Direito de amar

Tilda Swinton faz mulher madura que se apaixona por jovem em Um Sonho de Amor

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2011 | 00h00

Jurada em Cannes, presidente do júri de Berlim, melhor atriz em Veneza por Edward II, de Derek Jarman, vencedora do Oscar de coadjuvante por Conduta de Risco, de Tony Gilroy. A escocesa Katherine Matilda Swinton, conhecida somente como Tilda Swinton, é uma das atrizes de maior prestígio do mundo. Ela começou no cinema pequeno, de autor, foi incorporada por Hollywood e comparece com desenvoltura nos blockbusters. Mas Tilda não perde a vocação intimista. Um Sonho de Amor é a prova.

Vale lembrar que, como presidente do júri da Berlinale, ela premiou a peruana Claudia Llosa por um filme rigorosamente autoral - La Teta Asustada. De volta à Itália, onde recebeu, no começo dos anos 1990, seu primeiro grande troféu internacional - pelo filme de Jarman -, Tilda estrelou o longa de Luca Guadagnino. O filme passou em Veneza, numa mostra paralela, em 2009. Um Sonho de Amor é sobre o fim de um mundo e o surgimento de outro. Possui belas qualidades, mas elas, se constituem sua força, podem ser consideradas fraquezas.

São vários filmes num só. Isso produz estranhamento e ele é certamente intencional, mas também faz com que o filme corra o risco de ser despachado como "irregular". É um erro. A chave é justamente a interpretação de Tilda, que passa com classe pelos vários filmes dentro do filme de Guadagnino. Sua personagem chama-se Emma Recchi. Pertence a uma família rica. O sogro é dono de um império - que o filho, Tancredi, herda quando ele morre, inesperadamente. Tancredi é casado com Emma. Os dois têm três filhos e é por meio de um deles, o mais velho, que entra em cena o cozinheiro que se tornará amante da mãe.

Não é simples coincidência que Emma seja casada com Tancredi (Pippo Delbono, famoso, na Itália, como ator de teatro). O nome evoca imediatamente o personagem de Alain Delon em O Leopardo, obra-prima de Luchino Visconti, de 1963. Era Tancredi quem dizia ao príncipe Salinas, Burt Lancaster, num momento decisivo da história italiana - o Risorgimento, no século 19 -, que as coisas tinham de mudar, para que tudo permanecesse na mesma. O tema do clássico de Visconti - um dos temas, pelo menos - era a luta de classes, que parece ter desaparecido no mundo global (sem a contrapartida da extinção das desigualdades sociais). A luta de classes reaparece em Um Sonho de Amor.

O primeiro filme, dentro do filme, é viscontiano - quando o diretor filma a família e vê o mundo do ângulo da elite. A entrada do "plebeu" cria uma vertente pasoliniana. O segundo filme evoca Teorema, de Pier-Paolo Pasolini, até com a utilização de técnicas, como a lente zoom, caras ao polemista número 1 da Itália nos anos 1960 e 70. Um terceiro filme passa-se, em parte, em Londres. Evoca o mundo dos negócios, mas o que ressalta é a elegância dos personagens. Um crítico chegou a sugerir que Um Sonho de Amor também evoca O Direito de Amar, de Tom Ford. Tilda, a coroa, é outra que reivindica seu direito de amar. Um mundo inteiro vai ruir. Tilda é uma atriz classuda, fina - e fria. É perturbador vê-la ceder à intensidade do desejo.

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