Marcio Fernandes/AE
Marcio Fernandes/AE

Dilemas entre a mídia e a sociedade

Antologia do artista Antoni Muntadas explicita tema em instalações e vídeos

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

25 de fevereiro de 2011 | 06h18

"Gente de comunicação não entende gente de arte" - e vice-versa -, já diz, antes de qualquer coisa, o artista espanhol Antoni Muntadas enquanto participa da montagem da exposição que ele inaugura amanhã, às 11h30, no quarto andar da Estação Pinacoteca. Desde a década de 1970, o catalão, nascido em Barcelona, em 1942, mas que vive em Nova York - e atualmente é professor no MIT (Massachusetts Institute of Technology) -, lida com os dilemas da relação entre mídia e sociedade.

É um trabalho artístico conceitual, mas, ao mesmo tempo, antropológico e sociológico, que a cada época vai se recontextualizando por necessidade e por naturalidade de seus temas. A mídia está sempre "a favor e contra" a sociedade, afirma o artista, e esse é o dilema central que ele desbrava.

Na mostra Muntadas - Informação >>Espaço >>Controle, vê-se, agora, uma antologia de obras do catalão, realizadas desde a década de 1970. Com curadoria do colombiano José Roca, que este ano ainda é o curador-geral da 8.ª Bienal do Mercosul, a ser realizada em Porto Alegre a partir de setembro (e também faz a curadoria da mostra que Regina Silveira inaugura no próximo dia 15 na Fundação Iberê Camargo), é uma exposição de poucos trabalhos, mas referenciais da trajetória de Muntadas, dos mais destacados do cenário contemporâneo, e que tem uma relação com o Brasil desde 1975. Além de exibir várias vezes na Galeria Luisa Strina, já participou, também, das Bienais de São Paulo de 1981 e 1983, do Arte/Cidade de 2002.

A obra mais antiga de sua antologia na Estação Pinacoteca é Sobre Subjetividade (On Subjectivity), de 1978, que coloca o problema da interpretação de imagens tendo como base fotografias de edição especial da revista Life. Na época, Muntadas enviou um conjunto de imagens sem suas legendas originais para que pessoas diversas (entre eles, os brasileiros Regina Silveira e Walter Zanini) as legendassem com liberdade.

Vemos, agora, lado a lado, em instalação com vitrines e vídeos, as versões oficiais e as interpretadas e toda a correspondência entre o artista e seus colaboradores, como numa espécie de "museu de antropologia" em que "a foto está considerada quase como artefacto". "Hoje, por exemplo, poderia ter imagens da revolução do Egito também", diz ele.

Sendo assim, tanto em Sobre Subjectividade como em outra grande instalação, Estádio XIV (Stadium XIV), cuja primeira versão é de 1989 e que trata do estádio de futebol e as arenas como "contêiner para o espetáculo e para a manipulação", afirma o artista, as imagens usadas (fotografias e vídeos) podem ser recarregadas a partir do local de exibição e do momento - como uma "obra aberta" -, mas o que importa, na verdade, é o mote conceitual de cada trabalho. "Arte é percepção e informação", diz Muntadas. Video Is Television? (Vídeo É Televisão?), também de 1989, recebe, portanto, os visitantes na entrada da exposição com um bombardeio de imagens tiradas de filmes e da TV e som perturbador. ???É, dessa maneira, uma mensagem direta.

Acupuntura. Se a mídia é a base das obras de Muntadas, a palavra, destacada, tem a mesma carga das imagens nas obras do artista. Nos vídeos - parecendo, por exemplo, o Film Socialisme do cineasta Jean-Luc Godard -, a palavra salta, "toca fibra", diz o artista catalão. "Ela dá acupuntura à obra", continua. No trabalho inédito da mostra do artista, Alphaville e Outros, de 2011, as palavras estão por toda parte.

Instalação criada especialmente para a exposição e feita a partir de uma situação particular de São Paulo, "a ideia de liberdade controlada" nos condomínios de luxo, a obra ocupa sala inteira. É formada por painéis com reproduções de anúncios publicitários, bandeiras com palavras pinçadas dos comerciais de compra e venda de imóveis (beleza, sonho, sucesso, rastreamento, tecnologia, tradição, etc.), vídeo - edição com fragmentos do filme Alphaville, de Godard, e outras imagens - e um cubo monumental feito de grades de ferro e cercas, rodeado de um tapete que é um simulacro de grama. Mais uma vez a mensagem é direta: pela utopia da segurança nos condomínios, entre o público e o privado, vê-se o indivíduo preso no "paradoxo" de que as casas não têm cerca, mas que as grades estão no exterior, "como na Idade Média".

Completando, ainda, o tema do medo e controle, a mostra apresenta os filmes da série On Translation: Fear/Miedo (2005) e Miedo/Jauf (2007), feitos, nas fronteiras entre EUA e México e Espanha e Marrocos.

ANTONI MUNTADAS - Estação Pinacoteca. Largo General Osório, 66, 3335-4990, 3ª a dom., 10h/ 17h30. R$ 3/R$ 6. Grátis aos sábados

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