California, um inverno a que não falte o ingrediente romântico da lenha crepitando em frente à cama.

É o que eu faria, se estivesse acompanhado - mas já percebi que sou anomalia em Las Ventanas. Este não é um hotel para gente avulsa. Tanto que não há tarifa de solteiro. O sujeito pode vir sozinho, mas vai pagar por dois. E tire da cabeça a ideia de encontrar aqui seu par, pois quase todo mundo vem acasalado. Menos o Jaime e eu, é claro. Não há pista de dança - talvez porque o pessoal, na faixa dos 40 anos para cima, já esteja meio dançado.

Terça-feira - Tarde al mare, a bordo do iate Gin, confortável embarcação de 55 pés (cerca de 16 m) que zarpou de Cabo San Lucas e atravessou conosco a tarde. Sanduíches da cozinha de Las Ventanas e champanhe Moët & Chandon. Nosso capitão, o bigodudo Abelardo, lançou âncora numa baía deslumbrante - da qual infelizmente não há fotos, já que o Jaime, transtornado, largou a câmera e saiu corcoveando num jet ski.

Quarta-feira - Hoje me transformei em paisagem. É que anda por aqui a equipe de um canal a cabo dos EUA, gravando um programa sobre boa vida. O script previa um jantar em La Cava, a adega do hotel, e, como não há jantar sem comensais, acabei convidado para figurar à mesa. Ainda bem que não se chegou ao extremo de servir pratos apenas cenográficos. Lamentavelmente, ninguém teve a ideia de abrir um Château Pétrus, a estrela da adega, talvez porque custa US$ 3.500.

Quinta-feira - De manhã, encontrei a equipe da TV com as luzes acesas sobre um espetáculo para mim inédito: massagem para cães. Sim, este é um lugar onde a expressão "massagem pra cachorro" tem sentido literal. O totó pode ter feito uma viagem estressante e, como tem quatro patas, deve ter jet leg em dobro (a gente sabe que é 'Lag', não 'leg', mas me permita a graçola...). Na chegada, cães e gatos são saudados com um cartão do diretor do hotel, cujo "texto" são linhas "escritas" com marcas da patinha. Para eles há cardápios impressos. Sugestão do maître: Canine Couscous e, de sobremesa, Woof Woof Waffles. Apenas US$ 28, serviço não incluído.

Sexta-feira - Se em Las Ventanas cachorro é tratado como gente, hoje tive o meu dia de cão, no melhor sentido. Passei a manhã no spa que já valeu ao hotel vários prêmios internacionais. Entreguei-me aos cuidados da morena Celia para uma sessão de stone therapy. Por meu corpo, previamente besuntado de óleo de sésamo, ao som quase hipnótico de flautas, ela fez deslizarem pedras quentes e frias, alternadamente, promovendo um choque térmico destinado a dissolver pontos de tensão. Saí levitando, mas não dou notícia de tudo o que aconteceu naqueles 80 minutos: pela primeira vez na vida, dormi durante uma reportagem.

Sábado - Nossa última noite em Las Ventanas começou no Lounge Bar do restaurante, com jazz no piano e duas (mentira: várias) taças de champanhe. À mesa, reincidi no foie gras com gelatina de maçã verde e no roasted cabrilla, o melhor peixe que meu paladar pescou nestas paragens. Em estado de graça, biquei um licor de damiana, enquanto o Jaime Bórquez acendia um puro de Cuba. Se temos mesmo que deixar o Paraíso, que seja assim.

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