DILACERANDO SHIA

Astro mergulha na criação do Sigur Rós em vídeo dirigido por Alma Har'el

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2013 | 02h10

Radiografando do grunge ao experimental, o m-v-f- (Music Video Festival) exibe amanhã no Museu da Imagem e do Som o misterioso (e previamente celebrado) The Valtari Mystery Film Experiment, projeto cinematográfico da cultuada banda islandesa Sigur Rós. São filmes curtinhos, um para cada música de Valtari, o disco novo do grupo, dirigidos por diversos diretores do mundo todo - a convite da banda.

A empreitada aconteceu assim: cada um dos cineastas recebeu US$ 10 mil (cerca de R$ 20 mil) do grupo, e instruções "zero" dos islandeses. Entre os que se alistaram estavam John Cameron Mitchell, Ryan McGinley e Ramin Bahrani.

Uma das cineastas escolhidas, a israelense Alma Har'el, vive em Los Angeles e falou ao Estado anteontem sobre seu filme. Ela recebeu a incumbência de filmar a música Fjögur Píanó. "Eu nunca tinha visto ninguém da banda antes. Foi tudo feito por meio de um agente, ele me procurou e me explicou o desafio. Eu poderia fazer o que quisesse, tinha total liberdade."

Alma Har'el não se incomodou com a grana curta ("Uma boa banda nunca tem dinheiro", diz). Mas tinha pouca ideia do que fazer. Em Nova York, ela tinha ganhado o prêmio de melhor documentário no Tribeca Film Festival com o filme Bombay Beach, sobre uma praia da Califórnia. Também já tinha trabalhado com Zach Condon, da banda Beirut, em um videoclipe que foi indicado ao melhor prêmio da MTV.

Foi aí que ela recebeu um e-mail do ator Shia LaBeouf (de Transformers e Indiana Jones). Ele tinha assistido a Bombay Beach em DVD e ficara comovido. Mora na região onde foi filmado o documentário. Estavam na mesma cidade, ele a convidou para jantar e para conversar. Ela foi, e contou a ele da tarefa da qual tinha sido incumbida pelo Sigur Rós. Shia, um dos maiores cachês de Hollywood, topou participar. De graça. "Não foi nada complicado", diz a diretora.

A partir daí, essa é uma história de desintegração. A música Fjögur Píanó, a exemplo de toda a produção do Sigur Rós, poderia ser uma "canção composta para ser interpretada por um cardume de baleias", como escreveu um fã certa vez. Alma Har'el a transformou num tour de force metafórico sobre o fim de um relacionamento. Em vez de usar uma dramaturgia convencional, ela construiu um balé em que Shia LaBeouf e sua partner, a bailarina Denna Thomsen, se amam e se digladiam em quartos e garagens surrealistas.

Há nudez, erotismo, sadomasoquismo, borboletas mortas, viagens psicodélicas, esculturais corpos nus e mórbida dramaticidade em nove minutos de filme. "Tentei harmonizar a música com minha visão interior do mundo. Busquei imagens mais abstratas, que existem de forma emocional, mas não sejam necessariamente um roteiro da música", contou Alma.

Ela não gosta de citar influências nessa cultura de vídeos musicais, diz que sua cabeça não funciona assim. "Gosto de muitas coisas, de curtas-metragens, de comerciais de TV, de videoclipes. Mas fico mortalmente entediada com essa história de que tudo tem que ter uma ligação histórica. 'Ah, isso aqui é anos 80, isso aqui é anos 90.' Aquela é uma cultura muito popular, é um universo estandartizado do pop, e a única coisa que me interessava no meu projeto era tocar o coração da canção."

Impressiona, em um filme tão curto, a intensidade dramática de LaBeouf, que chamou a atenção da própria diretora. Em uma das cenas, ele se vê sozinho e chora. "E ele estava realmente chorando. Era de verdade", ela conta. "Pode surpreender quem se lembra dele só nos filmes de ação, mas se você assistir a um filme chamado A Guide to Recognizing Your Saints, saberá que ele pode fazer qualquer coisa."

Alma Har'el viu todos os 16 filmes que resultaram do mergulho na música do Sigur Rós em um cinema de Londres, no final do ano. "Amei todos. Na tela grande, gostei até de alguns que não tinha gostado tanto na tela do computador. Achei apenas que, de todos, só o meu mesmo é que fica melhor no computador", contou a diretora, que no momento está filmando em Nova York seu novo projeto cinematográfico.

O grupo islandês Sigur Rós lançou Valtari (que quer dizer, em português, rolo compressor), seu sexto disco de estúdio, no ano passado. Provenientes do mesmo país de Björk, é uma das mais invulgares bandas de rock do mundo. Vieram ao antigo Free Jazz Festival, em 2001. Empenham-se na construção de paisagens sonoras digressivas, que alguns já chamaram de prog indie.

Já Alma Har'el estreou com tudo com seu documentário neorrealista Bombay Beach, que trata da vida de pessoas muito pobres no Sul da Califórnia. O celebrado diretor Terry Gilliam disse, sobre o filme: "Um belo, surpreendente e, por fim, muito tocante filme sobre o Sonho Americano nos limites de um mar deserto".

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