Direto da Fonte: 'Pretendo ajudar nas Olimpíadas'

Direto da Fonte: 'Pretendo ajudar nas Olimpíadas'

Dois anos fora das quadras e Guga não pensa em parar

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2010 | 00h00

Carisma não se explica. E quem possui essa característica sabe o poder que tem nas mãos. Gustavo Kuerten, o Guga, é um deles. Parou de jogar tênis em 2008, mas seu jeitão ainda lhe rende uma legião de fãs.

Figura adorada, ar de moleque grande, o ex-tenista recebeu a coluna em Florianópolis, um dia depois de vencer o russo Yevgeny Kafelnikov, durante a Semana Guga Kuerten - campeonato juvenil de tênis que organiza. Objetivo, conversou durante 45 minutos marcados no relógio, sobre assuntos variados, enquanto devorava um prato de frutos do mar.

Desde que anunciou sua prematura aposentaria ele divide o tempo entre trabalhos filantrópicos e o desenvolvimento do tênis. Seja participando de campeonatos ou gerenciando jogadores promissores. Guga já está até convocado para um comitê das Olimpíadas de 2016 - experiência na qual acredita que será bem sucedido. "Pretendo ajudar muito. Eu sei que esses eventos são complexos, cheios de responsabilidades,mas não vejo como possam ser prejudiciais".

O sorriso inconfundível, que arranca suspiros, não carrega apenas o personagem do cara "buena onda". Extremamente profissional e bem assessorado, o jogador, com o perdão do trocadilho, não dá bola fora ao tentar escapar de questões polêmicas. "Prefiro não comentar", reage ele quando indagado sobre o comentário feito pelo presidente Lula, no Rio, de que o tênis é esporte de burguês. E apesar de todo seu engajamento na democratização do esporte, não tem pretensões de se aventurar em algum cargo público: "Não penso em trabalhar nessa área, pelos menos por enquanto". Seu voto? "Nem minha mãe sabe", diz, rindo e caminhando no cais da Lagoa da Conceição.

Como foi voltar a jogar?

Surpreendente. Meu corpo reagiu bem. A lesão é que determina até que ponto posso estar dentro da quadra. E consegui fazer jogadas interessantes. Além disso, a adrenalina do exercício físico é fundamental para o jogador, né? Entrar em atividade novamente, mesmo com outro fim, foi ótimo.

Você, diferentemente de outros ex-jogadores, não pensa em se afastar do esporte, não?

Tenho necessidade de estar em contato com o tênis. Pretendo ainda disputar partidas, estar bem ativo. O fato de ter parado jovem me deixou com muita energia para viabilizar novos sonhos relacionados com o esporte.

Como encarou sua lesão?

É um outro tipo de desafio. Para o atleta é complexo porque temos sempre retornos positivos do corpo. Quando aparece uma adversidade assim, é difícil. No meu caso, ainda consegui jogar bem durante dois ou três anos. Depois eu tive muita dificuldade.

Esse período foi complicado? Tive que primeiro suportar e depois aprender a lidar com essa situação nova. Respeitar os limites do meu corpo. E, claro, ter que encerrar a minha carreira muito cedo. Entretanto, sempre analiso tudo de forma positiva. Fui beneficiado por experiências que não teria vivido. E acredito que o fato de ter chegado, na minha carreira, muito além do que eu sempre imaginei, também me tranquiliza bastante.

Como avalia o atual panorama do tênis brasileiro?

Passamos por um momento difícil há uns cinco anos, e agora existem novas figuras juvenis. O Thomaz Bellucci já está entre os 20, 30 melhores do mundo. Acho que o futuro é bem promissor, principalmente com a Copa e as Olimpíadas.

Então, você está otimista com as Olimpíadas?

Eu sou otimista, né (risos)? Acredito no nosso potencial. Precisamos aprimorar a área de regulamentações entre outras coisas. Mas percebi, nas minhas viagens ao longo de 20 anos, uma melhora gigantesca na imagem do Brasil. Faço parte de alguns comitês do COB, inclusive, um diretamente ligado às Olimpíadas de 2016. Pretendo ajudar muito. Sei que esses eventos são complexos, cheios de responsabilidades mas não vejo como possam ser prejudiciais.

Qual a razão de o Brasil ainda não ter uma grande representante do tênis feminino?

O nosso lado afetivo dificulta um pouco. O tenista homem sofre muito. A mulher mais ainda. As meninas começam a preparação muito precocemente. Uma jogadora com 15 anos é quase profissional. Essa imaturidade dificulta. Poxa, eu se tivesse uma filha, não ia querer cobrar nada dela aos oito anos (risos). Já na Europa, eles têm mais facilidade de fazer essas cobranças.

Mas se é uma contingência do esporte...

É, mas essa característica não é um fator determinante. O Brasil deveria ter pelo menos uma jogadora entre as 50 do mundo. Nós estamos em busca de identificar algumas meninas. Se a Gisele Bündchen trouxe inspiração para milhares de garotas que querem ser modelo, seria legal ter um exemplo assim no tênis. Eu sei que vai ser difícil, porque ela é a número um do mundo... Mas se chegar perto já está bom.

Uma discussão na Copa foi o uso do vídeo na arbitragem, como já acontece em jogos de tênis. Você é a favor?

Eu acho que o esporte sempre vai estar nesse conflito da evolução tecnológica - em consequência de um resultado mais justo - e do "clássico", que é tentar manter o mais próximo de sua tradição. Como atleta, sou a favor. E percebo que futuramente isso virá acontecer em todos os esportes.

O que achou do comentário do presidente Lula, que definiu o tênis como "esporte de burguês"?

Eu assisti ao vídeo. Mas prefiro não comentar. Eu e minha equipe decidimos que nada que eu disser vai acrescentar em uma boa discussão.

E como avalia a política de esporte do governo?

É fácil ficar daqui reclamando. Estar lá dentro e brigar por algo é mais complexo. Percebo uma evolução. Temos que procurar por soluções culturais e depender menos de gestões falidas. E o Brasil vem migrando para isso.

Nunca pensou em concorrer a cargo público?

Não. Meus conhecidos me incentivam, mas por enquanto não tenho a intenção.

Por quê?

Ah, minhas ações são muito planejadas e até agora não chegou o momento. Hoje eu não estou disposto a me envolver. Eu já faço política, de uma certa maneira. Às vezes, fazemos coisas que são deveres do governo. Mas não reclamamos, trabalhamos para que eles também consigam chegar nessas resultantes. Acredito nas ações, não só nas palavras ou protestos.

Já decidiu a quem dará o seu voto?

Não conto nem para minha mãe. E olha que ela me cobra em todas eleições (risos).

O Instituto Guga Kuerten está completando dez anos. Como tem sido esse trabalho?

Sempre tive esse lado meio humanitário. Foi algo que me rendeu até uma dificuldade de ser competitivo dentro de quadra e fora dela. Hoje, nossas ações estão se refletindo pelo Estado inteirinho. Tanto que pensamos até em expandir para outros estados.  Por Marilia Neustein

Colaboração

Débora Bergamasco debora.bergamasco@grupoestado.com.br

Marilia Neustein marilia.neustein@grupoestado.com.br

Paula Bonelli paula.bonelli@grupoestado.com.br

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