Dieta calórica

Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud são cineastas que você conhece: dirigiram Persépolis, aquela bonita animação sobre as agruras de uma família no Irã. A mesma dupla vem agora com este ambicioso Frango com Ameixas, que põe em primeiro plano a saga histórica e pessoal do personagem Nasser Ali Khan, interpretado por Mathieu Amalric.

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2011 | 03h08

De acordo com os diretores, o segundo filme é uma espécie de livre continuação do primeiro. Uma continuação em outros termos, como você verá. Se em Persépolis vê-se a história de uma família surpreendida pela adversidade da guerra, Frango com Ameixas cobriria a história dessa mesma família entre 1930 e 1990.

O filme foi considerado o melhor na categoria de longa internacional pelo público da Mostra. Algum mérito ele deve ter para se destacar entre tantos concorrentes, e por um público tido como exigente e amante do cinema de arte.

Vejamos. Tudo começa com imagens de 1958 quando Nasser, considerado o mais célebre dos violinistas do seu tempo, vê seu instrumento favorito ser destruído. Exigente, e incapaz de substituir o violino, desenvolve aquilo que seria o contrário de sua vocação - uma intolerância pela música. Passa os dias na cama e se perde em devaneios acerca do passado, e com projeções para o presente e o futuro. O filme adquire o tom de uma rememoração delirante no conteúdo e maneirista na forma.

Além disso, não se preocupa com a cronologia, e põe a narrativa a dar saltos entre passado e presente e vice-versa. A ideia de base (nada contra, em tese) é a montagem de um mosaico temporal, que faria sentido apenas quando todas as peças estivessem colocadas e Nasser revelasse certo segredo, que tem a ver com a música e com o amor. A estrutura em mosaico já foi usada por inúmeros cineastas, incluindo um dos maiores, Fellini, recurso que nunca atrapalhou a fruição de suas obras.

Mas não é a estrutura e nem sequer a falta de linearidade que atrapalham o filme, e sim a demasiada saturação de suas imagens, a densidade informativa que não se justifica pelo conteúdo exposto. Há, sim, uma aura romântica, acentuada pela presença sempre marcante de Amalric, um dos atores atuais mais carismáticos, mas, que até por isso, não recua diante de exageros e da super interpretação. Aliás, a impressão geral do filme, imposta pela direção, é de algo muito sobrecarregado.

O que não quer dizer que não tenha qualidades e nem bons momentos. Tem. Mas é verdade que as ideias vão acabando e a substância rala vai sendo engrossada por um glacê estetizante, altamente calórico e pouco nutritivo. Talvez nem sejam seus problemas formais que atrapalhem - tanto assim que foi bem assimilado pelo público. Mas é preciso dizer que, com sua aura romântica, apresenta aquela característica do cinema "de qualidade", que também não se furta a provocar emoção nas pessoas. Pouco cerebral, Frango com Ameixas procura ir direto ao coração.

E, como ficar indiferente diante de uma história como essa, que atravessa o tempo, fala de um amor perdido e para sempre lembrado, trabalha com habilidade com a música? Pois bem, Frango com Ameixas tem mesmo essa aparência de irresistível. Tanto assim, que ficamos desconfiados de que cada aspecto tenha sido planejado exatamente para causar essa impressão no espectador.

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