Dilemas da hora

Numa das três cenas-chave do filme dinamarquês Em Um Mundo Melhor, de Susanne Bier, ganhador do Oscar de melhor estrangeiro, um menino recém-chegado a uma escola toma as dores de um colega que sofre "bullying", xingado de "cara de rato" por causa dos dentes e tendo o pneu da bicicleta diariamente furado pela turma de um garoto maior. Dá uma lição no valentão, num ataque armado e pelas costas, e com isso os dois ganham sossego para sempre. Em outra, dois meninos de não mais que cinco anos brigam na areia por causa de um balanço, quando o pai de um chega e os aparta. O pai do outro vem e diz para não encostar a mão em seu filho e lhe dá um tapa. O outro se irrita e se incomoda, mas mantém a calma e não reage. O filho maior, o "cara de rato", e seu amigo perguntam o porquê. Ele diz que não tem medo, mas que não fará o jogo do idiota, que se sente superior pela força física. Chega a ir à oficina mecânica reencontrar o sujeito, leva outros tapas e continua pregando a impassibilidade.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2011 | 00h00

Esse mesmo homem, um médico de origem sueca, vive a terceira cena. Está na África e, entre outros casos sérios, atende a moças grávidas que foram atacadas cruelmente. Um dia o chefe dos agressores, chamado de Machão, aparece com a perna fraturada, exigindo ser atendido. O médico atende, mas seus pacientes e assistentes não compreendem que faça isso, que salve a vida de uma pessoa tão hedionda. Machão tenta justificar a violência ("Todo mundo aqui já matou") e cooptar o doutor, mas, contrariado, diz barbaridades que fazem o sueco perder a paciência e derrubá-lo, deixando-o vulnerável à vingança. Na mesma noite, tenta conversar por Skype com o filho na Dinamarca. O garoto está prestes a confessar algo que os conselhos do pai poderão evitar, mas o estresse do dia e a comunicação ruim levam o médico a não lhe dar ouvidos. No dia seguinte, o filho e o amigo vão armar uma tragédia.

O contraste não poderia ser mais óbvio, ou esquemático. Susanne Bier quis mostrar que na Escandinávia ou na África a pulsão agressiva é a mesma. Não por ser uma inclinação biológica, mas pelos hiatos sociais. No caso da Dinamarca, há a relação com os pais: um menino acaba de perder a mãe, acusa o pai e este se intimida e não consegue se fazer entender pelo filho; o outro menino é filho de um casal em separação, aparentemente porque o pai teve um caso extraconjugal. Também os professores e os assistentes sociais preferem ignorar a tensão da situação, por mais que a mãe proteste contra o "bullying". Há também discriminações culturais, como quando o mecânico dinamarquês diz que não entende o sotaque do médico sueco. O filme, assim, mostra uma Dinamarca que pode parecer um paraíso (segundo o título original) de beleza e riqueza, mas cheio de miasmas destrutivos, de violência dissimulada.

Não vou, claro, contar o desfecho do filme, que é facilmente previsível desde a primeira vez que vemos os meninos no alto de um silo industrial. Desfechos previsíveis não estragam totalmente uma narrativa; arte não é charada, não se desqualifica só porque a deciframos. E o filme é muito bem conduzido, dosado, não para de mexer com o espectador. Mas há aquilo que Flaubert chamava de "coerência interna", a maneira como o estilo e o tema se amarram. Num enredo estruturado em torno de dilemas morais paralelos, como esse, as perguntas sobre os pontos vazios são obrigatórias. Pense na cena do mecânico, quando os meninos perguntam se o médico não vai chamar a polícia. Ele diz que o caso é menor, violência gera violência, etc. A meu ver, tem razão, embora a cultura latina diga que se deva revidar, não levar desaforo para casa. Mas ele não se dá ao trabalho de notar a grande diferença: ali, tem uma instituição razoavelmente confiável à qual recorrer se o caso fosse sério. Na África, não.

Além disso, há insinuações que não são aprofundadas, como a questão da internet (que parece muito mais parceira da falta de comunicação e do incentivo à violência), do voluntariado (tantas vezes manipulado pelos poderosos de países pobres) e a do próprio "bullying" (em geral, os valentões surrados se tornam ainda mais perigosos). Todos esses problemas se refletem num vácuo do roteiro, que - mais uma vez no cinema - não dá ao protagonista um poder mínimo de reflexão, de dúvida autocrítica. Ele nem sequer esboça um "Ah, se eu tivesse ouvido o que meu filho queria falar". Parece um santo, tanto que o entendemos quando vira as costas para o destino de Machão e torcemos para que seja perdoado pela ex-mulher. Por trás dessa abordagem politicamente correta, o que vemos é um conservadorismo, do tipo que diz, à la Francis Fukuyama, que a sociedade moderna está em crise por causa de divórcios e tecnologias. Há dilemas atuais, sim, mas as causas são bem mais complexas.

