Dilema de um Estado: A dissidência religiosa como reflexo do conflito em Israel

O status autoatribuído de Israel como "Estado judeu", gravado em sua declaração de independência, resulta de um compromisso que viabilizou a construção desse Estado, mas acabou criando um fardo institucional que divide dramaticamente a sociedade israelense. No limite, como defende a antropóloga Marta Francisca Topel em seu livro A Ortodoxia Judaica e Seus Descontentes, é a própria identidade de Israel que está em jogo.

Marcos Guterman, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2011 | 03h07

O centro do trabalho de livre-docência de Marta são os dissidentes da ortodoxia judaica, chamados de iotzim li'sheela, ou "os que saem à procura de perguntas", isto é, aqueles que abandonam as certezas do universo religioso e se entregam às dúvidas do mundo secular e moderno. Tratados como párias pelos ortodoxos, que atribuem sua dissidência a desvios de caráter, os iotzim também enfrentam enorme dificuldade para integrar-se à sociedade laica, sobretudo porque não têm apoio do Estado. Sem qualificações profissionais, já que passaram o início de sua juventude em escolas religiosas ultrafechadas, os iotzim dependem do auxílio de ONGs para sua nova vida.

O drama desses ex-ortodoxos é o ponto a partir do qual Marta mapeia aquele que talvez seja o dilema mais profundo de Israel e dos judeus. O Estado não auxilia os iotzim porque, segundo a antropóloga, ainda está contaminado pela concordata entre os fundadores do país e os religiosos que ameaçavam o projeto nacionalista e pela integração do sionismo à matriz religiosa judaica. Com isso, a moderna Israel ainda mantém uma influência decisiva dos ortodoxos - que, como mostra o livro, se consideram os "verdadeiros judeus".

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