Dicionário desvenda mistérios da escrita feminina

Em busca de sua imagem e de seu lugar no mundo, a mulher escreveu. Às vezes, escreveu às escondidas, porque, em certa época, consideravam que as letras não eram artefatos de uso feminino. Às vezes, escreveu para chocar, para enfrentar com vontade libertária uma condição subalterna. De qualquer maneira, a presença das mulheres na literatura brasileira tem sido forte e prodigiosa, ao menos quando examinada nos 1.400 verbetes do Dicionário Crítico das Escritoras Brasileiras (Escrituras Editora, 752 páginas, preço ainda não definido), de Nelly Novaes Coelho. Levantamento de fôlego da autora, o dicionário das escritoras é uma experiência pioneira no Brasil e deve causar boas e quentes discussões sobre o tema. O mais antigo registro de uma autora, constante no dicionário, data de 1752: um best seller do século 18, o romance Aventuras de Diófanes, da portuguesa Teresa Margarida da Silva e Orta, nascida em São Paulo em 1711 e filha de um dos homens mais ricos de Portugal na época. Ex-secretária do Marquês de Pombal, Teresa foi escolhida por Nelly Coelho por ter nascido em São Paulo e também pelo fato de, há alguns anos, a Academia Brasileira de Letras tê-la considerado a "primeira romancista brasileira", disse Nelly, que tem dúvidas sobre essa afirmação. Quanto à mais recente obra que incluiu no levantamento, ela acha mais difícil precisar de bate-pronto. "Seria preciso consultar o dicionário. Lembro apenas que o último que me chegou às mãos e foi incluído no dicionário foi o fascinante romance A Dança do Jaguar (2001), da mato-grossense Tereza Albues, que há dez anos mora em Nova York, mas vem publicando regularmente no Brasil." Uma das peculiaridades sobre o trabalho dessa autora é que seu marido foi um dos que se salvaram no ataque ao World Trade Center, no dia 11 de setembro, descendo do 73.º andar, pela escada de incêndio. Em entrevista ao Estado, a autora do dicionário comentou inclusões e exclusões, critérios e motivações. O critério básico é incluir só escritoras com livro publicado, mas ela abriu uma exceção para o que chama de "mulheres notáveis" da História: Luz del Fuego, Chiquinha Gonzaga, Bertha Lutz e outras. Entre elas, está Branca Dias, lendária paraibana que, no século 17, foi uma das vítimas do Tribunal de Ofício da Inquisição, instalado durante anos no nordeste brasileiro. "Rica senhora de engenho", ela foi condenada por judaísmo e levada a Portugal, onde morreu na fogueira. Por que só mulheres? "Foram muitas as causas que me levaram a projetar a pesquisa, que acabou resultando nesse dicionário. Talvez uma das mais importantes tenha sido a revolução, ainda em processo, que tirou a mulher de seu tradicional lugar de rainha do lar, para jogá-la no redemoinho da sociedade atual. Como mulher e pesquisadora, sempre me preocupou descobrir como homens e mulheres criadores, privilegiados com o ´olhar´ que vê além das aparências, viam e viviam as transformações em curso no mundo. Vejo a literatura como uma espécia de sismógrafo. E, se é verdade que, para os homens, essa revolução de valores desarticulou, por exemplo, sua tradicional visão de mundo, para as mulheres, essa desarticulação foi muito mais profunda. Sua ´imagem feminina´ foi posta em questão. Com a sexofilia que, nestes tempos caóticos, substituiu a sexofobia em que se fundava a sociedade tradicional, anulou-se a dualidade inconciliável, pura-impura, anjo-demônio, que a marcou desde as origens bíblicas", afirmou Nelly. O dicionário traz algumas descobertas e também alguns deslizes. Não consta do levantamento, por exemplo, um nome capital da literatura feminina no País - seja para o bem ou para o mal. Trata-se de Helena Morley, pseudônimo da dona de casa mineira Alice Dayrell Caldeira Brant, que escreveu um diário famoso dos últimos anos do século 19 em Diamantina, Minha Vida de Menina. Estimulada pelo pai, um pequeno minerador descendente de ingleses, a escrever um diário relatando tudo o que se passava ao seu redor, Helena Morley (que morreu no Rio de Janeiro, nos anos 70) descreveu o cotidiano das mulheres de sua época e fez considerações sensíveis sobre o casamento e a maternidade. A escritora Lygia Fagundes Telles considera que seu testemunho representa avanço importante na narrativa feminina no País. "Apesar da beleza do relato, o tema não é o que mais importa, mas a qualidade do texto, que sem sombra de dúvida eu digo que é maravilhoso. O mais importante não é o que está sendo dito, mas como." Há outras ausências também muito notadas, como a da jovem escritora Fernanda Young, que a autora credita à falta de informações sobre sua produção. Dos homens que escreveram com pseudônimos de mulher, dois estão no livro: Nelson Rodrigues (a.k.a. Suzana Flag) e o poeta baiano dos anos 20 Eduardo Faria (codinome: Regina Alencar). Nelly Coelho ignorou outros mais "folclóricos", como o general e ensaísta Aurélio Lyra Tavares, que assinava na juventude poemas românticos com o codinome de Adelita - A de Aurélio, Li de Lyra e Ta de Tavares. Pode-se detectar a presença de ensaístas, mas somente as ensaístas que atuem na interseção de gêneros (ensaio e poesia ou ensaio e romance, por exemplo), segundo explicou Nelly. A primeira-dama Ruth Cardoso, por exemplo, não entrou. As ensaístas latu sensu ("E as temos em quantidade e de alto nível", disse a autora), jornalistas e as que publicaram em antologias ("São centenas", emendou Nelly) ficaram fora. "Mas há casos de poetas ou ficcionistas que também são ensaístas", acrescentou. Segundo a autora, embora a pesquisa do dicionário comece em meados dos anos 80, sua idéia surgiu bem antes, nos tempos em que ela colaborou com Décio de Almeida Prado no Suplemento Literário de O Estado de S.Paulo, na década de 60. Os motes filosóficos eram muitos, mas uma citação de 1872, do argentino Sarmiento, define todo o princípio da pesquisadora: "Pode-se julgar o grau de civilização de um povo segundo a situação social que nela usufrui a mulher."

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