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''Emancipação feminina não é presente de deus''

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2011 | 00h00

Azar Nafisi fala sobre a luta pela conquista dos direitos civis das mulheres

O poder de escolha das mulheres está entre os temas fundamentais que rondam os livros de Azar Nafisi. Por essa razão, a escritora iraniana não hesitou em conversar por telefone com a coluna sobre a proibição da burca na França, governo Dilma e o caso Sakineh, entre outros assuntos. Radicada nos EUA, a autora ficou conhecida por seu livro Lendo Lolita em Teerã, um relato do grupo de leitura que, sob seu comando, lia clássicos ocidentais como Lolita, antes de deixar o Irã, no fim da década de 90.

Não é difícil para Azar fazer uma analogia entre o romance de Vladimir Nabokov e o governo de seu país natal: "O regime islâmico iraniano tira das mulheres seu senso de individualidade, impedindo-as de serem quem quiserem", pontua. Dispensando generalizações - principalmente quando se trata da religião muçulmana - ela é cautelosa ao falar sobre o significado do véu para a mulher islâmica. E chama a atenção para a complexidade social que isso implica: "Muitas usam porque têm medo de suas famílias. Elas precisam de apoio para discutir essas questões". E vai além: "A mulher tem que poder acreditar, ou não, em Deus. E, se acreditar, deve escolher a maneira mais correta para se relacionar com Ele. Nenhum Estado, pai ou marido tem o direito de ditar como deve-se fazer isso".

Otimista, a escritora não duvida que os levantes nos países árabes possam alcançar o Irã de maneira substancial. Acredita também que ainda verá uma mulher governando a nação persa.

A seguir, trechos da entrevista.

Por que a senhora comparou o romance de Nabokov, Lolita, com o regime islâmico iraniano?

Lolita é essencialmente sobre um lugar de poder. A personagem tem 12 anos, perdeu os pais, e não tem para onde ir a não ser para os braços de Humbert Humbert, esse homem maduro e sofisticado. Ele, no entanto, não permite que ela cresça por si só. Não sabemos como ela seria se ele não tivesse a violentado. E sinto que, no Irã, o regime islâmico tira das mulheres o senso de individualidade, impedindo-as de serem como querem. O governo dita como devem se vestir, andar, falar. Funciona da mesma maneira que Humbert levou de Lolita seu senso de integridade como ser humano. Eu e minhas estudantes sentimos isso ao comparar com as nossas vivências.

A Sra. criou no Irã um grupo feminino de leitura. O que foi mais revelador nessa experiência?

A literatura é uma forma de redenção porque é baseada na imaginação. A realidade é feita de limitações. Não podemos escolher onde nascemos, o nome que temos. Já a literatura nos leva a novos lugares. Não é somente sobre o que a vida é agora, mas o que ela pode ser.

O uso da burca foi proibido na França recentemente, causando polêmica entre as muçulmanas. Como vê essa lei?

O problema é complexo. Só a lei não basta. Muitas mulheres usam a burca porque sentem medo de suas famílias. Acreditam que, se agirem de outra forma, não terão apoio emocional e financeiro. É necessário, portanto, criar lugares e instituições que deem apoio a elas, de modo que se sintam seguras para conversar sobre suas questões. Isso é o primeiro passo. O problema do véu se tornou tão político que ninguém realmente conversa sobre sua essência.

E qual é essa essência?

A verdade é que o uso do véu e suas variações deveriam ser um direito de escolha da mulher. Ela tem de poder acreditar, ou não, em Deus. E ,se acredita, deve escolher a maneira mais correta para se relacionar com Ele. Nenhum Estado, pai ou marido tem o direito de ditar como deve-se fazer isso.

E pessoalmente, o que pensa do uso da burca?

Minha opinião pessoal é que a burca pertence a um tipo diferente de sociedade. É resquício de um tempo no qual a tradição dizia que mulheres não deveriam aparecer em público. Ora, hoje vivemos em sociedades diferentes. Conheço muitas mulheres, inclusive da minha família, que são devotas do islamismo e não usam sequer o véu.

