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Ignácio de Loyola Brandão
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Diploma universitário, sonho de político

Quanto vai demorar? Se vierem me prender, o que faço? Vou para uma cadeia comum, superlotada?

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2017 | 02h00

O chefe de gabinete entrou: “Reitor, o deputado Bento está aí.”

“Ué, ele não agendou nada! Mande entrar, é um grande benfeitor. O que será? Uma visita?”

Bento entra, um grande abraço entre os dois mostra a ligação, ainda mais que é daqueles abraços em que um fica passando as mãos nas costas do outro por longo tempo como se fossem desamassar os ternos.

“Bento, que prazer. O que posso fazer por você?”

“Muito, e ninguém pode saber.”

“Sou um túmulo.”

“Sei, mas muito túmulo tem sido aberto nessas operações de Curitiba. O que vou pedir, não pode sair daqui.”

“Juro pela alma de minha mãe.”

O reitor, que era amigo, mas lúcido, também cobra criada nos meandros acadêmicos e políticos, ou não teria sobrevivido, pensou. Cruzou os dedos com as mãos nas costas: “Que Deus tenha piedade daquela pobre alma, cheia de fé”.

“Diga deputado, o que posso fazer.”

“Preciso de um diploma universitário.”

“Quer fazer um curso?”

“Que curso, que nada! Sabe que nem terminei o primário. Vou fazer curso nesta idade? 62 anos? Quero sair daqui com um diploma!”

“Bento, o que me você me pede? Não é assim. Há cursos mais rápidos, por correspondência, a distância, há muitas maneiras, mas você vai precisar estudar, passar por provas, há caminhos burocráticos.”

O deputado sentou-se e bufou, seus olhos disparavam chispas (como se diz nos folhetins baratos) de raiva. Bateu a mão na mesa, imperioso.

“Você já esqueceu todos os favores que fiz a esta cidade? Aos políticos daqui? Pois vai me arranjar um diploma. Não sei como, mas vai! É urgente, a coisa está ficando feia, está chegando perto. Chame aí seu secretário, seu jurídico. Você tem um jurídico, não tem? Ou saio com diploma, ou a mamata acabou. A cidade não verá um tostão de verba nem para um milho cozido.”

Ele sempre usava essa imagem do milho cozido, porque assim tinha iniciado a carreira que o levara a presidente de comunidade, vereador, deputado estadual, federal, com três mandatos consecutivos.

O reitor procurou contemporizar: “Bento, seja razoável, não digo que você vai sair daqui com um diploma. Mas nos dê um tempo para montar um esquema”.

“Meu amigo, a água está chegando na minha bunda. Você não lê jornais? O Supremo vem vindo, vindo, apesar dos esforços contrários. Mas há delação de todo lado, investigações. Fizemos várias reuniões em Brasília, cada um de nós está em sua região, para se matricular, conseguir um diploma, registrar logo. Daqui um mês, não haverá parlamentar sem diploma, posso garantir. Repito, nenhum deputado chegará ao final do mês sem um curso universitário, um doutorado. Vamos, monta aí uma prova, faço, vocês me aprovam, vou embora.”

“Vamos admitir que consiga - ainda não sei como - o diploma. Mas precisa ir para o Ministério da Educação, ser homologado...”

“Por favor, não diga essa palavra, vade retro satanás. Homologado? Me dá arrepios.”

“De qualquer forma, precisa me dar uns dias. Vou me reunir com outros reitores, são centenas de universidades federais, estaduais, particulares, com doutorado, sem doutorado, com mestrado, sem mestrado, católicas, protestantes, espíritas, evangélicas, universal de deus, ateias, há de tudo. Vamos fazer uma conference call com todo o Brasil. Tem um problema! E os deputados e senadores analfabetos? Sabemos que são uma boa parcela. Teremos de chegar a um consenso.”

“Quanto vai demorar? Sei que meu nome vai estourar. Se vierem me prender, o que faço? Vou para uma cadeia comum, superlotada? Nem pensar! Até aquele ricão, o Eike, foi, está com seis na cela. Tiraram até a peruca dele. Esse é meu pavor. Dividir a cela, usar a mesma privada, lavar minha roupa, comer aquela gororoba. Olha reitor, pede quanto quiser, não importa, o problema não é dinheiro.”

“Talvez o problema possa ser a honestidade. Pensou?”

“Será que ela ainda existe?”

“Será que não? Fosse você, eu não pagaria para ver.”

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