Diáspora das palavras

No alto da montanha da bela Cidade do Cabo, quando se caminha para um de seus mirantes, vê-se o Cabo da Boa Esperança ao longe, lá onde o Atlântico faz a curva e se verte no Índico, e não dá para não lembrar os descobridores portugueses e o outro nome do extremo, Cabo das Tormentas, com suas ressonâncias camonianas. Confesso que senti um enlevo lusófono, e me pus a meditar sobre as viagens que um idioma faz com seu povo, ou melhor, com seus povos. Na mesma semana fomos a Durban, na outra ponta do país, e para mim Durban sempre foi, antes de uma cidade sul-africana marcada pela presença de indianos muçulmanos e pelo calor litorâneo, a cidade onde Fernando Pessoa viveu quase dez anos, dos 8 aos 17, educado em inglês numa escola irlandesa. Pouco antes, morrera José Saramago, autor dos memoráveis O Ano da Morte de Ricardo Reis e História do Cerco de Lisboa, um ficcionista que também levou o vocabulário e a prosódia do português mundo afora.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

Quando volto, encontro alguns livros relacionados ao tema, em especial o Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português (coordenação Fernando Cabral Martins, editora Leya), e fico sabendo que a próxima Bienal do Livro de São Paulo, com início no próximo dia 12, trará o moçambicano Mia Couto e os angolanos Ondjaki e Agualusa para debater justamente a lusofonia. Num dos textos desse ótimo dicionário (no qual senti falta apenas de, entre outros, um verbete sobre Camões, sobre a força e o peso de sua herança em Pessoa e companhia), leio que ele fez em quatro ocasiões a viagem pelo Cabo da Boa Esperança (hoje a 40 minutos de carro da Cidade do Cabo), tanto que num poema menciona a beleza da "Table Mountain", que chama Montanha da Mesa, e a visão do Cabo "nítido ao sol da madrugada". Esse poema, assinado por Alberto Caeiro, um de seus heterônimos, é o Passagem das Horas e tem um começo magistral:

"Trago dentro do meu coração,/ Como num cofre que se não pode fechar de cheio,/ Todos os lugares onde estive,/ Todos os portos a que cheguei,/ Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,/ Ou de tombadilhos, sonhando,/ E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero."

(Bichos carpinteiros como eu deveriam andar com esses versos no bolso.)

Como já me acontecera em cima da rosa dos ventos inscrita no chão ao lado da Torre de Belém, em Lisboa, também os versos do único livro em português publicado em vida por Pessoa, Mensagem, passaram a me seguir durante a Copa. Versos como: "O mar com fim será grego ou romano/ O mar sem fim é português." Ou: "Jaz aqui, na pequena praia extrema,/ O Capitão do Fim. Dobrado o assombro,/ O mar é o mesmo: já ninguém o tema./ Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro." Este poema, ora, se chama Epitáfio de Bartolomeu Dias, o navegador que dobrou o Cabo em 1487 e ali mesmo morreria mais tarde, em 1500, pouco depois de ter participado da descoberta do Brasil ao lado de Pedro Álvares Cabral. O Brasil, afinal, é o maior filho da diáspora portuguesa por ventos e verbos, e não por acaso Mia Couto e a dupla angolana reconhecem sempre a influência da literatura brasileira moderna, de nomes como Rosa e Amado.

O equívoco de acordos ortográficos é querer ser mais do que são, simples ajustes diplomáticos, e não as motrizes de uma aproximação entre os povos que falam a mesma língua (isso sem entrar no mérito dos critérios, que eliminaram acentos como em "voo" e mantiveram em "já", como se houvesse outra pronúncia para a vogal senão a aberta). A língua é viva e nômade; está em constante reinvenção pelo uso e, portanto, vai muito além dos dicionários; e é muito bom que seja assim, caso contrário se fixaria e morreria. Os escritores que captam esse idioma móvel e poroso são os melhores. Como o poeta Ezra Pound fez pela língua inglesa em ABC da Leitura, há um estudo a fazer sobre as contribuições e mutações do português desde Camões até Drummond, que em alguns momentos parece influenciado por Pessoa, e desde Vieira, "o imperador da língua portuguesa", segundo outro verso de Mensagem, até Machado, Euclides, Lima, Graciliano e tantos outros prosadores brasileiros.