Não existe no Corão nada que mencione o uso obrigatório da burca, não é?

O Corão, como a Bíblia, tem diferentes interpretações. Dizer que de acordo com o Corão todas as mulheres deveriam agir de determinada forma é um insulto à religião islâmica. Eu digo para meus amigos americanos que Sarah Palin e Michelle Obama dizem que são cristãs. Quem dirá qual é a "mais cristã"? Acredito que essa discussão deve ser transformada em algo lógico e não em um confronto emocional. E, infelizmente, é muito difícil fazer isso nessa atmosfera.

Acredita que o islamismo pode passar por uma reforma?

Claro. O que anda sendo relacionado com o Islã, por meio de governos como o iraniano, o saudita e grupos extremistas, não é o islamismo. Atualmente, no Irã, ocorrem muitos debates interessantes sobre a modernização da religião. Abrangendo novas interpretações, envolvendo até clérigos e professores.

A Sra. mora nos EUA há 11 anos. Sente algum preconceito?

Quando vim para os EUA, todas as vezes em que eu contava sobre as leis agressivas contra as mulheres no Irã, as pessoas me diziam que eu não era muçulmana, nem iraniana e, sim, "ocidentalizada". Considero isso um insulto, afirmar que mulheres iranianas não querem ter poder de escolha. Se olharmos para as democracias ocidentais, não faz tanto tempo que as mulheres conquistaram seu poder de voto.

Acredita, portanto, que há uma tendência a favor das conquistas femininas no Irã?

Minha mãe foi uma das seis mulheres a irem ao parlamento iraniano em 1963. Onze anos antes disso acontecer na Suíça. A emancipação feminina não é um presente de Deus, é uma luta. Mulheres cristãs e ocidentais não nasceram com direitos civis. Foram conquistados. Fico triste porque foi necessário o caso da menina Neda Salehi Agha-Soltan (morta em 2009, por milicianos durante os protestos eleitorais no Irã) para a comunidade internacional prestar atenção que jovens garotas iranianas são simplesmente iguais às de qualquer parte do mundo.

Dilma Rousseff classificou como "uma coisa muito bárbara" a execução de Sakineh por apedrejamento. Qual é a importância de um apoio brasileiro para sua absolvição?

Essa declaração foi fantástica. Sua presidente foi muito corajosa. Entendeu a essência da questão. Sakineh não é uma mulher moderna e secular. Pelo contrário, é uma muçulmana tradicional. E existe uma lei no Irã que está contra ela. Isso mostra como o senhor Ahmadinejad se coloca contra essas mulheres. Acho que, ao mostrar solidariedade à Sakineh, Dilma Rousseff deixou transparecer seus traços humanistas. E serve de exemplo para outros países. Porque não seguiu apenas conceitos de coerência política, mas bancou ser uma agente de mudanças.

Acredita que as manifestações nos países árabes podem chegar a atingir o Irã a ponto de modificar os governantes?

Sim. Quando em 2009 manifestantes ocuparam as ruas do Irã, amigos egípcios me diziam que o que estava acontecendo afetaria o Egito. Da mesma maneira, o que aconteceu lá e na Tunísia, afeta o Irã. Conquistar uma vitória sob um regime que parecia tão invencível, como o de Mubarak, por exemplo, gera esperança nos iranianos.

Especialistas afirmam que partidos islâmicos podem ganhar força nesse momento. O que pensa sobre isso?

Esta é uma situação perigosa. A experiência iraniana me ensinou que a época mais vulnerável é a da transição. É o momento em que é mais fácil para forças extremistas tomarem o poder da democracia. Eu espero que eles aprendam com isso. Tenho certeza que veremos boas mudanças por aí.

Como avalia a posição de Ahmadinejad nesse contexto?

Há divisões dentro do próprio governo. Ahmadinejad se tornou símbolo de muitas ações violentas no país. Isso gera insatisfação. Há iranianos que, mesmo vítimas de muita propaganda, não escutam o regime. É aí que mora minha esperança. Quem sabe, um dia, sua presidente não irá se reunir com uma mulher presidente do Irã? / MARILIA NEUSTEIN

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