Direto da Fonte

Negócio da China

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2011 | 00h00

De passagem pelo Brasil, onde permanecerá por três semanas, Yue-Sai Kan - dona dos direitos do Miss Universo na China - impressiona. A empresária da indústria de cosméticos, apresentadora de televisão, proprietária de sua própria produtora e autora de 7 best-sellers, além de embaixadora da Unicef, conseguiu o que muitos chineses homens jamais sonhariam. Muito menos uma mulher.

Saiu da China com a família, por causa da revolução, e cresceu, estudando, nos EUA. Ante o imenso sucesso nas televisões americanas a cabo, o governo chinês pediu a ela que montasse um programa seu para a TV do país. "Quando comecei, em 1986, a China tinha uma televisão normal, um canal de Pequim e uma TV por satélite. Hoje são 33 televisões por satélite e 3 mil canais", contabilizou Yue-Sai durante jantar reservado na casa de Beatriz Pimenta Camargo, no domingo.

Ontem, a sino-americana almoçou com Mario Garnero, na Brasilinvest, e depois foi homenageada com outro jantar, na casa de João Pedro Flecha de Lima, da Huawei.

Qual a audiência da apresentadora na China? Mais de 300 milhões de espectadores, o que lhe valeu, da revista People, o título de mulher mais famosa do país. E observações como a do The New York Times: "Poucas pessoas conseguem uma ponte entre Oriente e Ocidente com tanta beleza e inteligência".

Não bastasse a notoriedade, ela teve autorização do governo chinês, em 1990, para montar a primeira fábrica de cosméticos do país, batizada com seu nome. Sem participação do estado ou obrigação de exportar.

Foi difícil? "Você não é nada lá sem relacionamentos", explica. Na China, as pessoas são medidas pelo "guanxi". Isto é, seu network de forma abrangente, incluindo trabalho, família e amigos. Não pelo cargo ou pelo dinheiro. E o da menina nascida em Guilin parece ser grande.

A empresária reage com certo desprezo diante de termos como "Tibete" ou "direitos humanos". "Você não vai me perguntar sobre essas mesmas coisas que todo mundo pergunta", avisa. Afirma não ter nada a dizer, mas lembra: "Quando saí da China, o Tibete fazia parte dela. Porque querem ir embora agora?".

Dizendo-se ateia, acredita também estar em uma das últimas encarnações. E classifica o sistema político da China como "ditadura benevolente". "Não há outra maneira de comandar 1,3 bilhão de pessoas".

Yue-Sai Kan veio a São Paulo monitorar a Miss China, preparando-a para a disputa do Miss Universo, que acontece em 12 de setembro. "Tenho certeza de que vai ganhar", atira a autoconfiante empreendedora. Se ela vencer, se tornará o rosto de sua marca pelo mundo? "Claro que sim". Hoje, a empresa de cosméticos de Yue-Sai Kan, fundada em 1992 e vendida pela Coty à L"Oréal em 2004, só produz para o mercado interno. Mas, pelo visto, o país não é limite para esta chinesa de olhos abertos.

Quanto recebeu para vender sua companhia e continuar à frente dos negócios? Ela não revela. Mas o mercado aposta em algo como... US$ 1 bilhão.

Classes do Fasano

Jacqueline Mikhail, da Be Happy Viagens, tirou o sábado para trabalhar. Levou seus cartões de visita para a inauguração do novo hotel Fasano, na Fazenda Boa Vista, a 100 km de São Paulo. E circulou à vontade entre os cerca de 500 convidados que desfilavam no lobby de pé direito alto projetado por Isay Weinfeld.

Enquanto explicava quem era seu público alvo, Jacqueline teorizou sobre a evolução das classes sociais. "A classe D quer ser C; a C, B; a B, A, e a A, AA." A classse AA, resumiu Jackie, "é o que a gente chama de milionários".

Antes da constatação, a reportagem resolve desbravar o salão atrás de diferenças dos A, B, C. Algo além das existentes entre uma bolsa Chanel e uma Hermès. Parou de contar o número de "chanéis" quando chegou em 50. As outras eram, na maioria, Hermès.

O hotel tem 13 suítes e 26 quartos. A diária é igual à dos outros da grife: entre R$ 1.300 e R$ 2.000. A diferença é que o hóspede tem de ficar no mínimo duas noites no fim de semana. "É para fazê-lo permanecer pelo menos dois dias", diz o assessor, Dudi Machado.

De fato, em menos de 48 horas fica difícil aproveitar as 213 cachoeiras, duas mesas de sinuca vintage ("perfeitas para acompanhar um coquetel no final da tarde"), o campo de golfe projetado por Randell Thompson e o vagão dos anos 30 "nostalgicamente decorado".

Como se trata de um hotel de campo, o bufê de comida típica de fazenda AA oferece uma inversão de classes. Os pratos seriam supostamente C: feijãozinho preto, frango com quiabo, ensopadinho de carne e folhas da horta. No corredor entre o lobby e as suítes, onde o trânsito para visitar o hotel é grande, os AA cumprimentam os AB, enquanto várias C e D correm uniformizadas atrás de crianças AA, impecavelmente vestidas.

Helena Mottin conta que, desde que comprou o Mercedes blindado de Hebe Camargo, nunca mais foi assaltada. Acredita que os assaltantes já sabem se o carro é blindado só de tocar a arma no vidro. "Tem um que fica sempre num sinal da Tabapuã. Toda vez ele faz toc-toc no meu vidro..."

À saída da festa, os convidados ganharam uma lembrancinha na linha "campo & mato AA". Rosquinhas amanteigadas recheadas com goiabada. Tipo clássico quatrocentão ABCD. /PAULO SAMPAIO

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Colaboração

Débora Bergamasco debora.bergamasco@grupoestado.com.br

Marilia Neustein marilia.neustein@grupoestado.com.br

Paula Bonelli paula.bonelli@grupoestado.com.br

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