Diogo Vilela vira Cauby Peixoto nos palcos do Rio

O ator Diogo Vilela prepara-se há três anos para estrelar Cauby, Cauby, musical que estréia nesta quinta-feira no Teatro Sesc Ginástico, no Rio, com texto de Flávio Marinho e direção musical de Liliane Secco. Valeu a pena, pois quem assistiu aos ensaios ou apenas viu sua foto caracterizado na publicidade, que está espalhada pela cidade, confunde intérprete com personagem. O próprio Marinho, que divide também a direção com Diogo, reconhece a semelhança. "Ele fala igual ao Cauby Peixoto, canta no mesmo tom e ficou fisicamente parecido", elogia. E Flávio conhece bem o cantor. "Eu o dirigi no show Canta Brasil, com a Ângela Maria, e posso te dizer que, fora do palco, é o contrário de sua imagem. Fala baixo e é discreto. Mas continua extremamente educado e elegante."Esse cavalheirismo seduziu Diogo Vilela, que decidiu viver Cauby Peixoto no palco ao ler uma entrevista dele. "Quis homenagear esse comportamento que faz falta nos dias atuais. Hoje, as pessoas se elogiam muito, mas nem sempre se gostam", filosofa. Além de cantor popular, Cauby tem facetas pouco conhecidas, exploradas no musical, prato cheio para um ator experiente como Diogo Vilela. "Eu o comparo ao Pierrot, não o do carnaval, mas o personagem romântico. As pessoas falam mesmo que estou muito parecido no palco, mas não tentei ser ele, usei sua figura teatral para criar a personagem."Cauby Peixoto atravessou gerações como ídolo. Ele nasceu em Niterói, numa família de músicos, e começou carreira no fim do período de ouro do rádio. Nos anos 50, foi para São Paulo ser cantor da noite e fez sucesso com a gravação do fox Blue Gardênia. No período pré-bossa nova, era ídolo dos programas de rádio, enquanto sua boate, o Drinks, tornou-se ponto de músicos que experimentavam novas sonoridades. Se os anos 70 lhe trouxeram certo ostracismo, logo ele se recuperaria, especialmente quando os meios de comunicação perderam o pudor de mostrar um lado menos cool da música, exacerbadamente brasileiro. Hoje Cauby se apresenta pouco, mas lota onde faz temporada, como aconteceu no Teatro Rival há poucos anos, durante temporada com a cantora Selma Reis.Viver um cantor no palco não é novidade para Diogo Vilela, que já foi Nelson Rodrigues em Metralha, em 1996, a ganhou os prêmios de interpretação daquele ano. Ele também dirigiu o musical Elis, tremendo sucesso que lotou salas durante meses. Mas, aqui, o trabalho foi mais demorado. "Nelson foi mais fácil porque era mais naturalista. A figura artística dele não era muito distante de sua identidade, como acontece com Cauby, que é muito mais teatral. Lá, eu explorava os tons graves da minha voz e, aqui, tive de aprender a usar os glissandos, o que é muito mais difícil ", explica. "A peça fica muito mais no imaginário que se criou em torno do cantor, não é realista nem na ordem em que conta a história."Flávio Marinho diz que fez uma comédia melancólica, para ficar no clima do homenageado. E lembra que toda biografia tem um segundo assunto que conduz à história em questão. No caso de Cauby, é a vida do artista brasileiro. Ele lembra os episódios principais e tentou incluir no roteiro o maior número de sucessos do cantor. "Tem Conceição, Bastidores e muitos outros, mas deve aparecer fã reclamando da falta de alguma música, pois não cabe tudo em duas horas de espetáculo", explica Marinho. A narrativa não é cronológica. A ação começa com uma entrevista nos dias de hoje, em que um jornalista desinformado conhece aos poucos o ídolo da canção. Os diversos músicos que passaram por sua vida vão aparecendo (Emilinha Borba, Dalva de Oliveira, Bing Crosby, Ângela Maria e Nara Leão, entre outros) em cenas que, no fim do espetáculo, formam um mosaico. "Aí o público vai entender quem é Cauby Peixoto."Para Diogo Vilela, o maior cantor do Brasil, que lhe custa horas de preparo e estudo para estar "ao menos próximo do que ele é capaz". Se já era fã antes de conhecer e estudar melhor a vida e a figura de Cauby, Diogo Vilela acha que a homenagem não pode ser simples e estrela uma superprodução, com dez atores no palco, uma banda tocando ao vivo e quase cem pessoas nos bastidores. "São mais de 120 figurinos, uma verdadeira Irma Vap para contar essa história", adianta o ator, que juntou um pool de empresas estatais com a Gol para cobrir as despesas e ter ingresso popular (R$ 25 a entrada inteira). "Isso significa que vou viajar com o espetáculo, mas ainda estou captando para fechar o orçamento, pois é uma enorme despesa manter 120 pessoas trabalhando. Depois do Rio, vamos para São Paulo, mas ainda depende da aceitação do texto aqui." Quem viu os ensaios garante que vai demorar para os paulistas verem a homenagem a Cauby.

Agencia Estado,

13 de julho de 2006 | 14h25

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