A língua inglesa, afinal, mudou muito antes e depois de Pessoa ter criado em Durban o heterônimo Alexander Search (e mais tarde ter encarado Shakespeare ao criar seus 35 Sonnets diretamente no idioma). Na África do Sul, como na China, ela é a língua oficial, comum aos meios de comunicação e solenidades públicas, e cada habitante tem seu nome em inglês. Como é que um idioma não vai ser afetado por isso? Naturalmente, para o bem e/ou para o mal. O trabalho dos escritores entra aqui, também, na luta contra o empobrecimento, o desgaste da diáspora, mas jamais no sentido purista. Machado, por exemplo, sempre repudiou o hábito brasileiro de abusar de hipérboles (cada vez mais, ninguém diz "o filme é bom", e sim "o filme é sensacional, ma-ra-vi-lho-so", etc.) e, em contraponto, refinou a ironia e pôs o melodrama em elipse.

Pense ainda nas palavras que passam de um idioma para outro e mudam bastante de sentido, como "todavia" (em espanhol, "ainda") ou esquisito (em inglês, "exquisite" é "primoroso"). Ou que mudam com o tempo, como o adjetivo "cool", que um dia significou a atitude de ignorar a opinião alheia e hoje significa ser elegante, informalmente bem vestido; ou "cético", agora usado para designar qualquer pessimista (como em "eurocéticos"); ou "pragmático", que no futebol brasileiro virou sinônimo de "burocrático". Nenhum bom escritor usa essas palavras ingenuamente, sem se dar conta dessas reinterpretações. O aspecto mais importante do gênio de Shakespeare, aliás, é esse: sua consciência de como a mesma palavra é acomodada para diferentes fins práticos e/ou morais. Pessoa, em sua busca pela plenitude perdida, como um Camões pós-imperial, já via na própria palavra essa dissociação, já via no verbo a multiplicação que traduziu em heterônimos.

Escrevi sobre Saramago, de quem admiro mais os romances históricos da primeira fase, que ele era um escritor raro por seu amor à palavra. Sim, o escritor que ama as palavras não é tão comum quanto se pode pensar. Sempre me espanto quando perguntam a profissionais do verbo qual a palavra mais bonita da língua portuguesa e eles respondem apenas uma, como "libélula" (a opção do filólogo Antonio Houaiss). São tantas! Num só livro de Mia Couto há um mar delas a pescar, e uma das características de Pessoa que mais aprecio é não ter medo de usar advérbios em "-mente" ou de repetir termos próximos ? recursos que os pedagogos da área dizem ruins para o estilo, como se eles tivessem um.

Todo dia me ocorre ao menos uma bela palavra que ainda não estava na minha hipotética lista de palavras mais bonitas; e hoje, por motivos evidentes, eu poderia escolher a do título acima, "diáspora". Como diria Pessoa, "o sentido que tem, os sentidos que evoca, e o ritmo que envolve esse sentido e estes sentidos" ? "diáspora" significa uma coisa e evoca muitas outras, envolvidas pela mesma musicalidade ? tudo isso lhe dá beleza. A diáspora das palavras é inevitável como o vento no barco.

Cadernos do cinema. O filme Brilho de Uma Paixão (mais uma tradução tola, deveria ser Estrela Brilhante), de Jane Campion, é sobre o relacionamento entre o poeta John Keats (Ben Whishaw) e Fanny Brawne (Abbie Cornish). Campion novamente faz um trabalho visual apurado, esquecendo que cinema não é apenas uma sucessão de quadros. Keats, um dos poetas favoritos de Pessoa (e meus), é visto como um sujeito melancólico e frágil, que mal consegue conter seu invejoso e ciumento amigo e patrocinador, Charles Brown (Paul Schneider); Whishaw em nenhum momento parece saber que está representando um gênio, do qual logo no início se diz que pensa rápido.

Assim, o filme começa espirituoso, com Fanny defendendo as roupas que cria e o estilo que adota e enfrentando Brown verbalmente, mas depois vai mergulhando no melodrama, sem o menor senso de ironia ? item indispensável na poesia de Keats. Abbie Cornish dá alma ao filme, e chora de um modo tão intenso que nos dá vontade de consolá-la. A essa altura, porém, só nos apegamos à beleza das imagens pastorais da Inglaterra e aos versos que os atores dizem. "Tender is the night", mas para Campion é um vale de lágrimas.

Por que não me ufano. Se houvesse mais respeito pelas palavras, o candidato a vice de José Serra, Índio da Costa, não diria que o PT tem "ligação" com as Farc, mas simpatia ou qualquer outro sentimento que não sugira sem provas o apoio a tráfico e sequestros. A simpatia é indiscutível, tanto que nos Fóruns Sociais sempre havia espaço para essas guerrilhas supostamente "de esquerda". A verdade é que os candidatos a vice são ainda piores que os candidatos a presidente. De Índio da Costa não se sabia quase nada até ele começar a soprar esse apito desafinado. De Michel Temer, o vice de Dilma Rousseff, já se sabe mais do que se gostaria de saber. E olhe que Serra não é nenhum jovem e Dilma passou por doença séria. Toc, toc, toc.

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