'Digital substituirá os atores'

Stanley Tucci não é o único insatisfeito com a tecnologia no cinema

PEDRO CAIADO, ESPECIAL PARA O ESTADO / LONDRES, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2013 | 02h11

Jack - O Caçador de Gigantes é a mais recente aposta milionária de Hollywood na adaptação de contos de fadas. O filme, repleto de efeitos visuais e orçamento inchado - na casa dos US$ 200 milhões - levanta a seguinte questão: estariam os contos de fadas substituindo os super-heróis? "Com certeza", afirmou o diretor Bryan Singer, que deu início à tendência de adaptação dos quadrinhos há 13 anos, com a bem-sucedida franquia de X-Men.

Para conversar sobre o filme, encontramos o multitalentoso Stanley Tucci, que interpreta o vilão caricato Lord Roderick, mais um grande papel no currículo do ator de 52 anos, de origem italiana, eternamente lembrado como Nigel em O Diabo Veste Prada. Há tempos, Tucci vem provando sua versatilidade, como em Jogos Vorazes e Capitão América, ou A Mentira e (irreconhecível) Um Olhar do Paraíso. Além disso, ele ainda encontra tempo para lançar um livro sobre sua paixão pela culinária, o The Tucci Cookbook. "Fico louco se não trabalhar", ressalta ele.

O Caçador de Gigantes é uma versão que mistura o ingênuo conto João e o Pé de Feijão com a história britânica do século 17, de mesmo nome, caracterizada pela violência explícita. O filme é uma versão pipoca sem compromisso. A maior parte é filmada em 3D e composta por efeitos visuais, sendo os gigantes, talvez, a parte mais engraçada. "Esta versão é mais sombria. Há uma batalha em que os gigantes atacam o castelo no fim do filme", informa Tucci. Roderick é um vilão ganancioso, que tenta manipular os gigantes e conquistar suas terras.

Sobre as filmagens, Tucci confessa: "Fico feliz em ver no cinema, mas filmar em 3D não é divertido. As câmeras quebram muito. O resultado final é maravilhoso, mas é preciso muita paciência. Eram 13 horas por dia aguardando, vestindo roupas apertadas. Talvez você consiga duas tomadas corretas por dia e só. É algo frustrante".

Com tanta espera em set, o que faria o ator entre uma cena e outra? "Neste trabalho em particular, eu aguardava 90% no meu trailer. Depois da cada cena, os atores têm de esperar mais quatro horas. Esse é o processo", lembra ele. "Trago livros, vejo filmes, envio e-mails se tiver acesso à internet, faço exercícios, cochilo, enfim, tento me manter ocupado o máximo possível para não cair em depressão", afirmou, com um sorriso irônico.

O ator confessa sua insatisfação com o uso da tecnologia no cinema atualmente. "Eu espero que o uso do 3D seja cada vez menor. Pode ser legal para algumas coisas, mas deixa você tonto", avalia. Tucci é da velha escola. Tecnologia não faz parte nem de seu dia a dia. "Acho que telefones tiram muito da nossa atenção. Não sou um cara tecnológico. Nem consigo usar estes celulares", diz ele, apontando para um. "Quando eu era jovem e estes aparelhos não existiam, costumava fazer coisas muito mais legais, que eram boas para nós", relembra, com nostalgia.

Tucci prevê um futuro negro para a classe artística com o avanço da alta tecnologia. "Nós, provavelmente, seremos substituídos por algo digital. Não fico preocupado, pois até lá, devo estar ou muito rico ou morto", comenta em tom sério. "Para as animações, eles ainda precisam das nossas vozes, mas acredito que em um tempo, eles darão um jeito de nos substituir também", prevê. "Não recusaria um papel de captura de performance, mas acho que são estes papéis que merecem a maior remuneração para o ator", diz, em tom de desprezo, o ator que estará na segunda parte de Jogos Vorazes.

Stanley Tucci não é o único insatisfeito com a tecnologia no cinema. Recentemente, o ator britânico Ian McKellen também confessou sua insatisfação com o processo de filmagens utilizando a captura de performance.

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