Direto da Fonte

"Latin lover? Não dou um cara... para isso"

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2011 | 00h00

Inteligente e articulado, Antonio Banderas mostra a razão de seu sucesso

Foi depois de uma maratona de 120 entrevistas em Cannes, para divulgar seu novo filme e uma sequente bateria de compromissos no Rio em razão do lançamento do seu perfume Secret, que Antonio Banderas recebeu a coluna na sexta-feira, no Copacabana Palace. Em seu último compromisso oficial antes de deixar, maravilhado, a cidade onde pisou primeira vez. Visivelmente cansado, quase sem voz, seu profissionalismo falou alto. Respondeu às perguntas, ora em inglês ora em espanhol, pacientemente, sem demonstrar pressa. Afinal, seus assessores o fizeram por ele...

Içado à fama por meio de uma parceria com o então desconhecido Pedro Almódovar, o ator falou durante meia hora sobre o novo filme que o levou a trabalhar novamente com o consagrado diretor, também espanhol, depois de um longo hiato de 22 anos. "Nossas agendas coincidiram". Também opinou sobre os problemas do País Basco, "uma coisa deles, que têm que resolver entre eles mesmos." Bem como deu pinceladas os últimos acontecimentos políticos na Espanha.

Durante a conversa, Banderas sinalizou que sabe o que fazer com que ganha na indústria cinematográfica. Dono de cinco casas diferentes pelo mundo, tem optado pela parceria em seus trabalhos. "Dividimos lucros e riscos". E no caso da produção de seus perfumes, não licenciou seu nome. É dono da própria marca.

Abaixo, alguns trechos da entrevista:

Você voltou a trabalhar com Pedro Almodóvar. Como foi esse processo?

Ele me ligou porque tinha um papel para mim. Já tínhamos tentado outros trabalhos juntos, mas eu estava ocupado com outros longas. Sempre programei minha vida em Hollywood com uma antecedência de três anos, o que me impediu de aceitar alguns filmes. Então surgiu essa oportunidade. E o processos foi forte, intenso e difícil como sempre.

O filme é um suspense...

É um pouco mais do que isso. É complexo em termos de moralidade. O que eu posso te dizer é que eu faço o papel de um cirurgião plástico. Que é um monstro. E usa um ato de vingança para mostrar o que há dentro dele, que é profundamente obscuro.

Acredita que os filmes de Almodóvar projetam atores espanhóis em Hollywood, como por exemplo Penélope Cruz e Javier Bardem?

São meus grandes amigos. Não sei. Penélope estava nos EUA antes de trabalhar com Almodóvar, mas é claro, ganhou um nominação ao Oscar por Volver. Javier, não. Ele fez um filme com Almodóvar há muitos anos que não teve projeção. Ele chegou aos EUA, por conta de um diretor fabuloso Julian Schnabel.

Você se interessa por política? Como vê as últimas manifestações fortes que estão ocorrendo na Espanha?

Eu apoio as manifestações. Acho que é um movimento que não se restringe à Espanha. O que vemos é raiva. Porque a população está entendendo que no poder não estão aqueles que votamos, mas o dinheiro, a mídia e pessoas que não escolhemos. São eles que estão com as rédeas da situação. Por essa razão, as pessoas estão reagindo em nome de uma democracia real agora.

Você vive nos EUA, país considerado uma real democracia. O que pensa de Obama?

Eu gosto muito dele. Entretanto, sei que ele tem de lidar com tudo isso que eu estou falando: as grandes corporações, os lobistas e pressões de todos os lados. Ele tem que ser um político. Saber jogar o jogo.

Você usaria, como Arnold Schwarzenegger, sua visibilidade para entrar na carreira política?

Não, nunca. Para ser político há que ter uma vocação clara para a vida pública. Para servir uma população. Eu não tenho isso. Minha habilidade e talento são para fazer o que eu faço, que é contar histórias.

E emprestaria sua imagem para campanhas filantrópicas?

