Dilla na cabeça

Documentários refletem sobre a arte do maior beatmaker de todos os tempos

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2011 | 03h08

O status de James Dewitt Yancey, ou J Dilla, como o maior produtor da história do hip hop torna-se mais sólido a cada ano. São cinco anos desde que morreu, vítima de lúpus, aos 32, deixando um legado de musicalidade ímpar, de suingue venenoso, que redefiniu as fronteiras do gênero afro americano. Homenagens e documentários, como Stussy, disponível no YouTube, não param de brotar. Jovens rappers readaptam seus beats instrumentais. Produtores de variados nichos o confirmam como principal fonte de inspiração.

Um excelente giro por seu impacto na música contemporânea está no ar até domingo, no site da rádio BBC (www.bbc.co.uk/programmes/ b016g2c2). Trata-se de um áudio documentário com participação de diversos colaboradores de Dilla, entre eles, Erykah Badu, Questlove e Common, que ilustram desde o processo criativo do produtor à sua personalidade reclusa. A evolução abrangente de seus beats é o foco principal e o documentário começa tocando fitas caseiras produzidas nos primórdios de sua carreira, no gueto de Detroit.

Na época, Dilla participava de um coletivo chamado Slum Village, com qual lançaria dois discos que tornaram-se clássicos cult do gênero (o grupo virá Brasil em dezembro pela primeira vez, uma boa oportunidade para ouvir os beats de Dilla em ação).

A inventividade de suas colagens sonoras é, desde o início de sua carreira, desconcertante. São simples; feitas de discos de soul recortados (como a maioria dos beats de hip hop até então) com uma MPC, o aparelho que tornou possível a arte de fazer beats. Mas mesmo espartanos, os elementos tecem um abrangente complô de texturas e ritmos, operando a velha mágica dos grandes gênios que conseguem mais com menos. Como explicou Questlove, o baterista do The Roots, em entrevista ao Estado, em maio, uma das características principais Dilla era sua obstinação pelos detalhes. "Ele me ensinou a ter paciência", disse. "Eu assistia ele compor um beat e ele ficava horas ouvindo o mesmo disco até encontrar o trecho certo. No disco America Eats Its Young, do Funkadelic, por exemplo, eu apostava que ele iria recortar algo de Loose Booty, que é mais suingada. Mas ele escolhia a faixa mais insossa do disco", lembra.

Dilla ficou famoso depois de chamar a atenção do coletivo A Tribe Called Quest e do rapper Q-Tip, para quem começou a produzir beats. Logo, tornou-se uma espécie de lenda underground, o produtor dos produtores, o cara para quem os grandes nomes ligavam quando queriam um beat mais refinado. Assim, conseguiu lançar o primeiro disco do Slum Village, época em que começou a rimar (uma das grandes lástimas de sua morte é que Dilla não teve tempo de mostrar o potencial de seu lirismo). Também juntou forças com Erykah Badu, Q-Tip, Questlove e D'Angelo para formar o coletivo Soulquarians, que deu origem a um punhado de discos que definiram o hip hop da virada do século. Entre eles está Voodoo, de D'Angelo e o segundo do Slum Village, Fantastic: Vol 2 - ambos obras primas da música negra americana.

Mas Dilla era uma espécie de ermitão. Dava-se bem com seus colaboradores mas tinha aversão aos holofotes: não quis receber um Grammy, e tampouco ir a uma festa de Prince, seu maior ídolo. A sensação que fica, ao ouvir os beats e ver os documentários é que Dilla morreu muito antes de seu auge. E mesmo assim mudou tudo.

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