Direto da Fonte

''Entendo quem não gosta do que eu faço''

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2011 | 00h00

Rafinha Bastos fala sobre processos e o que é que lhe tira do sério

Os que o admiram dizem que seu humor é o mais ácido e cético (sim, é um elogio) da equipe que compõe o CQC, programa que hoje é salomonicamente amado e odiado pela audiência. Os que o defenestram armam-se de adjetivos que não fica bem revelar aqui. Fundamentalmente, ser Rafinha Bastos é ser ímã de controvérsias.

Gaúcho, de ascendência judaica, ele é o mais mais da bancada: mais alto (dois metros), mais tatuado, mais barbudo, mais "boca suja" e, sim, mais influente do Twitter, de acordo com pesquisa recente realizada pelo New York Times. O moço pouco se altera quando reclamam de palavrões a mais na TV ou da sua última defesa do colega Danilo Gentili, autor de frase polêmica envolvendo judeus e Higienópolis. À coluna, dia 14 de maio, disse sobre o episódio: "Quem se chateou foi a patrulha do politicamente correto... Judeu que é judeu não fica ofendido com piada... Nós temos o dinheiro". Dias depois, procurado, silenciou.

Ele brincou, falou sério? Rafinha é daqueles que perde o amigo, jamais a piada. Confira a entrevista que ele concedeu por e-mail.

O politicamente correto tornou o mundo sem graça?

Sem graça eu não digo, mas sem dúvida tem tornado o trabalho dos comediantes um pouco mais difícil.

Seu tipo de humor tem incomodado muita gente?

Tenho alguns processos em andamento (que provavelmente não vão dar em nada). Entendo quem não gosta do que faço, e respeito quem não compreende a diferença entre uma piada e uma opinião. Apenas me preocupo com meu direito de falar. E também com a minha liberdade de brincar com o que eu quiser.

O que lhe tira do sério?

Trânsito, TPM, motoboy, coceira, latido de cachorro, acordar cedo, choro de nenê, cueca apertada, gente de peruca, cheiro de fritura, reggae, 3G instável, Galvão Bueno, calor, choque elétrico, axé music e mulher de bigode.

E do que você acha graça?

Eu nunca serei mais engraçado do que o peido. Ninguém será. Nunca.

Por que usar palavrão?

Não acho que acrescenta, mas faz parte da comunicação humana. Nunca achei palavrão engraçado, mas nunca quis evitá-lo. Todo mundo fala palavrão e se digo na vida, digo no palco. Tudo o que rouba a naturalidade de um discurso, diminui sua eficiência.

Ser o homem mais influente do mundo no Twitter fez de você um homem diferente?

Não sou diferente. SOU SENSACIONAL... apenas isso. O trabalho que faço na web me orgulha muito. Tenho seguidores muito antes de existir o Twitter e até mesmo o YouTube. Sinto que este link honesto com o meu público é o que me levou a ganhar o tal título de mais influente do mundo no Twitter pelo NY Times.

As pessoas o abordam na rua? Pedem piada? Você dá ou vende?

Judeu não dá nada. As pessoas me abordam na rua, mas em 99% das vezes o contato é muito legal. É gente que gosta e admira o que eu faço. Poucas foram as vezes que alguém abusou ou ficou ofendida por eu não ter disponibilidade para um bate-papo. Sou honesto. Se tenho tempo para conversar, faço. Se estou com pressa, deixo isso claro. O assédio em momentos inoportunos é um preço que eu sabia que pagaria quando aceitei trabalhar na TV. Tenho que levar com naturalidade.

Acredita que é necessário mesmo liberar a publicidade no Twitter? Como regularizar isso?

Olha... eu já estou fazendo publicidade no Twitter. Acho que a rede vai acabar adotando a publicidade como uma forma justa de pagar as contas. Eles devem estar pesquisando o formato e vão fazer isso da melhor maneira possível. Faço isso de forma honesta e sempre deixo claro que estou anunciando um produto. O público entende e costuma não ver problema.

Você se acha engraçado ou é mal humorado como a maioria dos comediantes?

Ah... isso vai muito da percepção que os outros têm a meu respeito. Eu não acho nada. Faço o que me diverte e, pelo jeito, tem gente que tem se divertido comigo. Enquanto isso acontecer, a carreira se mantém.

Você se inspira em alguém? Há algum ícone?

Olha... não tenho um comediante que sinto me inspirar, mas minha primeira risada verdadeira foi com Zacarias e Mussum. Na adolescência, lia muito o Planeta Diário. O dono da banca sabia e sempre guardava o meu assim que chegava do Rio de Janeiro. Meus ídolos mesmo hoje são meu pai, meu zelador (seu Edmílson), meu amigo Chico e meu cachorro Walmor.

Por que o stand-up comedy, gênero que nasceu no século 19, provoca fila hoje no Brasil?

É uma forma de comédia atual, rápida, criativa e autêntica, e isso é novo por aqui. Estamos muito acostumados à comédia de personagens, de imitação, de paródias. A stand-up é nova. Quando comecei, eram quatro ou cinco na plateia. Hoje chego a fazer shows para mais de 3 mil pessoas. É genial. A cena está muito boa. Tem gente muito talentosa vindo por aí. Ah, e nos Estados Unidos os grandes comediantes ainda provocam filas nos teatros.

Por que a maioria dos humoristas é homem? A mulher não tem humor? Por quê?

Por uma simples falta de disposição das mulheres, mas hoje temos ótimas comediantes: Marcela Leal, Dani Calabresa e Tata Werneck são apenas alguns nomes. A mulher ainda não está acostumada a ter pessoas rindo de sua cara. Mulheres costumam se levar mais a sério, mas isso está mudando.

Comediante é mais inteligente que ator dramático? Por quê?

Admiro o trabalho do ator e sei que não é fácil interpretar um personagem, mas sinto que o profissional que cria as histórias é o grande gênio. Viver uma vida que não é sua, nunca será tão trabalhoso quanto desenvolver um raciocínio e fazer dele uma história.

Acha que a fórmula está próxima do esgotamento?

De maneira nenhuma, o movimento está apenas começando. Por mais arrogante que possa parecer, acho que a stand-up comedy veio para dar uma mudada na cara da comédia. Sou feliz de fazer parte deste movimento.

O que faz quando não trabalha?

Quando tenho uma folga, viajo pelo mundo buscando novas peças para a minha coleção de bitucas de cigarro.

Conta uma piada, vai.

Paga aí, vai.

JOÃO LUIZ VIEIRA

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