Dicionário lembra as grandes mulheres do Brasil

A mulher brasileira - e o movimento feminista, por extensão - dispõe agora de obra de referência obrigatória. Trata-se do Dicionário Mulheres do Brasil, que a Editora Jorge Zahar e a ONG Redeh lançam, hoje, com festa e circunstância no Palácio Guanabara, no Rio. Depois, os organizadores Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil, e a editora de texto, Ana Arruda Callado, lançarão o livro (de 568 páginas, pelas quais se distribuem 900 verbetes biográficos ou temáticos e 270 ilustrações) em diversas cidades brasileiras. O leitor encontrará no Dicionário Mulheres do Brasil perfis famosos como os de Fernanda Montenegro, Carmen Miranda, Elis Regina, Rita Lee, Djanira, Clarice Lispector, Marlene e Emilinha, Martha Rocha, Dina Sfat, Maria Bethânia, Gal Costa e Leila Diniz. Todas elas têm suas trajetórias resumidas no segmento dedicado às mulheres que se destacaram no século 20 nas mais diversas áreas. O Dicionário, porém, não é uma mera compilação de estrelas. Até porque artistas (atrizes, cantoras, cineastas, pintoras ou escritoras) ganharam espaço relativo. O interesse recai com igual destaque sobre cientistas, líderes políticas, religiosas, comunitárias ou feministas, e até sobre cangaceiras e guerrilheiras. Fruto de três anos de trabalho de uma equipe de 70 pessoas (13 delas de sexo masculino), a obra investiga o papel da mulher na história brasileira, de 1500 até 1975, Ano Internacional da Mulher e marco no que se convencionou chamar de "segunda onda feminista". Para biografar as mulheres negras, índias e brancas que ajudaram a construir o Brasil dos séculos 16 a 19, a equipe teve que se desdobrar em penosos (muitas vezes vãos) esforços. Afinal, o Brasil segue sendo um país sem memória. Memória feminina (ou feminista) é problema ainda mais grave. Os 245 nomes do século 20 se fazem acompanhar de data de nascimento (e morte, quando é o caso). Mas, à medida que o tempo se afasta, a dificuldade de localizar dados básicos, os de registro civil, vão se amplificando de forma mais que preocupante. Mesmo assim, a ONG Redeh leva seu ousado projeto a cabo. Dos 1.600 nomes levantados num primeiro momento, permaneceram pouco mais da metade (isto, porque há verbetes temáticos do tipo Órfãs da Rainha e Brasileiras na Segunda Guerra Mundial). O verbete Órfãs da Rainha é de leitura obrigatória, já que nos revela muito de nossa história. Ao desembarcar na Terra do Pau Brasil, em 1549, o catequista Manoel da Nóbrega escandalizou-se com o que viu. Os portugueses se fartavam com várias mulheres e defloravam índias, sem pudor. Para dar um basta àquela situação, inaceitável para um religioso católico, o padre escreveu ao Rei de Portugal e pediu que para cá enviasse moças dignas e qualificadas para contrair matrimônio com os colonos. Dois anos depois, desembarcava na costa baiana a primeira leva de "orfãs da Rainha". Moças talhadas para serem esposas e, assim, ajudar a povoar o território recém-descoberto. Rebeldia - O tom do Dicionário é assumidamente feminista. Na apresentação, Schumaher e Vital Brazil lembram que "não se pode esquecer ou banalizar o esforço individual e coletivo de milhares e milhares de brasileiras que, inconformadas com sua condição, se rebelaram contra a situação estabelecida". E citam "índias que se rebelaram contra a violência do colonizador, negras contra a escravidão, brancas contra os valores patriarcais vigentes, todas lutando pela transformação das regras impostas ao feminino". Os organizadores do Dicionário destacam, também, que "em um contexto de opressão, mas tomadas de coragem, elas foram as responsáveis pelos avanços no campo e pela conquista de Direitos Civis, hoje desfrutados pela grande maioria. Assumiram a vanguarda e há 120 anos alcançaram acesso à educação formal, há 66 anos o direito ao voto e há 12 anos a igualdade plena na Constituição brasileira".Oculto - As pesquisadoras Hildete Pereira de Melo, doutora em Economia, e Teresa Novaes Marques, doutoranda em História, assinam o consistente prefácio do Dicionário e deixam claro o objetivo da obra: "revelar o lado oculto da história oficial e contribuir para a construção da memória das mulheres brasileiras". Já de início, a equipe estabeleceu critério geral de acesso às 568 páginas da publicação: "a biografada deve apresentar trajetória relevante para a história do Brasil, ou seja, deve ter contribuído de alguma forma para a transformação social". A presença de nomes como Olga Benário, Elza Monerat e Iara Invelberg, guerrilheiras que pegaram em armas para defender ideais políticos, ilustra plenamente o critério. As cangaceiras Dadá e Maria Bonita - que ganharam verbetes - também participaram de movimento armado. A primeira é lembrada como a mulher do bando de Lampião a portar um fuzil. O critério, porém, não prevaleceu sobre o que as prefaciadoras definem como "a capacidade da personagem de representar a condição feminina típica de seu tempo e meio social". Ampliou-se, assim, o espectro e surgiu um novo desafio: "como resolver os problemas surgidos da diversidade das condições de vida das mulheres no meio social brasileiro em muitos períodos históricos?". Para responder a esta indagação, a equipe adotou critérios capazes de abranger mulheres negras, brancas e índias, "uma vez que em uma sociedade marcada pela tragédia da escravidão e da exclusão social, não há como reunir numa mesma história todas as etnias, sob a pena de desconsiderarmos