Dicionário Houaiss chega batendo recordes

Um lançamento para criar um novoconceito: a partir de sexta-feira, quando as livrarias de SãoPaulo e do Rio de Janeiro receberem seus primeiros exemplares, oDicionário Houaiss da Língua Portuguesa inicia uma formadiferenciada das obras de referência. São 2.924 páginas contendo228.500 verbetes, números que superam as edições tradicionais domercado, como o Aurélio (160 mil verbetes) e o Michaelis (200mil). A previsão de preço é de R$ 125 e a distribuição norestante do País deve ocorrer a partir da próxima semana. "O diferencial não está apenas na quantidade superiorde verbetes, mas principalmente na amplitude e na precisão decada um", comenta Roberto Feith, proprietário da editoraObjetiva, que publicou a obra, tornando-a seu empreendimentomais ousado - o investimento beira os R$ 5 milhões. "Até hoje,nenhum dicionário foi tão preciso ao apontar a origem de cadapalavra, além de registrar o primeiro registro de seu uso noidioma português." A novidade é uma das principais atrações do Houaiss.Assim, termos como "camelô" têm, além de seu significado(vendedor ambulante de coisas de pouco valor), a origem (dofrancês "camelot", de 1821) e a primeira aparição no Brasil (arevista humorística Careta já a utilizava em 1917). Outrodiferencial é um maior número de sinônimos, suplantandonovamente os rivais ("cachaça", por exemplo, tem 422referências distintas, colhidas entre expressões populares). As inovações, porém, implicam sacrifícios - o Houaissnão apresenta citações literárias, ou seja, exemplos dautilização dos vocábulos por escritores, como ainda fazem seusconcorrentes. A decisão é explicada em uma longa introdução: ascitações implicariam um aumento considerável de páginas, o queencareceria a obra. O Houaiss levou 16 anos para ficar concluído e é frutodo trabalho de uma equipe formada por mais de 150 especialistasbrasileiros, portugueses, angolanos e timorenses, com formaçõesdistintas (lexicógrafos, etimólogos, redatores, professores erevisores, entre outros). Começou com a ambição do filólogo ediplomata Antônio Houaiss, que iniciou o projeto em 1985, com ocompromisso de fazer o mais completo dicionário da línguaportuguesa. O projeto foi interrompido em 1992, por falta derecursos, e só foi retomado cinco anos depois, quando foi criadoo Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia, que firmou umacordo com a Objetiva para conclusão da obra. Quando o filólogomorreu, em 1999, o dicionário estava 70% concluído. "Pudemosterminar porque Houaiss preparou um manual de redação com cempáginas, contendo todas as suas orientações", conta MauroVillar, também filólogo e sobrinho de Houaiss, responsável pelaconclusão da obra. Estrangeiros - A finalização, aliás, só foi possívelgraças à fixação de objetivos - como a fixação do prazo (segundosemestre deste ano) e do número de verbetes (228 mil). "Sóestouramos um pouco quanto aos verbetes", observa Villar, quemanteve a determinação de não apresentar nenhum preconceitocontra os vocábulos de origem estrangeira, apesar das constantesmanifestações contrárias aos estrangeirismos. "Os dicionáriossão espelhos, pois refletem a constante movimentação de umidioma vivo", comenta ele, lembrando que nenhuma língua estáisenta. "O inglês, por exemplo, detém 40% de palavrasoriginadas do francês e nem por isso está descaracterizado." O filólogo elogia o acabamento do dicionário, que foieditado na Itália. O motivo, segundo Feith, é que nenhumagráfica brasileira apresenta condições de editar o dicionário emapenas um volume. "Fizemos diversas pesquisas e constatamos queo público prefere um tomo só." Depois de diversas pesquisasinternacionais, descobriu-se uma gráfica italiana que, além degarantir a edição, oferecia ainda um tipo de acabamento nalombada que oferece mais durabilidade. Finalmente, a impressãorevelou-se mais clara e o volume não ficou tão pesado, porque aspáginas têm uma gramatura inferior da dos demais, ou seja, sãomais finas. Villar está em Lisboa, onde comanda uma equipe de oitopessoas, que prepara a versão lusitana do dicionário, que seráligeiramente diferente da edição lançada aqui. "A línguaportuguesa é a única no mundo que vergonhosamente tem doisidiomas, daí a necessidade desses ajustes", reclama. EmPortugal, o Houaiss deverá ser lançado no próximo ano. Antes,porém, serão lançados no Brasil uma versão em CD-ROM (outubro) eum dicionário escolar (novembro).

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