Ah sim. Além de uma organização a favor do oceano, trabalho em diversas vertentes. Para uma fundação que cuida de crianças com câncer. Em Málaga, presido uma fundação de bolsas de estudos para universitários de baixa renda E minha empresa Antonio Banderas Fragances trabalha junto à Unicef no Chile, Argentina, entre outros países.

Então você está pronto para ser político. Isso não é uma vocação pública?

Sim, mas não a ponto de eu me envolver na bagunça que é o meio político. Infelizmente, talvez pela pressão que os políticos sofrem, os bons cérebros não bancam a vida política. Quem está lá é quem quer poder. Aqueles que não tem nada a perder. E isso é um problema.

E qual é a sua opinião sobre o conflito do País Basco?

Acho que o tema dos bascos é mais do que um conflito entre eles e a Espanha. É um problema deles com eles mesmos. Porque a sociedade basca está dividida pela metade. Aproximadamente 50% quer ser independente. E quase a mesma quantidade quer ser basco -espanhol. Fazer um referendo seria complicado. Porque uma decisão desta não pode ser baseada em uma vontade de metade da população, como indicam pesquisas preliminares. É necessário 80% ou 85% de aprovação para legitimar um pedido de independência de um país.

Essa situação, na sua opinião, irá ser resolvida como?

Está se resolvendo. Durante os últimos oito anos de Zapatero, aconteceram pouquíssimos crimes do ETA. Registrou-se o menor número na história da democracia espanhola. A cúpula do ETA foi capturada, criminosos foram presos. O tribunal constitucional espanhol determinou que Bildu, partido político que comunga com a independência, tem direto de participar das eleições. Só esses já são passos importantes.

Você afirmou ser muito ligado às suas raízes da Andaluzia.

Nasci na cidade de Picasso, Málaga. Sou muito orgulhoso da minha terra. É um lugar de pintores, de poetas, artistas. De Federico Garcia Lorca, Velázquez, Bartolomé Esteban Murillo. Me identifico demais muito com essa cultura flamenca, com os costumes. Amo meu povo, sem deixar de reconhecer nossos defeitos.

Você é espanhol, mora em Los Angeles e está inserido na indústria cinematográfica americana. Nunca sentiu nenhum preconceito? Como lida com os conflitos culturais que acontecem no cotidiano?

A sociedade hispânica ganhou terreno nos EUA. Em virtude de algumas gerações que sofreram e trabalharam duro, conseguindo colocar seus filhos nas universidades. Eu vi essa mudança. Hoje, os latinos em Hollywood, não interpretam apenas os papéis de delinquentes. Acho que ajudei um pouco a comunidade com a minha projeção.

A personalidade forte em um ator ajuda ou atrapalha na hora de encarnar o personagem?

São anos de treinamento. Aprendemos a controlar as nossas energias, emoções. No teatro, por exemplo, você planeja e se prepara- durante o dia inteiro- para o momento que as cortinas se abrem. Mesmo que isso seja feito de maneira inconsciente. Quando eu estava em cartaz com uma peça na Broadway e viaja para Espanha aos finais de semana, acordava no meio da madrugada. Exatamente na hora da peça em NY. Porque meu corpo estava condicionado para essa atividade.

Como escolhe seus papeis?

Não existe uma regra. Ás vezes escolho pelo diretor, ou algum ator que eu quero trabalhar. Mas na maioria das vezes escolho pelo roteiro.

Com quem ainda gostaria e pretende trabalhar?

Um ator que eu adoraria trabalhar junto é Robert De Niro. Na categoria diretores, com Oliver Stone e David Lynch.

Você já dirigiu dois filmes. Como foi essa experiência?

Quando você está do outro lado aprende muito sobre atuação (risos). Como ator, preciso de um olhar externo para me orientar. Que tenha objetividade. Porque nós perdemos isso. Você tem que sempre ter um pouco de si mesmo olhando de fora para te chamar a atenção.

A pergunta clássica, como encara o título de "Latin Lover"?

Posso responder em espanhol? Na verdade, não dou um "cara..." para isso.

MARILIA NEUSTEIN E SR

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