Diplomacia sonora do Mali

Duo Amadou & Mariam é uma das atrações do festival que começa hoje em Londres e tem ainda Gil, Emicida e Criolo

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2012 | 03h13

Não existem fronteiras na África de Amadou & Mariam. Desde que se tornaram estrelas internacionais, nos últimos dez anos, o talentoso casal de cegos do Mali transita por estilos e colaborações variadas, fazendo do blues e da hipnótica polirritmia do Oeste africano moedas de troca em vibrantes diálogos musicais. Em parcerias com Manu Chao, David Gilmour ou Damon Albarn, Amadou & Mariam operam uma verdadeira diplomacia sonora, em que pop, funk, indie e música cubana conversam com a tradição do Mali, e exemplificam a essência abrangente da world music.

"A música do meu país e de todo o Oeste africano é inseparável do blues e do rock. Está tudo lá, em sua raiz, há muito tempo. Por isso, é uma música maleável, que se mistura facilmente com a música atual. É uma coisa que acontece naturalmente", conta Amadou, por telefone, de Paris. A dupla é um dos destaques da edição britânica do festival brasileiro Back2Black, que ocorre, a partir de hoje, em Londres e reúne nomes brasileiros (Gil, Jorge Ben Jor, Criolo, Emicida) e mundiais da música negra (Femi Kuti, Mulatu Astatke, Macy Gray). A escalação de Amadou & Mariam não poderia ser mais pertinente em um festival que tem diálogos culturais como base de sua curadoria.

No ótimo novo disco, Folila, lançado este ano e disponível para download pelo iTunes, o casal (Mariam canta, Amadou canta e toca guitarra) colabora com nomes variados, como sempre. Há o pop star francês Bertrand Cantat e os bluesmen do indie rock, Tunde Adebimpe e Kyp Malone, integrantes do TV On The Radio. Há também Nick Zinner, dos Yeah Yeah Yeahs, Jake Shears, dos Scissor Sisters, e o inglês Ebony Bones. Mas a forma com que o disco foi feito é o grande destaque. Folila (música em bambara, dialeto do Mali) foi gravado em três tempos. Primeiro, em NY, com os parceiros internacionais (a cantora Santigold também participa). Segundo, no Mali, onde músicos de comunidades populares, de musicalidade tradicional, deram o sotaque malinês às bases do disco.

A dupla então levou o disco a Paris, onde o montou com as gravações feitas de ambos os lados do Atlântico. "Os músicos do Mali gostam de parcerias, mas acho que nós conseguimos ampliar essa ideia. Sempre chamamos muitos artistas para colaborar em nossos álbuns. Desta vez, tivemos mais cantores e gravamos de forma diferente", conta Amadou.

No disco, a ponte Bamako- Brooklyn dá bons resultados em faixas como Dougou Badia, em que uma guitarra essencialmente indie compõe acordes simples e constantes sobre a percussão malinesa. Mariam entoa uma melodia tradicional, e Santigold a acompanha, revelando uma face mais rock and roll de algo que é, essencialmente, um cântico. O resultado é literal: uma world music que "cola" os modernos em cima da tradição, em vez de juntá-los todos em um só estúdio.

"Sempre ouvimos música cubana no Mali", lembra Amadou, de 57 anos, referindo-se à onipresença da música caribenha tocada por orquestras de baile no Oeste africano nos anos 50, algo que foi influência de estilos como o high life. "Mas havia muito rock e música francesa também. Ouvi bastante Pink Floyd enquanto crescia", completa.

A formação de Amadou & Mariam é digna de um roteiro hollywoodiano. A carreira do guitarrista tem origens nos anos 60, quando, ainda moleque, tocou guitarra na famosa orquestra Ambassadeurs du Motel de Bamako, uma das que - assim como a Rail Band - entretinham boates e hotéis de prestígio nas capitais africanas, e gravaram mesclas de música cubana e tradicional. Os dois se conheceram em um instituto para cegos em Bamako, capital do Mali. Casaram e começaram a gravar no início dos anos 80. Uma década depois, a dupla passou a chamar a atenção do público europeu, mas foi só nos anos 2000, quando o single Je Pense à Toi se tornou hit nas rádios francesas, que os dois se aproximaram do estrelato dos dias de hoje.

"Uma das coisas mais difíceis é aceitar as dificuldades e ainda assim lutar para superá-las. Temos que tentar mudar as coisas", reflete Amadou, quando a reportagem pergunta sobre as reviravoltas de sua vida. Considerando que o músico superou sua deficiência para tornar-se um embaixador cultural, metade de uma banda africana que, nas palavras de Damon Albarn, "tem sucesso sem precedentes", foram muitos.

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