Direto da Fonte

Hillary contra o preconceito

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2011 | 00h00

Uma das posses menos convencionais da história do Brasil aguçou a curiosidade dos convidados de Dilma Rousseff, durante coquetel oferecido a chefes de Estado no Palácio do Itamaraty, no começo da noite do dia 1º. Uma mulher divorciada, que desfilou com a filha durante a posse, e Michel Temer, vice, com sua mulher 42 anos mais jovem, poderiam engrossar o coro na luta contra preconceitos em geral? Hillary Clinton acredita que sim. Secretária de Estado americana falou à coluna.

"Queremos que o Brasil nos ajude a evitar barbaridades em relação aos preconceitos que acontecem no Oriente Médio, por exemplo. Na Uganda tem um projeto de lei que pode levar o homossexualismo à pena de morte", comentou ela segurando uma bandeirinha arco-íris, recebida por Toni Reis, da ABGLT. Ao saber que durante a campanha presidencial chegou-se a questionar a sexualidade de Dilma, Hillary foi enfática. "É o mais baixo nível que se pode chegar em uma campanha. Não importa a sexualidade da presidente, o País precisa que ela faça um bom governo." E o que Hillary pensa sobre uma mulher na presidência? Às gargalhadas, responde: "Essa ideia realmente me agrada muito. Fico feliz não só pelo país de vocês, mas pela mensagem que passa ao resto do mundo. O Brasil é um dos maiores países a ter uma mulher no comando."

Com uma taça de champanhe na mão, Ellen Gracie, ministra do STF, reconheceu que muita gente avalia as mulheres escaladas pelo governo como "bonitas ou feias". "Acho que isso é responsabilidade de muita mulher que se vende como produto em propagandas, que cultivam essa imagem de mulher objeto na mídia. Mulher no governo não precisa ser bonita ou magra. Tem que ser competente."

Carlos Lupi reconhece que, na sociedade atual brasileira, ainda há muito o que avançar no quesito sexismo. Citou como exemplo a vice-primeira-dama. "Não acho que haverá preconceito pelo fato dela ser mais nova que Michel Temer. Mas se fosse uma mulher de 70 anos com um garoto de vinte e poucos, minha filha, o mundo ia acabar."

De papo com Ayres Britto, Paulo Maluf declarou-se como grande tolerante: "Posso ser considerado o prefeito que mais lutou contra o preconceito. Apoiei um candidato carioca e negro", e emendou: "Mas, claro, em outros assuntos eu tenho lá minhas preferências", diz piscando para o ministro do STF.

Depois de um dia intenso, a anfitriã Dilma falou pouco com seus convidados. Distribuiu beijos, abraços e logo foi embora. De tantos cumprimentos, os ombros de seu casaco pérola já exibiam tom amarronzado. Assim que se foi, os figurões da política começaram a esvaziar o salão. Às 23h30, sobraram só os mais jovens e alegres: moços com gravata na testa, fumando charuto e moças descalças sobre os tapetes persas do Itamaraty. /DÉBORA BERGAMASCO

Nas alturas

Por essa Lula não esperava. O voo, que trouxe o ex-presidente de volta para São Paulo, foi escoltado por dois caças Mirage. Uma homenagem da FAB.

Lula deve ir ainda esta semana para o Guarujá. De férias.

Antes e depois

Antes de entrar no tailleur pérola, Dilma acordou cedo e circulou pela Granja do Torto de camiseta, calça de moletom e Croc. Às 11h30, Celso Kamura lavou, escovou e moldou o cabelo da presidente com cera.

Mesmo assim, Kamura passou por momentos de tensão durante o desfile em carro aberto.

Com Mickey

Ausência sentida em Brasília: Ricardo Kotscho. Estava na Disney com os netos.

Efeito réveillon

Na posse de Alckmin no Palácio, Eloisa Arruda, secretária de Justiça, comandou distribuição de dropes entre os secretários. Andrea Calabi e Julio Semeghini aceitaram prontamente.

De improviso

Alckmin introduziu na hora no seu discurso de posse a frase

"Vamos deixar a modéstia de lado e falar a verdade: foi FHC quem mudou o País". O auditório dos Bandeirantes veio abaixo.

Empurrãozinho

E foi FHC quem incentivou Serra a se levantar no momento em que Alckmin o homenageou. Muito aplaudido e visivelmente emocionado, Serra atendeu aos pedidos de fotos e ficou até o fim da cerimônia.

" Tenho bem claro meu papel "

Marcela Araújo, casada há sete anos com Michel Temer, encantou o Brasil com sua beleza e se tornou um dos assuntos mais comentados na internet durante a posse. Aos 27 anos, ela não faz o tipo que renega o passado de quem participou de concursos de miss, mas esclarece que isso ficou na adolescência. Inspirada por Temer, ela formou-se na Fadisp - Faculdade Autônoma de Direito - e ainda só não prestou OAB porque junto com o diploma veio também seu primeiro filho, Michelzinho. O garoto, aliás, ficou bravo com a mãe, que o deixou com a avó e a babá para sagrar-se vice-primeira dama do Brasil. Depois de dar mamadeira ao bebê em uma sala durante coquetel no Itamaraty, ela conversou com a coluna.

Como foi seu dia? Ficou muito nervosa?

Não, foi de muita emoção e orgulho de ser esposa do vice-presidente e fazer parte desse momento histórico que é termos uma mulher presidente.

Seu marido te inspirou a fazer Direito. Pretende realizar algo pelo País na área de gestão e projetos sociais?

Nunca sonhei ser primeira-dama, mas se eu tiver oportunidade de ajudar o País, com certeza eu vou entrar em algum projeto. Eu já auxílio pessoas, faço doações mas isso não é público, é pessoal. Farei algo oficial se houver espaço e demanda. Tenho bem claro meu papel: sou a esposa do vice.

Como é sua relação com Temer? A idade é uma questão?

No nosso caso não tem idade. É como se o Michel tivesse 30 anos. É engraçado falar, mas é verdade. Ele tem o passado dele, mas a nossa vida é normal como a de qualquer casal que se ama muito. E depois de quase sete anos casados, planejamos a vinda do Michelzinho, o que só nos uniu ainda mais.

Como é a relação com Dilma?

Estivemos juntas poucas vezes, mas foram maravilhosas. Na posse pude ficar mais com ela. É uma pessoa fantástica, simpática e bonita. Eu a admiro muito.

E quem cuida do seu estilo?

Sou eu mesma que me visto, com ajuda da minha mãe. Não tenho personal stylist, nada de grife, nada de joias...

E esses brincos são bijuteria?

Tudo bijoux (risos). Esse brinco tem um cristalzinho, mas é bijuteria, olha aqui.

Quando vão para o Jaburu?

O Michel fica no apartamento em Brasília e eu, em SP. Virei para acompanhar a reforma, mas ainda não está nada certo.

Enquanto esteve na posse, quem cuidou do Michelzinho?

Minha mãe e a babá. Eu estava lá mas fiquei com dor no coração pensando nele. Quando eu cheguei ele estava muito bravo porque não o levei. Só depois de muito esforço ele fez as pazes comigo. D.B.

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