Natureza da fúria. Acompanhei com tristeza o terremoto e o tsunami no Japão, que fizeram alguns milhares de mortos. Não foi como a tragédia da Indonésia em 2004, com mais de 230 mil vítimas, mas, por mais que esses números mostrem a importância do preparo em construções e alertas, o impacto é parecido quando se veem as ondas levando carros, casas e pessoas como brinquedos. Ouvindo e lendo os geólogos e outros especialistas, me pus a matutar melancolicamente sobre como conhecemos pouco da natureza. Não me refiro a tantas pessoas que parecem ignorar a dinâmica da crosta, o fato de que o Japão fica entre placas tectônicas, a absoluta falta de relação entre o tremor e a ação humana e o aquecimento global... Mas ao desconhecimento da ciência sobre esses movimentos, a dificuldade de prever melhor o epicentro e a intensidade.

A questão nuclear não mostra realidade muito diferente. Sem falar da tradicional falta de transparência dos poderes burocráticos do Japão, a mera ocorrência de vazamentos já foi suficiente para lembrar os perigos desse tipo de energia e os riscos de instalar usinas em tais endereços. De novo, não estou falando dos palpiteiros que descrevem a "natureza em fúria" como se ela estivesse moralmente irritada com a humanidade e adoram citar energias "alternativas" como se já pudéssemos dispensar petróleo e energia nuclear para manter metrópoles com 7 milhões de automóveis como São Paulo. Estou falando justamente da carência de tecnologia necessária para que as fontes solar, eólica e outras tenham tal escala, ou que novas matrizes surjam. O homem se cria problemas que não pode resolver, mas só lhe resta rever e tentar.

Rodapé. Li a autobiografia de Christopher Hitchens, Hitch-22 (Nova Fronteira), jogo de palavras com Ardil 22, o romance de Joseph Heller. Esperava mais de um autor que escreve bem, é polêmico, conheceu muitas pessoas interessantes, viajou bastante e descobriu recentemente um câncer avançado. As melhores memórias ou são confessionais, revelando fatos e pensamentos inesperados (Santo Agostinho, Rousseau), ou são retratos de uma geração, de um modo de vida (Bertrand Russell, Pedro Nava), ou a mistura disso. O negócio de Hitchens é contar vantagem - contar sua amizade com Martin Amis e tantos outros - e se defender politicamente, sobretudo depois de ter apoiado a invasão do Iraque por W. Bush, e para tanto fala muito de sua amizade com "esquerdistas" como Edward Said e Susan Sontag e de seu passado "engajado" nos anos 60.

Sim, ele conta experiências homossexuais, lembra suas raízes judaicas - criticando o sionismo - e se confessa inseguro, mas o livro é uma egotrip sem descanso. A certa altura começamos a lembrar que ele não tem uma obra que vá ficar de algum modo. É um jornalista cultural muito conhecido, um Paulo Francis anglo-saxão, mas obcecado demais com política e seu livro mais relevante é uma demolição da Madre Teresa de Calcutá. Na campanha ateísta, por exemplo, não passa de um coadjuvante do biólogo Richard Dawkins. Mesmo assim, tinha material para um livro muito mais humano - e menos ardiloso.

Quadrinha do café

Mais uma vez diz um estudo:

Tudo faz bem no cafezinho.

Quem não gosta do que escrevo,

Não o culpe - nem ao vinho.

Por que não me ufano. Com guerra civil na Líbia e catástrofe ambiental no Japão, fica difícil que as notícias sobre os esquemas de corrupção envolvendo Barros Munhoz (PSDB) e Jaqueline Roriz (PMN) chamem a atenção do leitor, ou atraiam mais que um bocejo ao estilo "grande novidade"... E como reagir à criação de mais um partido por Gilberto Kassab, que por sinal sempre viveu entre DEM e PSDB, senão com um muxoxo? Ou o que resta dizer sobre uma CPI da CBF com Anthony Garotinho à frente? A geleia geral, como dizia Décio Pignatari, agora é a geleia oficial. Temos muitas legendas e nenhum partido.

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