a riqueza das várias formas de luta adotadas por mulheres de diferentes condições sociais". Se faltam dados sobre mulheres brancas, imagine sobre índias e negras, discriminadas até hoje. No caso da mulher indígena, a fonte - lamentam as pesquisadoras - "foram os relatos produzidos pelos conquistadores". Os mesmos conquistadores que "submeteram aquelas mulheres, nativas ou negras à escravidão e à exploração sexual". Vale lembrar que a escravidão dos índios só findou em meados do século 18 (através de decreto do Marquês de Pombal) e a dos negros durou mais de 300 anos (até maio de 1888). A presença da mulher índia se dá de forma modesta. E, em alguns casos, trágica. Vale lembrar o caso de Diacuí, a índia kalapalo que apaixonou-se pelo sertanista Aires Câmara Cunha, no começo dos anos 50, e que casou-se, na Igreja da Candelária, sob os flashes de intensa cobertura da mais famosa revista de Assis Chateaubriand, O Cruzeiro. Nove meses depois da cerimônia, ela morreu durante o trabalho de parto. Sua história está narrada no filme Diacuí, Caminho Sem Volta, de Ivan Kudrna. A presença da mulher negra é um pouco mais significativa que a da indígena. Mesmo assim, mostra-se insuficiente. Claro que 900 verbetes jamais esgotariam a contribuição da mulher à história e à cultura brasileiras. Mas a ausência da atriz e cantora Zezé Motta, por exemplo, é gravíssima. Maria José Motta, a Zezé, 55 anos, além da trajetória brilhante no cinema, teatro e TV, é a alma do Cidan (Centro de Documentação e Informação do Artista Negro), ONG que cadastra, em vários pontos de território nacional, atores e atrizes afro-brasileiros. O projeto, que conta com apoio do Ministério do Trabalho, Fundação Palmares e Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), já catalogou 400 atores negros no Rio, São Paulo e Bahia. Cada ator ou atriz tem seu currículo detalhado em ficha e sua imagem registrada em slides. Este material pode ser acessado - via Internet (www.cidan.org.br) por qualquer produtor interessado em escalar este ou aquele ator para filme, peça, show ou novela. Além de ter protagonizado filmes importantes como Xica da Silva e Cordão de Ouro, Zezé foi a primeira atriz negra brasileira a encabeçar, numa novela em horário nobre (A Próxima Vítima), um núcleo da trama formado por uma família de classe média. Ela fez e faz pelos negros brasileiros, trabalho similar ao de Spike Lee, nos EUA. Mas os afro-brasileiros encontram no Dicionário representantes religiosas (como Mãe Menininha do Gantois e Mãe Senhora), artistas (Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Ruth de Souza e Carmen Costa) políticas (Benedita da Silva) e lideranças comunitárias (Dona Zica da Mangueira). Artistas - O destaque da mulher brasileira cultura é dos mais significativos. Atrizes, escritoras, cantoras, pintoras ou cineastas vêm, a cada década, ocupando mais espaços. No campo do cinema, por exemplo, estima-se que de 900 diretores que já exerceram - ou exercem - a atividade pelo menos 90 sejam de sexo feminino. Na seleção das cineastas, o Dicionário optou pelas pioneiras Celo Verberena, Carmen Santos (atriz, diretora e produtora) e Gilda de Abreu (atriz e diretora de O Ébrio). Na história da canção popular, as vozes femininas sempre se fizeram ouvir com imenso êxito. Caso de Carmen Miranda, a mais internacional das cantoras brasileiras, Dalva de Oliveira, Marlene, Emilinha Borba, Maísa, Dolores Duran, Elizeth Cardoso, Elza Soares, Nara Leão, Elis Regina, Maria Bethânia, Gal Costa, Clara Nunes e Rita Lee. O segmento está bem representado no livro. Mesmo caso das escritoras Cecília Meirelles, Clarice Lispector, Raquel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Ana Cristina César, entre outras. E das pintoras (Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Djanira, Tomie Othake, Lygia Clark). Idem para as atrizes Fernanda Montenegro, Lélia Abramo, Leila Diniz, Florinda Bolkan e, com destaque especial, Dina Sfat (1938-1988), por sua coragem de carregar um cartaz em defesa do aborto - tese cara às feministas. E mais: num certo dia, num programa de TV, Dina disse a um general que, como o povo brasileiro, temia os militares que governavam o País. As prefaciadoras do livro lembram que, na área cultural, por causa do grande número de mulheres que se colocaram em relevo, "optou-se por aquelas cujo talento, pioneirismo e reconhecimento público houvessem marcado uma determinada época". O livro traz, ainda, perfis de mulheres incríveis como a Doutora Nise da Silveira, Bidu Sayão, Eneida, Cacilda Becker ou Pagu. São muitas, apesar dos limites que a equipe se impôs na difícil hora de condensar a obra num volume de manuseio fácil: "primeiro, as mulheres que participaram dos grandes movimentos que revolucionaram a condição feminina no país; segundo, as mulheres que ascenderam ao poder, incluíndo as precursoras em cargos públicos eletivos e executivos; terceiro, mulheres que deixaram uma marca na luta política (das revoltas populares à luta armada), lideranças sociais, vítimas da violência e, por último, as trangressoras". E por apreciar tanto a transgressão, os organizadores do Dicionário quebraram a mais sólida das regras do setor editorial (a que estabelece a inclusão do biografado por seu nome de família, respeitando-se a ordem alfabética). Neste livro, elas chegam em ordem alfabética, sim, mas pelo prenome. Anas, Marias, Carmens, Teresas...

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