Imagem Luis Fernando Verissimo
Colunista
Luis Fernando Verissimo
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Dias e dias

Foi só na década de 30 do século passado que os americanos descobriram a relação entre o ato sexual e a procriação

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

22 de julho de 2018 | 15h46

Existe dia de quase tudo. Começou com o Dia das Mães. Um americano, cujo nome me escapa, mas é reverenciado onde quer que se reúnam diretores lojistas, foi o inventor do Dia das Mães. Fez isso pensando na própria mãe, aquela mulher extraordinária que o carregara no ventre durante nove meses sem cobrar um tostão, que o amamentara, que o embalara no seu berço e costurara sua roupa e, quando o descobrira dando banho no cachorro no panelão da sopa, quebrara uma colher de pau na sua cabeça. Sim, a mãe merecia um dia só dela. A ideia foi lançada num “brainstorm” da agência em que ele trabalhava.

– Precisamos criar dois, três, muitos natais. Só ganhamos dinheiro mesmo no Natal.

– Espera aí – disse alguém. – Só houve um Jesus Cristo.

– E os apóstolos? São 12 apóstolos. Podemos comemorar o aniversário de cada um.

– Mas nós não sabemos as datas dos aniversários.

– Melhor. Inventaremos, todos os meses, o aniversário de um apóstolo. Teremos natais o ano inteiro!

A ideia dos apóstolos não agradou. Podia dar confusão com a Igreja. Foi quando ele sugeriu:

– E o que me dizem de um Dia das Mães?

– Gênio! – gritaram todos, em uníssono.

*

O Dia das Mães foi um sucesso instantâneo. Ninguém poderia chamar aquilo de crasso oportunismo comercial. Ser contra o Dia das Mães equivaleria a ser contra a mãe como instituição. A reação seria grande, principalmente entre as mães, que, como se sabe, formam uma irmandade internacional, como a máfia, que também oferece proteção a seus fiéis e castigos aos seus infiéis que podem incluir até chantagem sentimental, muito pior do que mergulhos no rio com pés de cimento.

*

O Dia dos Pais também nasceu nos Estados Unidos, mas custou a pegar devido ao puritanismo que, sabidamente, influenciou a história americana durante anos. Foi só na década de 30 do século passado que os americanos descobriram a relação entre o ato sexual e a procriação. Até então, julgava-se que as mães geravam os filhos sozinhas e que o sexo, como beber e jogar cartas, era apenas uma coisa que os homens gostavam de fazer aos sábados. Instituída a proibição do sexo em todo o território nacional – a chamada Lei No No, uma coloraria da Lei Seca – notou-se uma acentuada queda no número de nascimentos no país, concluindo-se que o homem era importante na multiplicação da espécie. Muitas mulheres não aceitam isso e ainda consideram os homens perfeitamente dispensáveis, a não ser naquelas atividades reconhecidamente masculinas como a de costureiro, cozinheiro, cabeleireiro, decorador de interiores, “drag queen” e estivador. Estabelecido o papel essencial do homem na formação da família, lançaram o Dia do Pai, também chamado por algumas mulheres, com um sorriso secreto, de Dia do Pai Presumível. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.