Dilemas do Masp

Museu inicia o ano com reformas e nova exposição, mas ainda é obrigado a administrar dívidas antigas

Camila Molina

02 Fevereiro 2010 | 04h29

O prédio deteriorado ao lado do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), na Avenida Paulista, 1.510, pivô, desde 2005, de entrave judicial e de problemas com os órgãos que defendem o patrimônio histórico, começou a ser reformado no início de janeiro para abrigar novas instalações da instituição. Vai ser o Masp Vivo, no qual cinco ou seis de seus andares funcionará a Escola do Masp, a parte administrativa do museu, além de compreender espaços expositivos. A reforma está orçada em R$ 15.425.758,61, valor ainda a ser aprovado pela Lei Rouanet. O Masp terá de correr para concretizá-la porque, pelo acordo conciliatório com a empresa Vivo de telefonia celular, publicado em novembro de 2009, seu compromisso é deixar o prédio pronto em até 27 meses, ou seja, em 2012. Se não fosse o acerto, o museu teria de devolver os R$ 13 milhões que a empresa patrocinou para a compra do edifício.

 

O Masp Vivo não será o mirante de 125 metros de altura em plena Avenida Paulista tal era o polêmico projeto inicial que culminaria em seu topo com uma torre com destaque para o nome da empresa de telefonia, mas terá 70 metros, que é o gabarito permitido para as construções da região. "A ideia da torre morreu com a Lei Cidade Limpa. Mudamos as contrapartidas do acordo, então, o edifício vai se chamar Masp Vivo. No térreo vai ter uma área expositiva para a empresa, com patrocínio deles e montagem e projeto curatorial nosso, e eles vão poder usar o espaço para eventos", diz o arquiteto Luiz Pereira Barreto, membro da diretoria do museu desde 1994. "Passei oito anos como diretor que cuidava da parte física do prédio; depois, fiquei três anos na diretoria financeira consertando buracos maiores", continua ele.

 

Barreto usa de ironia para se referir ao quadro de crises consecutivas financeiras e jurídicas pelo qual o museu volta e meia ficou caracterizado, pelo menos, há uma década. Nesse sentido, como não lembrar do emblemático episódio do corte de energia pela Eletropaulo, em 2006, por falta de pagamento da conta de luz, numa dívida avaliada em R$ 3,4 milhões? Sobre essa questão, o diretor do Masp afirma que o museu vai liquidar o problema este ano, pagando o que ainda deve à Eletropaulo em seis prestações de R$ 138 mil.

 

Para a Vivo, a justificativa do acordo pelo prédio da Avenida Paulista, que também compreenderá parcela a ser paga pela empresa quando da conclusão das obras, garantindo a manutenção do contrato de "naming right" até 2025, segundo seu diretor de relações institucionais, Marcelo Alonso, foi a de que o museu "é um patrimônio da cidade". Vale lembrar, o Masp, projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi, é patrimônio tombado pelos órgãos federal (Iphan), estadual (Condephaat) e municipal (Conpresp). Um dos entraves ainda nesse quesito é a utilização do vão livre do prédio pelo museu: os órgãos alegam que a instalação, desde 1997, da bilheteria do Masp e dos biombos no espaço descaracteriza o projeto tombado. "A bilheteria e os biombos são móveis e não vão ser retirados de lá. Por uma questão de segurança também estão ali. No fim do ano (2009) respondemos ao Condephaat, mas eles não deram resposta, são demorados", afirma Barreto. Enquanto isso, o vão livre, que deveria ser tal é seu nome, abriga não apenas esses aparelhos como, até dia 14, esculturas do artista pernambucano Abelardo da Hora.

 

O contrato de comodato do edifício pela Prefeitura, encerrado em outubro de 2009, ainda não foi renovado, segundo o museu. Outra questão com a prefeitura é a Galeria Prestes Maia, na Praça do Patriarca. Cedida ao Masp em 1996 e administrada pela instituição entre novembro de 2000 e dezembro de 2008, a galeria foi retomada em 2009 pela Prefeitura. Espaço deteriorado, não teve durante todo esse período uma utilização devida. O Masp alega ter investido R$ 3.223.900,00 em obras no local e pretende ter esse montante restituído. "A gente conversa (com a Prefeitura), ou se precisar, nós vamos à Justiça", diz Barreto. Segundo a assessoria de imprensa da Prefeitura, a Secretaria do Governo Municipal e a Secretaria Municipal de Cultura ainda estudam novo uso da Galeria Prestes Maia.

 

Este é ano de eleição da nova presidência do Masp, em outubro. Em 2008, João da Cruz Azevedo, ex-secretário-geral da instituição, foi eleito presidente do museu em substituição ao arquiteto Julio Neves, no cargo, em sucessivas eleições, desde 1994. Não havia outra chapa que concorria à presidência na ocasião e, sendo assim, ocorreu a continuidade de gestão. O Masp, em 2009, recebeu 679.106 visitantes, sendo um dos mais visitados do País.

 

NÚMEROS

15 milhões de reais é o orçamento da reforma do prédio Masp Vivo

804 mil reais é a dívida com a Eletropaulo

3,2milhões de reais é o valor que o Masp alega ter usado na Galeria Prestes Maia

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