Diferença está no olhar da criança, que filtra a política

Crítica: Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2012 | 00h24

JJJJ ÓTIMO

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No início de outubro, o produtor (e diretor) Luis Puenzo veio ao Brasil para acompanhar a projeção de Infância Clandestina no Festival do Rio. Puenzo ganhou o Oscar de filme estrangeiro - o primeiro da Argentina - por História Oficial. Com sua produtora, financia os próprios filmes e os dos filhos. Foi a filha Lucía, diretora de XXY, que o levou a se interessar por Benjamín Ávila.

O filme é uma coprodução com o Brasil e representa a Argentina na disputa por uma vaga no próximo Oscar. Infância tem, aparentemente, tudo o que a Academia de Hollywood gosta - criança, um quadro político, uma intenção humanitária. E, claro, qualidade artística.

O próprio Puenzo, que já venceu o prêmio, diz que não existe fórmula para se ganhar o Oscar. Se houvesse, ele não teria constrangimento em usá-la. Nem por isso deixa de confiar nas possibilidades de Infância. O filme compete à indicação com filmes de todo o mundo, incluindo No, de Pablo Larraín, do Chile, e O Palhaço, de Selton Mello, do Brasil. Benjamín Ávila e Larraín remexem na mesma ferida, a memória da ditadura militar, que foi sangrenta nos dois países.

A abertura democrática dos anos 1990 permitiu que o cinema latino-americano abordasse as dores causadas pela ditadura militar nos diferentes países. Cada país trata o assunto à sua maneira e a Argentina sempre o encarou de forma incisiva. Os argentinos tiveram muito antes sua Comissão da Verdade e História Oficial remexe nas mesmas lembranças.

Benjamín Ávila é filho de militantes que ingressaram na clandestinidade. Viveu a própria infância de forma clandestina. Separado do irmão, só muito recentemente, já adulto, conseguiu localizá-lo. Como diretor, valeu-se de experiências e sensações pessoais para contar a história de Juan, que tem o nome de fantasia de Ernesto. Com os pais e o tio, Juan/Ernesto costuma saltar de escola em escola, cidade em cidade, acompanhando a atividade clandestina da família. Não é fácil para um garoto viver nessas condições, e menos ainda quando, em plena puberdade, com os hormônios em ebulição, ele se apaixona por uma colega.

Houve filmes mais duros na forma de encarar a repressão na Argentina - o pesado Crônica de Uma Fuga, de Adrián Caetano. Como o também premiado (por Hollywood) O Segredo de Seus Olhos, de Juan José Campanella, Infância Clandestina não ameniza a situação, mas introduz, por assim dizer, variantes. O quadro político humaniza-se ao ser filtrado pelos olhos da criança, e ainda por cima nesse momento particular. Pense em filmes clássicos sobre a infância e a puberdade - o cultuado Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups), de François Truffaut. É nessa direção que mira Ávila. Desde Cannes, seu filme divide opiniões. Seria muito comercial para o circuito artístico, muito artístico para o comercial. A dor é de quem sente. No Brasil, como na Argentina, Infância tem força sem exagerar no impacto. É intimista, delicado, honesto.

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